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Por Isabel Ferreira
Estarão
as mulheres a passo com a Internet ?
Ou estarão com um “atraso”...?
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Roy Lichtenstein |
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INTER...QUÊ???
Quando
os EUA ergueram os olhos para o céu e viram o soviético Sputnik levantar voo
com toda a pujança, começaram a pensar seriamente nas suas vidinhas. A instalação
da Guerra Fria, a eminência do perigo nuclear e o medo gélido de uma desprotecção
comprometedora, na passagem da década de 50 para a de 60, levou o Departamento
de Defesa a investir na única arma que poderia tirar o país daquele aperto –
a tecnologia. À Agência Avançada de Investigação de Projectos (ARPA), foi
então pedido que criasse uma plataforma de comando e controlo militares, capaz
de sobreviver a um ataque nuclear. Constatada a vulnerabilidade da rede telefónica,
cujas linhas poderiam ser facilmente interceptadas e, mesmo, destruídas, a ARPA
avançou com a ideia pioneira da criação de uma rede, sim, mas de
“pacotes” de informação que se comutassem através de computadores. Um
ensaio de “net” foi posto à prova, com um equipamento tão rudimentar
quanto eficaz: um nódulo de dois minicomputadores, um mini-mini, a que se
chamou hospedeiro e que se limitava a enviar mensagens e um mini-major, o IMP
(Interface Message Processor) já com capacidade de armazenamento e
encaminhamento de dados. O IMP, conectado por um cabo de curta dimensão ao seu
“pequeno amigo”, recebia os “pacotes” de informação, “partia-os”
de acordo com as instruções e encaminhava-os electronicamente para destinos
independentes. Fascinante, confessem lá!
À
medida que mais IMP’s eram distribuídos e instalados, solicitados em força
pelos meios académicos e empresariais, a rede cresceu a grande velocidade e
espalhou-se por todo o território norte-americano. As sub-redes
transformaram-se em redes, reproduziram-se como coelhos, multiplicaram-se como o
milagre dos pães e, em 1983, a ARPANET (que ganhou entretanto o apelido) era
uma rede de redes, estável e bem sucedida, estabelecendo-se como a primeira
“Internet” à séria. A equipa que tinha começado esta epopeia com um orçamento
diminuto e que gradualmente foi sendo financiada por patrocinadores visionários,
não se poupou a esforços para melhorar as suas soluções de software. Outras redes preexistentes associaram-se-lhe mas, até aos
primeiros anos da década de 90, a Internet era principalmente utilizada por
investigadores ligados à Indústria, às Universidades e ao Governo. Foi a
aplicação WWW (World Wide Web) que alterou este cenário e trouxe milhões de
outras pessoas para a rede global. Tim Berners-Lee, o seu criador, acrescentou
sobretudo dinamismo e acessibilidade a um tipo de tecnologia que, até aí, se
apresentava demasiado estática e elitista. Esta facilidade tornou possível,
entre outras coisas, colocar várias páginas de texto, fotos, som e mesmo vídeos
num único site, com a inovação de se poder aceder a outros links, a partir da página inicial. A adesão foi de tal modo
desmesurada que, no seu primeiro ano de existência, o número de servidores WWW
cresceu de 100 para 7000!!!
Em Portugal, no espaço de 5
anos, o número de pessoas a aceder à rede passou de 500 mil para
aproximadamente 2 milhões e 700 mil. Desde o último trimestre de 1996 até ao
primeiro de 2001, o acesso à rede no nosso país simplesmente quintuplicou. Se
bem que os EUA liderem, destacadíssimos, a utilização da Internet por milhão
de habitantes, segundo estatísticas feitas em 48 países pela NUA Internet
Surveys, Portugal encontra-se num honroso 14º lugar, o que provavelmente se
ficará a dever ao facto de sermos herdeiros de uma riquíssima tradição de
navegadores! Segundo o estudo Bareme Internet feito pela Marktest, a procura dos
portugueses centra-se em conteúdos relacionados com a Formação Pessoal, Obtenção
de Notícias, Fins Profissionais e Académicos, Convívio com outras pessoas e
Aquisição de software. No entanto, a
maioria dos utilizadores acede à Internet por Divertimento (64,8%), conceito
lato que presumivelmente incluirá conteúdos lúdicos específicos ao gosto de
cada um. A avaliar pelos EUA, onde a Alexa Research concluiu que a procura de
conteúdos sexuais e pornográficos ocupa 70% do tráfego, superando todos os
outros no seu conjunto, podemos dizer que, de uma maneira geral, os Internautas
se “divertem” à grande e à escala global...
