O LUGAR DAS CRÍTICAS E DOS CRÍTICOS
OS PROFANADORES de Michael Collins por Helena Vasconcelos. Em colaboração com o Jornal PÚBLICO. Suplemento Cultural "Mil Folhas" www.publico.pt
EXPIAÇÃO de Ian McEwan por Tereza Coelho . Em colaboração com o Jornal PÚBLICO. Suplemento Cultural "Mil Folhas" www.publico.pt
Kafka, Viagem às Profundezas de uma Alma, Citati, Pietro por Maria João Cantinho
Nuvens & Labirintos, José Mário Silva, por Maria João Cantinho
Macau (Via Hong-Kong) Avelino Rosa, por Maria João Cantinho
MANUAL DO AGRICULTOR BRASILEIRO, de Carlos Augusto Taunay, por Sergio Amaral Silva
Este é o meu Corpo de Filipa Melo por Helena Vasconcelos
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OS PROFANADORES de Michael Collins, Tradução de Maria da Graça Melo, Ed. Gradiva, Lisboa, 2002
TWILIGHT ZONE Michael Collins, o escritor com nome de herói irlandês, é o autor deste romance que retoma o tema do anterior,“Os Guardiões da Verdade”(Ed. Gradiva 2000). A depressão que acompanhou a passagem da era industrial para a era tecnológica e a crise económica e social dos anos setenta, são tomados como cenário para dramas em que os principais actores são os desajustados da razão, a escória, os falhados.Collins, que foi viver para os Estados Unidos em criança, preferiu seguir o trilho de incontáveis legiões de aventureiros, escritores, poetas, músicos e vencidos da vida que preferem uma América marginal e violenta, na qual os mitos se instalam como lapas e são absorvidos e revividos com a ajuda de omnipresente e toda-poderosa televisão. Frank Cassidy, o “alter-ego” de Collins é um homem banal com um emprego incipiente. Vive em New Jersey, tem uma mulher chamada Honey (“hálito a galinha frita e Diet Pepsi”, unhas postiças pintadas de Candy Apple Red e trança pelo meio das costas ), um enteado adolescente no limiar da delinquência e um filho apaixonado por dinossáurios. Frank é um “natural-born looser” que espera ardentemente pelos seus cinco minutos de fama prometidos pelo sonho americano, com a naturalidade própria de quem sabe não ter nada a perder, alimentando a suspeita (uma quase certeza) de que não é amado; nem por Honey que sonha ainda com o ex-marido, um criminoso que espera no corredor da morte, a hora de ser executado, nem por Robert Lee que se prepara para seguir as pisadas do pai, nem mesmo por Ernie, o miúdo mais pequeno, habitante de uma galáxia distante chamada “Rua Sésamo”. A oportunidade surge no momento em que Frank, ao ter conhecimento do assassinato do tio, um homem sinistro que no remoto Michigan da sua infância o acolheu quando os seus próprios pais pereceram num misterioso incêndio, decide voltar às origens e reclamar a sua parte da herança. Com um passado repleto de violência e experiências traumáticas, a “corrida ao ouro” parece-lhe uma forma simples de ganhar dinheiro e de, ao mesmo tempo, resolver os mistérios da sua personalidade. A primeira parte de “Os Profanadores” centrada nessa viagem através do território americano é uma sequência familiar de imagens de motéis baratos, de néons suburbanos, da bares escuros com rostos indistintos e paredes sujas, de “junk-food” ( a “felicidade” pode encontrar-se numa embalagem de “happy meal”), de pregadores provincianos, de encontros fortuitos, de lutas familiares, de amuos e agressões menores. A família come, dorme, discute e vê televisão, enquanto Frank rouba carros e providencia o seu sustento. É possível detectar uma intimidade erótica entre o casal, a ternura de Frank por Ernie e a exclusão natural de Robert Lee mas, no geral, os sentimentos parecem tão fugidios como a risca branca no pavimento das estradas secundárias. À chegada à “capital do mundo de nenhuma parte”, a família Cassidy instala-se e parece ter encontrado um lar. Honey e Frank arranjam emprego, os rapazes são integrados nos estabelecimentos de ensino locais. A partir daqui, e enquanto o leitor tenta descortinar o tenebroso segredo da infância de Frank e a razão da perturbação real ou fabricada que o