As Profecias e a Tecnologia
Quando
o microscópio, que serviu como forma de comunicação por excelência entre o
homem e o mundo celular, pôs a descoberto os mistérios da procriação,
cientistas, historiadores e filósofos debateram-se como duas equipas de râguebi
em campos adversários por causa de uma questão semelhante à do ovo e da
galinha. De acordo com o levantamento historico-científico de Clara Pinto
Correia, na sua obra The Ovary of Eve, uns tinham escrito nas costas da camisola “Sem
óvulo não há evolução” (ou seria ovulação, não me recordo bem), os
outros eram patrocinados pelos “Sem espermatozóides será o nada” quando,
no final, a complementaridade de ambos é indispensável. Tal como as
arbitragens no desporto contemporâneo, a religião andava por ali em bolandas,
servia ora como base conceptual apaziguadora, sustentada pelas suas
“verdades” espirituais, ora de barreira paralisante, travando os raciocínios
mais progressistas.
Isto porque, analisando os números apresentados pelo mundo fora, parece que as mulheres chegaram à Internet “depois” dos homens. Como se pudesse ser de outra forma...afinal, a probabilidade da maioria dos Internautas se ter estreado no espaço Web no local de trabalho é grande, até porque as vantagens inerentes à velocidade de acesso e ao custo zero das ligações não são de desprezar. E se a integração maciça das mulheres no mundo do trabalho ainda é uma tarefa a decorrer e a penetração em profissões de carácter empresarial e tecnológico ainda se faz a custo de boas provas dadas, não admira que assim seja! Aliás, a curiosidade e a adesão foram tais, em ambos os sexos bem entendido, que neste momento proliferam empresas de filtragem de conteúdos que têm por objectivo interditar o acesso a determinados sites, uma vez constatados os baixos índices de produtividade devido ao tempo gasto em incursões on-line sobre assuntos non-worked-related (envio de mails pessoais e participação em chats, por exemplo).

Damian Loeb "Permanent Press", 1998
ACESSO
A PARTIR DE CASA
Quanto
ao acesso a partir de casa, também é natural que se tenha registado uma afluência
maior, de ambos os sexos, quando aceder à Internet passou a ser possível com
um custo telefónico de chamada local. E se, também aí, as mulheres se
interessaram pela rede global “depois” dos homens, há que ter em conta,
para além dos factores sócio-profissionais, os sócio-familiares. A distribuição
das tarefas domésticas pelos dois membros do casal e a partilha dos cuidados
prestados aos filhos, ainda é um processo em curso. As mães de família,
absorvidas por essa função terão pouco tempo livre e disponibilidade mental
para empregar noutros interesses. Muitas já conseguiram negociar reestruturações
que as vão libertando, ora de forma pacífica ora em versão “ou vai ou
racha”. E depois, a par da formação pessoal e profissional cada vez mais
diferenciada, que pressupõe uma crescente autonomização financeira, existe o
fenómeno da multiplicação dos estilos de vida: mulheres solteiras,
divorciadas, viúvas, sozinhas por opção, casadas e boas gestoras do seu tempo
individual, um sem número de “enquadramentos” novos que acabam por ser
facilitadores do fenómeno da procura de conteúdos via Internet.
Feitas
as contas, não há “atraso” nenhum. Estamos
a dar passadas no tempo certo. O timing
de adesão ao ciberespaço está a par com o processo evolutivo global do
percurso feminino na sociedade em geral.
E no que respeita aos
interesses que impulsionam a navegação, será que existem diferenças
marcantes entre homens e mulheres? É verdade que têm proliferado os sites
“para mulheres” que, à partida, tendem a demarcar uma rede de interesses
femininos por excelência. Mas, e tal como na vida longe do écran dos nossos pc’s,
as afinidades acabam por se atrair de acordo com os interesses individuais, não
dependendo do género a que se pertence. Ou seja, identificamo-nos mais
profundamente com homens que tenham tido um percurso educacional, social e
profissional idêntico ao nosso e um modo de estar ideológico e
relacional que faça sentido, do que com mulheres com as quais isso não
aconteça. Reforçando esta ideia, Donna Haraway na sua obra “Ciência,
Cyborgs e Mulheres”, afirma que a divisão dos sexos na relação com a
tecnologia passa para segundo plano. No fundo, para esta autora, somos todos híbridos
de seres humanos e máquinas e é esta grande transformação que a Internet
veio pôr a descoberto.
Os portais tentam adaptar-se
a todo o custo ao mercado e procuram tornar os seus sites
mais apelativos e atraentes para gregos e troianas, mas o mais revolucionário
no meio de tudo isto é a possibilidade fabulosa de comunicação com o mundo.