aterroriza, todos os personagens vão ficando cada vez mais perdidos e desfocados. Os episódios desgarrados sucedem-se, a trama constrói-se sobre um amontoado de figuras e acontecimentos aparentemente ligados apenas pelo acaso – um velho sentado a uma mesa a falar sózinho, um homem que parece Jesus Cristo à janela de um carro, uma dona de pensão que bebe demais e dança no Dia de Acção de Graças, uma cunhada neurótica que nunca aparece e um “irmão” que é o verdadeiro simbolo da América profunda: “bom”, emocionalmente imaturo, forte como um touro. A acção é pontuada por referências a momentos históricos, como o assassinato de Kennedy, a Guerra do Vietname, o suicídio dos seguidores de Jim Jones na floresta da Guiana, etc, (que fazem lembrar os truques usados em “Forrest Gump”). É também possível recordar vagamente David Lynch, principalmente em “Wild at Heart”, mas frases como “o mundo chamava com vozes de crianças, à beira do destino, à espera de nascer” ( pág. 55) ou “lá fora, a vida continuava a rolar na linha de montagem da estrada” (pág 57) – para citar dois ínfimos exemplos - criam uma sensação de desconcertante banalidade que remete para a ideia de um verdadeiro “zapping” literário. Também é possível descortinar as influências literárias: Jack London, (talvez) e, seguramente, Jack Kerouac com as suas deambulações de “anjo caído”, de vagabundo iluminado. Não é por acaso que Frank tem o apelido de Cassidy, o objecto amoroso de Kerouac, o seu “alter-ego”, o herói de “On the Road”. Mas Frank Cassidy nada tem de anjélico, é mais um “ersatz” da banda desenhada ou de jogos de computador do que propriamente uma figura literária. Collins também poderá ter procurado inspirar-se na desolada imobilidade dos quadros de Edward Hooper ou na rouquidão alcoólica das canções de Tom Waits. O drama da infância de Frank, manipulado por um médico psiquiatra grotesco que faz experiências com os pacientes e tem um ajudante atlético, remete directamente para Ken Kesey, o herói das “acid-trips” e veterano dos electrochoques que tornou célebre um tal Jack Nicholson quando da adaptação para o cinema do seu livro “Voando sobre um Ninho de Cucos”.Há, ainda, personagens como um antigo combatente do Vietname que se embebeda e continua, na vida civil, a comportar-se como se estivesse a cumprir ordens dadas aos berros por um qualquer sargento demasiado embrenhado no seu próprio papel, e saloios “red necks” que vão caçar alces como no “Deer Hunter” de Michael Cimino. Para além desta “enxurrada” de referências, Collins deixa-se arrastar, com entusiasmo romântico, pela ideia do herói-bandido do cinema como em “Butch Cassidy and the Sundance Kid” e “Bonnie and Clyde”. Há um momento em que Frank assalta um pobre diabo à saída de um bar, ficando na posse de uma enorme quantidade de dinheiro à custa de um truque rocambolesco que só “passa” como remotamente possível se se considerar que todas as personagens deste romance vivem numa espécie de “twilight zone”, em que acontece tudo graças a uma visão destorcida e meio demente da realidade. “Os Profanadores” constrói-se numa base de “clichés” em série. Uma vez que a originalidade se está a tornar cada vez menos popular e mais perigosa, tudo, incluindo a literatura, é inundado de imagens que são imediatamente reconhecidas.O autor escolheu situar a acção nos anos setenta do século XX, no limiar da era Reaganeana que ajudou a construir um universo vazio de ideias, de sentimentos, de emoções. Assim, na sua função de herdeiros desse “admirável mundo antigo”, estamos todos, no século XXI, presos na teia da irrealidade que é legada pela televisão: os horrores das guerras, dos assassinatos, dos assaltos à mão armada, dos actos de terrorismo, da destruição, da desolação, da fome, da miséria, do choro das crianças, da morte, da mutilação, são-nos despejados na soleira da porta da mesma forma como, antigamente, se fazia a entrega do leite e do jornal diário. Tal como médicos ou soldados, olhamos o horror com displicência, de relance, com ar