As contas de e-mails que nos permitem
trocar informações quase instantaneamente e as salas de conversação on-line
são as formas mais “directas” de estabelecer relações com pessoas de todo
o planeta, de todas as idades, formações, ideologias e interesses, o que
constitui, no mínimo, uma fonte potencial de enriquecimento. Muitos utilizam
esta possibilidade inovadora de interacção como ponto de encontro, criando
grupos que discutem temas, que trocam ideias e que pensam em conjunto. Mulheres
e homens “conhecem-se”, “interagem”, “relacionam-se”,
“defrontam-se”, “apoiam-se” e “descompõem-se” sem que, para isso,
tenham de sofrer “na pele” as consequências das suas posturas mais ou menos
polémicas. Nesse espaço, todos são iguais, não há chefias, objectores de
consciência, censura política ou ideológica e a discussão sexista é
largamente ultrapassada pela necessidade de partilha a diversos níveis, sem os
constrangimentos do mundo real.
No reverso da medalha, outros entram no ciberespaço para canalizarem frustrações e angústias, vomitando através das teclas, ódios e venenos, hostilidades e traumas de vida, num processo catártico só possível pela utilização da máscara informática designada por nickname. Um contexto de liberdade e anonimato absolutos torna-se, por outro lado, vulnerável a algumas perversidades. E, se algumas são inofensivas, como entrar num chat com uma identidade que não corresponde ao Eu real, outras assumem formas mais graves, designadamente as fraudes informáticas, que obrigam os criminalistas a construir novos e punitivos enquadramentos jurídicos. Arturo Pérez-Reverte, na sua fantástica narrativa em “A Pele do Tambor”, presenteia-nos com uma trama inquietante em que um vírus informático é introduzido no sistema central do Vaticano, mobilizando uma investigação exaustiva por parte dos serviços secretos, para no final se descobrir que o presumível génio responsável é uma velhinha aristocrática, viciada em Coca-Cola, cheia de sentido de humor e espírito curioso. É uma obra admirável, sem dúvida, mas que não sirva de exemplo para reforçar e perpetuar o mito bíblico da perversa Eva original...era mesmo só o que faltava, as mulheres entrarem numa nova era agarradas ao estereotipo de hackers do 3º milénio!
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Uma FEMINISTA FOGOSA Entrevista e introdução por Inês Lima |
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Rose Muraro Foto Márcia Ramalho
"Eu também quero pôr o mundo em fogo!" Rose Marie Muraro
Rose Marie Muraro nasceu quase cega, no Rio de Janeiro por volta dos anos 30. De um dos olhos não via nada e o outro tinha cinco por cento de visão. Aos cinco anos, quando entrou para a escola, o médico condenou-a a aprender as primeiras letras e a voltar para casa. Rose diz que isso a tornou diferente das outras pessoas: ou ficava a vida inteira dentro de um quarto ou vivia fora do padrão; ou escolhia o impossível ou morria. Nas primeiras semanas de aulas já lia os livros de Monteiro Lobato. Nunca parou de ler e tornou-se escritora e editora. Só aos 66 anos, depois de uma cirurgia, viu o seu rosto com clareza.
Nascida no seio de uma das famílias mais ricas da época, a família Gebara, de origem libanesa, Rose Marie conheceu a pobreza aos quinze anos, com a morte do pai, com quem tinha uma relação de afecto. As lutas pela herança deixaram a sua mãe sem nada. Rose perdeu a segurança emocional e económica e despertou para uma consciência da injustiça social. No mesmo ano, juntou-se a um dos grupos de Acção Católica Estudantil de Dom Helder Câmara, iniciando a sua estreita ligação com os movimentos sociais da Igreja Católica.
Nos anos 70 e 80, período que coincidiu com a ditadura militar no Brasil, foi editora da Vozes, ao lado do teólogo Leonardo Boff e sob o comando de frei Ludovico, padre franciscano que foi aluno de Heidegger. Durante esse tempo, a Vozes, editora católica, publicou leigos como Jean-Paul Sartre, Claude Lévi-Strauss e Michel Foucault, autores proibidos como Paulo Freire e Darcy Ribeiro e livros censurados como "Brasil: nunca mais", que relata as torturas sofridas pelos presos políticos.
Com Leonardo Boff, Rose encabeçou a Teologia da Libertação, corrente progressista da Igreja Católica, que se colocava na perspectiva dos pobres, trabalhando ao lado destes pela sua libertação, uma vez que entende a pobreza como opressão. Ao mesmo tempo, envolvia-se no movimento de emancipação das mulheres, a conselho do seu psicanalista, depois de ter publicado, em 1966, "A mulher na construção do mundo futuro", o seu primeiro livro.
Formada em Física, Rose publicou, em 1968, "Automação e o futuro do homem". Mais tarde, com o aval de frei Ludovico, editou livros polémicos como "Libertação sexual da mulher", em 1970, "A sexualidade da mulher brasileira – corpo e classe social no Brasil", em 1983, e "Sexualidade, Libertação de Fé", em 1985. Nesse ano, o Vaticano condenou o então frei Leonardo Boff a onze meses de silêncio, sob a acusação de duvidar da origem divina da hierarquia católica no seu livro "Igreja, carisma e poder". Em 1986, Rose foi afastada da Vozes pelo Papa, depois de publicar "Por uma Erótica Cristã". Frei Ludovico foi transferido para o convento franciscano de Niterói.
Conhecida sobretudo por ter introduzido o feminismo no Brasil, nos anos 70, Rose afirma não ser possível uma relação profunda entre homens e mulheres. Entende, por exemplo, que os homens traem para manter o casamento e as mulheres para acabar com ele. Diz que os homens tendem a ser abstractos e as mulheres concretas. Hoje, com 71 anos, acaba de escrever, com Leonardo Boff, "Masculino, feminino: o ponto de mutação". Mas confessa que deve a vida a três homens: «a frei Ludovico, por tudo o que sou hoje; a meu analista, que me salvou a vida; e a meu marido, que não fez nada e, por isso mesmo, me obrigou a fazer tudo».
Rose Marie Muraro foi casada vinte e três anos e teve cinco filhos. Só depois de ser avó, aos 42 anos, (tem 12 netos) conheceu a realização sexual e o amor. Depois dos 60 já recebeu oito propostas de casamento, recusadas. Tudo isso ela conta na sua autobiografia, "Memórias de uma mulher impossível", editada no Brasil em 1999, pela Rosa dos Tempos. Em 406 páginas, descreve, mais do que a sua vida íntima, a história recente do seu país, através do seu envolvimento nos movimentos libertários do século XX; acentuando o que a levou a lutar pela justiça, toda a vida.




"MEMÓRIAS DE UMA MULHER IMPOSSÍVEL"
Inês Lima – Em "Memórias de uma Mulher Impossível" afirma que só refere 10% do que viveu. Qual foi o seu critério de escolha? O que deixou de fora e porquê?
Rose Marie -Falo muito de política e pouco da minha vida. O interessante, é que os homens dizem: "Como você se expôs!" e as mulheres: "Você não fala nada de si própria!" As mulheres acertaram! Não contei nada dos anos 70 quando os poetas, os artistas chegaram à minha vida e descobri a incompatibilidade entre o homem e a mulher. Não contei nada sobre a relação com meus filhos, com meu marido.Mesmo na parte política não contei as brigas. Pode ser que ainda faça isso, um livro totalmente do ponto de vista da minha subjectividade, mas não sei. É muito duro.
I.L. – Diz que não escolheu a felicidade e preferiu fazer o que tem que ser feito.
R. M. - Escolhi o impossível, algo que não fosse só para me satisfazer. Por exemplo, vários namorados meus queriam que eu largasse tudo para tomar conta deles. Eu gostava, mas disse sempre: "Não!! Vou continuar lidando com o grande mundo!" Foi uma das coisas que fiz pelo impossível. Larguei a minha felicidade. Para quê!? A maioria das mulheres que optaram por isso, ficaram dentro de casa enquanto os maridos se viravam na rua com outras. Eu disse não a várias pessoas ricas que quiseram casar comigo.
I.L. - Mas acha que um casamento desses representa a felicidade?
R. M. - A felicidade, como eu defino, é ter emprego, uma casa, um marido, é estar dentro dos padrões e dar certo dentro dos padrões do sistema. Sempre rejeitei o sistema e dei errado. Só pegava causas perdidas como a da construção do Mundo Novo até 1964, com D. Hélder! Mas jamais deixaria de fazer aquilo que sabia que, a longo, longo prazo, seria o que teria que ser feito. Quando você faz as coisas que têm que ser feitas, diz não ao seu narcisismo.
I.L. - E escolhe o mais difícil?
R. M - Escolhe o impossível! Para mim o possível é chato, porque é de antemão definido. Acho que nós, como disse a Clarice Lispector, podemos ser definidos de acordo com o que não somos. Não de acordo com o que já fizemos, mas com o que não fizemos, com o que vamos fazer.
I.L. – Refere-se a uma racionalidade pura ?
R. M – Sim. Que é completamente insana!
I.L. - O que a atraiu, inicialmente, para estudar ciências exactas?
R. M - Tenho um Logos, uma parte racional, muito forte. Mas ela não é hipertrofiada, porque sou mulher, e desde que a mulher nasce tende para a emoção, para o amor. O homem, que tem medo da castração vai para a racionalidade e rejeita o amor. Se ama o pai, morre imaginariamente; se ama a mãe, morre imaginariamente. Então fica cindido do amor. É como se você estivesse fumando, fechasse a boca e o nariz, e a fumaça saísse pelas orelhas. Defino a sublimação dessa maneira engraçada: toda a energia erótica saindo pelas orelhas. Desde os 4 anos de idade, o homem é carimbado mais para a racionalidade do que a mulher, e essa é toda a sua desgraça.
I.L. – Como mulher, de que forma faz coincidir essa sua parte racional com a emocional?
R. M - O Logos, a racionalidade, tem uma base fisiológica, é preciso ter vocação, ter neurónios. Os homens têm os neurónios e a cultura a favor, eu tinha os neurónios e a cultura contra. Então fiquei menos racional. E quando entrei numa área em que a racionalidade é hipertrofiada como a área de ciências exactas, estranhei muito, porque a minha racionalidade vinha sempre integrada com a emoção. Quase enlouqueci! Vi que os homens abafavam a emoção e viviam a racionalidade e, ao fim de um tempo, todos enlouqueciam, também. Porque a loucura é exactamente isso: você abafar sua emoção e hipertrofiar sua racionalidade. Eles eram psiquiatrizados (um grande professor meu, dos maiores que o Brasil já teve, foi para um instituto psiquiátrico, queria incendiar o colchão, queria incendiar tudo. E foi um homem que descobriu muitas coisas científicas). Então, achei que eu era um caos e que eles eram ordeiros. No fim, eles eram os loucos, eu a sadia! Concluí que a racionalidade pura é insana. Por exemplo: os meus amigos da matemática diziam "Ah, eles estão fazendo o Projecto Manhattan" – que era a bomba atómica – "eu vou fazer, porque, se não fizer, o meu companheiro vai ganhar o dinheiro e eu não vou". Isso é racionalidade pura. Eles não vêm as implicações morais. Racionalmente está correcto, humanamente é criminoso.
Razão e emoção
I.L. - Ouviu falar de um livro, escrito por um cientista português (António Damásio), chamado O Erro de Descartes? Ele descobriu que a zona cerebral responsável pelas emoções é a mesma que é responsável pela racionalidade, pelas decisões. Então, quando a zona que controla as emoções é lesada, nós também deixamos de conseguir tomar as...
R. M - As decisões certas!
I.L.- E humanamente correctas.
R. M – A gota de água para eu entender isso foi uma frase de um escritor chamado Chesterton [Gilbert Keith Chesterton, escritor inglês do final do século XIX, início do século XX], que dizia: "Louco não é o poeta que põe a cabeça na lua, mas sim o físico que quer pôr a lua na cabeça". Essa frase definiu a minha vida! Larguei a universidade para ir escrever poemas, e foi aí que me realizei. Casei, tive filhos, escrevi poemas, fui feliz, fui infeliz, fui tudo. Vivi! Se continuasse na universidade, ficaria como os meus amigos cuja vida é uma pobreza, uma merda! Hoje há muita racionalidade pura nos computadores, na bolsa de valores, que é absolutamente insana e está destruindo o mundo. Tudo o que é abstracto é mortal, e assassino. Por isso, acho eu, não pode haver nunca uma relação profunda entre homens e mulheres, porque o homem tente a ser abstracto, a mulher tende a ser concreta. No momento em que ele coloca algum princípio abstracto sobre a mulher, ele destrói, porque o único princípio da mulher é o amor, é o ser humano, não abstracto. Outro exemplo são as culturas desenvolvidas, brancas. Quando postas em contacto com culturas menos desenvolvidas racionalmente e mais desenvolvidas emocionalmente, destroem-nas. Temos o exemplo dos índios que começam a beber, tornam-se alcoólatras, porque não aguentavam o peso da racionalidade. Eu não aguento! Até hoje, se botarem o peso da racionalidade sobre mim, enlouqueço na hora.
I.L. – No entanto, parece não se ter desprendido totalmente dessa sua parte?
R. M – Não, porque ela está me salvando. A intuição, que é ela ligada à minha emoção, me faz, por exemplo, prever o futuro na área tecnológica, ver coisas que as outras pessoas não vêem. Quando escrevi Automação e o futuro do homem em 1968, vi o que iria acontecer no ano 2000. Porquê? Era intuição. O livro era completamente porra-louca, toda a criação é porra-louca, no sentido em que transgride as leis da racionalidade. Eu tenho um filho muito racional! Um dia eu lhe disse: " Fui fazer regressão a vidas passadas!" Ele ficou em-pu-te-ci-do, é psiquiatra e disse: "Você tá maluca!" Eles não entendem essas coisas. Imaginem, um psiquiatra! Se alguém está sem sono, dão um remédio pesado, que é uma coisa mecânica, em vez de perceberem quais os motivos pelos quais se está sem sono. Isso é a racionalidade que está sustentando o sistema. E eu, como tenho essa racionalidade integrada com a emoção, vejo todas as lacunas, as partes negativas da racionalidade. Estou rescrevendo o Automação e o futuro do homem, e acho que estou falando no deserto, porque sou a única pessoa que vê, por exemplo, que o cérebro humano não está aguentando as invenções tecnológicas. Porque o cérebro é da época dos caçadores e as invenções, completamente racionais, têm vida própria. Por incrível que pareça, depois que escrevi esse livro o irracional entrou nas ciências exactas como uma categoria epistémica maior, assim como a subjectividade foi trazida pelas feministas para a epistemologia como uma categoria epistémica maior. A subjectividade ao mesmo nível que a objectividade (que é a racionalidade nos espaços concretos), como o irracional ao mesmo nível que o racional. Só assim se pôde conceber a física quântica mais avançada, em que entra a distribuição. A ciência probabilística traz o irracional.
I. L. –Como consegue movimentar-se entre todas as áreas ?
R. M – Sou múltipla e reconheço as pessoas que o são. Uma vez encontrei uma mulher no avião. Tinha feito formação em Direito, pós-graduação em Psicologia, Doutorado em matemática. Eu disse: "Ih, você é múltipla! Cuidado, você é múltipla. Você sabe 5% de tudo, não sabe muito de nada e o sistema tende a esmagar essas cabeças, porque elas fazem as ligações entre campos de ciências, que não deveriam ser feitas." O sistema vive superqualificando o pensamento especializado e desqualificando o pensamento geral, sintético, para impedir que se faça a crítica geral do sistema. Então essas cabeças sofrem muito. Só consegui emprego porque a minha profissão exigiu. Eu tinha que saber de tudo. Me diziam "Você nunca vai ter profissão..." Mas eu encontrei uma profissão, a de editora.
I.L. Esse saber é o que se deve procurar e que permite saber colocar as questões?
R. M – É o que permite integrar a ciência com a poesia, a religião com a física. A religião de cada um não é a religião dos outros, a física de cada um não é igual à dos outros. Quem é múltipla liga a psicologia com a neurolinguística ou com a física quântica, liga a religião com a psicologia, liga todos os campos do saber. Fica-se um monstro, uma pessoa rejeitada. Esse tipo de cabeça sofre muito, porque não ganha dinheiro. Eu tornei-me editora sem querer. Fui convidada porque tinha muita cultura geral. Lembrei-me que, em Paris, quando estava estudando, fui convidada, na mesma semana, para o lançamento de dois livros: O Segundo Sexo e A Cibernética, que deu origem à Segunda Revolução Industrial. Os dois livros puseram o mundo em fogo. Quando decidi ser editora, disse: "Eu também quero pôr o mundo em fogo!" E pus!
O futuro do livro e a internet
I.L – O que acha das discussões sobre o futuro do livro...
R. M - O livro, não se sabe se vai continuar a ser feito de árvore. Mas o pensamento continua! A gente vai arranjar outras maneiras de ganhar dinheiro. Já escrevi sobre editoras virtuais.
I.L – E em relação à Internet.
R. M - A Internet muda a natureza do estado, a natureza do mercado económico, faz as decisões serem tomadas à velocidade da luz. Não aguentamos a Internet. É muita decisão, muita informação para processar. O cérebro humano não aguenta. Vou a Internet para poder ler o New York Times, o Le Monde Diplomatique. Um amigo meu me mostrou um sítio pornográfico, achei tão idiota, tão burro! Só para a garotada porque aquilo e muito déjà vu. Fazer sexo pela Internet... Que coisa idiota! É como fazer sexo pelo telefone! Eu prefiro fazer sexo da maneira antiga. É mais trabalhosa, menos segura emocionalmente – porque quando se faz pelo telefone ou pela Internet, está-se isolada, só com parte do ser trabalhando. Eu como sou integrada, quero tudo!
A IGREJA CATÓLICA E A FÉ
I.L. - Em relação à Igreja, diz que, apesar de ter perdido a fé, continuou junto dos movimentos sociais.
R. M - Acho que são os melhores que existem. Eu não sou católica, não. Sou pós-religiosa.
I.L. - Quando ou como perdeu a fé?
R. M - Tinha 24 anos! Foi quando li uma frase de Marx, dizendo que Deus não criou o homem à sua imagem e semelhança, mas foi o homem quem criou Deus à sua imagem e semelhança. Eu disse: "É verdade". Perdi a fé nesse momento. E fui desconstruindo tudo, tudo, até hoje.
I.L. - E como vê a Igreja, hoje em dia?
R. M - De duas maneiras. Primeiro, como um movimento horroroso que usou a organização popular em seu favor e se tornou corrupto. Em segundo lugar, tem uma parte que continua intocável, que se manifesta nos movimentos populares, que rompeu uma aliança de 1700 anos com os poderosos. Se permanecer assim, volto a fazer parte dos seus quadros. Se começar a manipular em favor do poder, como começou quando ganhou o Império Romano, estou fora.
I.L. - Quando diz que a Igreja está do lado dos oprimidos, refere-se à realidade brasileira?
R. M - Com certeza! Porque a Igreja conservadora, tanto protestante quanto católica, tem fechado de há alguns anos para cá, milhares e milhares de igrejas, por falta de fiéis e de padres. E toda a política do Vaticano é evitar que essas igrejas sejam transformadas em hotéis, motéis ou bordéis. É das coisas mais terríveis: eu via as igrejas fecharem na Filadélfia, onde eu morei.
I.L. - Quando entrou no movimento feminista, que envolve a libertação do corpo, como fazia a ponte entre esse pensamento e o pensamento da Igreja?
R. M - Eu estava me lixando para pontes! Estava em análise, estava questionando a Igreja E Frei Ludovico, que era meu patrão, não se incomodava que eu tivesse 500 namorados! Aí, se vinham pedir minha cabeça, ele não dava! Isso não era pecado, pecado era o poder – Foi assim que eu fiz a ponte. Graças a um homem de génio. Eu fui cercada por pessoas de génio.
AS MULHERES E O PODER
I.L - Você fala da mulher da política, diz que a mulher não aceita o poder, não quer.
R. M - Não quer o poder como o homem o exerce.
I.L – Então, como vê exemplos de mulheres como Thatcher ou Madeleine Albright?
R. M - Não, não! A Thatcher e as outras fazem o poder como os homens exercem. Ainda está por vir a mulher para criar radicais novas formas de poder. Cito o exemplo da Marta Suplicy que, quando era deputada, pediu uma verba para fazer uma grande campanha para os homens trabalharem dentro de casa. Os deputados homens ficaram ofendidíssimos e ela disse isto: "Pois, vocês fazem estradas, casas, fábricas, e as cabeças continuam a mesma coisa. Eu quero modificar as cabeças, porque no momento em que a criança vê a mãe e o pai trabalhando juntos, a sociedade autoritária a médio prazo cai. Porque a criança já tem como modelo, não uns batendo e outros apanhando, e uns sendo excluídos e os outros excluindo, mas sim uma sociedade democrática e pluralista" – Isto é uma mulher no poder.
I.L - Existe, hoje em dia, um movimento feminista organizado no Brasil?
R.M.- Pequeno, mas existe. Estão poucas no poder. A Ruth Cardoso é feminista organizada, a Marta Suplicy é feminista organizada, a Roseana Sarney suponho que também é feminista e é grande amiga da Ruth Escobar, que é uma grande feminista. E já as há jovens As feministas não começam nas universidades, começam no mercado de trabalho, na competição com os homens. Onde não há competição, não há feministas. Quando as mulheres vêem que estão competindo de maneira desigual, elas se organizam. Foi assim no mundo inteiro. Nos Estados Unidos hoje ha 50 milhões de feministas. Se aqui houver 10 mil, é muito.
I.L – Refere neste livro a sua relação com Clarice (Lispector). Diz que o grande problema dela era a sua profundidade.
R.M - Era. Isso está muito claro, ela não tinha com quem falar. Morreu. Ela me chamava, chamava uma outra pessoa para conversar. Hoje, eu tendo cada vez a ficar mais sozinha, porque me enche o saco a companhia dos seres humanos! É tudo tão padronizado que eu não vejo graça. Ela já era assim, naquela época. E, depois que foi traduzida em francês, tornou-se um dos dez escritores mais importantes do século XX.
I.L - Diz também que, quando ela estava a morrer, você não...
R.M - Eu não tive coragem.Não. Eu não vou nunca ver nenhum amigo meu morrer. Fico em absoluto desespero. Não tenho forças. Mas, por outro lado (estou me questionando sobre isso), quando passei muito mal, queria mais gente perto de mim e as pessoas também não tinham coragem... Mas eu até hoje sofro por causa disso.
I.L. Em sua opinião, a satisfação plena poria em causa a sociedade?
R.M - A sociedade como está, alimenta-se, caminha em cima da insatisfação sexual de homens e mulheres, isso é verdade.
I.L. - Portanto, se acontecesse essa satisfação sexual e afectiva, a sociedade seria posta em causa porque as pessoas não trabalhariam.
R.M. – Sim, e isso seria óptimo!
I.L O que aconteceria, então?
R.M. - As pessoas só trabalhariam para comer, como os povos primitivos. Não trabalhariam para um filho-da-puta dum norte-americano. Isso não quer dizer que a sociedade se imobilizaria. Mas as suas leis seriam outras. Haveria muito menos consumo, porque o consumo é produto da insatisfação sexual.
I.L – Acha então que o saber das coisas passa pela experimentação pela vivência.?
R.M – Sim. Tanto que na Bíblia a palavra "conhecer" tem a ver com a sexualidade. Nunca vi maior sabedoria do que essa. Com o saber abstracto você mata, você tem poder, mas você não tem conhecimento, não tem sabedoria. O saber abstracto não dá sabedoria, só o saber concreto.
A "GLOBALIZAÇÃO DA RESISTÊNCIA"
I.L. – Diz que "o homem não vai aguentar." É uma visão optimista ou pessimista em relação ao futuro?
R. M - Sou ambígua. Sou pessimista, porque já não ha mais criadores, um Beethoven, um Freud. Nem sequer uns Beatles! O Chico Buarque de Holanda não tem sucessor, nem tampouco o Tom Jobim. Os criadores têm todos mais de 60 anos. É interessantíssimo porque as pessoas que nasceram de ha 30 anos para cá, vêm padronizadas pela cultura de massas. Desde que nascem já vêm com videogame, já vêm com televisão, já vêm com "reality shows" Então não têm aquele silêncio interior necessário para tirar as suas energias mais profundas. É por isso que eu faço o meu netinho estudar violino. Para ver se ele mobiliza outras emoções.
I.L. - Mas a questão que se põe é que parece não haver escolha, uma alternativa ao neoliberalismo.
R. M - Acho que vai surgir aqui, no Brasil. Aqui já se está fazendo orçamento participativo, aqui estão-se tirando as classes dominantes do poder, pouco a pouco. As denúncias de corrupção generalizadas são a coisa mais importante que está acontecendo no Brasil, estão fazendo o povo mudar a sua maneira de votar. O povo, como todo o oprimido, gosta do opressor. À medida que se faz a crítica do opressor, deixa-se de estar sob o poder dele, que é o que está acontecendo aqui: a pouco a pouco, a sociedade está tomando as rédeas do estado, mas na social-democracia não toma nada! É uma alienação danada. Aqui, estão-se fazendo associações de sindicatos, associações de moradores que mudam as leis, fazendo pressão sobre o governo. Isso não tem na Europa! O modelo de socialismo democrático pluripartidário, pelo qual a Rosa Luxemburgo deu a vida, foi assassinada, está se fazendo aqui, graças à Teologia da Libertação, graças a esse trabalho que a gente começou com D. Hélder. Com esses métodos que eles inventaram – o Ver, Julgar e Agir – você faz grupos moleculares, grupos pequenos que vão tentar influir sobre a realidade micropolítica. A partir de um certo momento muda nosso governo de estado. Foi assim, por exemplo, que os cristãos organizaram os escravos, que os evangélicos estão organizando os excluídos. Que é que eles fazem? Dão comunidade, dão pão dentro dessa comunidade, desconcentram um pouco para os oprimidos. Pouco a pouco eles vão dando instrução, vão qualificando essas pessoas. No Império Romano, passados 200 anos eles tomaram todos os postos do governo. Quando houve a última perseguição, o Império parou porque não tinha mais gente qualificada, não tinha mais quadros. Assim caiu o Império Romano.
I.L. Acha que vai ser possível combater a globalização?
R.M. Acho que é assim que cai a globalização. Eu vejo pressões, como foram feitas em Seattle, como foram feitas Washington. O povo está tomando consciência da globalização da resistência, também, que é um acontecimento recente. Vejo que a coisa mais importante, depois dos anos 60, é o que está começando a acontecer agora: a resistência a nível global. Nos anos 80 houve o Consenso de Washington, em que as economias foram obrigadas a se abrirem, a se desregulamentarem, a tirarem os progressos do mundo do trabalho e então as multinacionais invadiram as economias, foram comprando, minando tudo por dentro, ficando cada vez mais gigantescas, se megafundem todos os dias. Desde 1997 que querem ganhar o estatuto de países, o que retira a nossa soberania nacional. A globalização é a mundialização da economia dominante. Sem uma gota de sangue. Por exemplo: veja-se a indústria cinematográfica, ela amacia a invasão económica primeiro, através da invasão cultural. Eu tenho aí um filme chamado Era uma vez em Hollywood, que é tão bonito!. Filmes assim fazem as pessoas comprarem certos produtos, deixar de comprar dos outros. Quando eu percebi que o mundo estava homogeneizado, foi quando estava voltando de Oslo, em 1978. Vi as Samambaias Choronas nas casas de Oslo. Fui para o Piauí, convidada para fazer uma conferência em Teresina, e vi as mesmas Samambaias Choronas. Eu disse "...Tem alguma coisa errada no mundo." Isto faz os mesmos padrões de cabeça e impede as pessoas de criar, porque todo o criador é um transgressor, é uma pessoa que joga no impossível. Se não transgredir não cria, por definição. Por isso acho que a felicidade é altamente nociva, porque ela não transgride os padrões. E o êxtase, que é o impossível, transgride todos.
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