ausente e extenuado pelo hábito. Noam Chomsky falou do futuro em termos de uma “mutação letal” da raça humana, ligada à transfiguração da linguagem, manipulada pelos meios de informação. Quando questionado a este respeito, Michael Collins concordou que “é assim que funciona a nova história: umas vezes os factos contêm uma certa veracidade outras vezes não e a história individual mistura-se com a colectiva. Antigamente uma pessoa pegava num livro, ia sentar-se algures e lia para si. Agora, pode estar a tomar o pequeno-almoço, a fazer amor com a mulher ou no meio de uma grande discussão e na televisão, subitamente, alguém morreu, acontece um desastre, um cataclismo.” E se, até agora, o “olhar “ para a televisão tem sido mais do que suficiente, a geração seguinte vai interligar-se verdadeiramente, vai penetrar em todos esses universos, através de novos jogos, cada vez mais sofisticados, em que todos os sentidos participam nesse mundo virtual. “Os Profanadores”, que em inglês se chama “The Ressurrectionists” é a história do pesadelo americano como o contrário de sonho. O grande espaço continental é o território da liberdade, do livre arbítrio, de um leque infindável de escolhas. É a terra das oportunidades – tanto para o mais estrondoso sucesso como para o mais irremediável falhanço. A “viagem iniciática” da Família Cassidy acaba por se tornar num amontoado de imagens descartadas de inúmeras séries televisivas e dos “blockbusters”. O romance não acaba sem um acto sangrento sacrificial e um final mais ou menos feliz que parece forçado e inverosímel. O autor afirmou que queria deixar uma espécie de “mensagem de esperança” mas a sua boa vontade é tão pouco convincente que, ao fechar o livro, fica apenas a incómoda sensação de que a história funcionaria bem melhor se passasse directamente no cinema ou na televisão.
O
Resgate de Northanger por Tereza Coelho Amor
que não assente em bom-senso está condenado. As guerras não se ganham
com retiradas. E não há expiação para os escritores, mesmo os ateus.
São conclusões de “Expiação”, o
melhor livro de Ian McEwan. Uma
mulher, se tem a pouca sorte de saber alguma coisa, deve escondê-lo
tanto quanto possa. Uma rapariga, se está predestinada para heroína, não
pode ser impedida, nem sequer pela maldade de quarenta famílias.
Isto já sabemos desde Jane Austen, em “A Abadia de
Northanger”, que Ian
McEwan cita na epígrafe de “Expiação” (o último — e melhor —
livro dele), e re-cita indirectamente muitas vezes, de muitas maneiras,
até ao fim. Ian
McEwan cita Austen, Samuel Richardson, Cyril Connolly, provavelmente
Henry James, outros: conhecidos, como Elizabeth Bowen e Rosamond
Lehmann, ou desconhecidos, como Lucilla Andrews. Mas o facto de ele
fazer, em “Expiação”, uma espécie de “selecção de
imortais” da literatura inglesa não é fundamental para a narrativa
— é uma curiosidade. Mas, é importante a parte específica de “A
Abadia de Northanger” colocada em epígrafe. Essa
parte corresponde ao momento em que Henry Tilney repreende Catherine
Morland pela sua imaginação delirante, e lhe recomenda que consulte a
consciência, que faça apelo ao sentido do provável e ao espírito de
observação, que acima de tudo se lembre de que é cristã —
em síntese, diz-lhe que não está disposto a aturar os
disparates que ela imagina. E
Catherine foge, chorando de
vergonha. É
esta a epígrafe. Depois “Expiação” começa, introduzindo Briony
Tallis, uma rapariga de 13 anos que gosta de escrever histórias.
Escreveu uma peça de teatro, “As Provações de Arabella”.
Estamos no verão de 1935. A
casa dos Tallis é isolada, o sr. Tallis não está, trabalha no seu
misterioso ministério, a sra. Tallis — Emily Tallis — é afectuosa,
pouco maternal e propensa a enxaquecas. Leon e Cecilia, os irmãos mais
velhos de Briony, estudam e só estão em casa nas férias. Ela tem um efectivo
estatuto de filha única. Briony
escreve porque gosta de ordem e organização.
Na enorme casa, o seu
quarto é o único que está arrumado. “As bonecas, de costas muito
direitas, nas múltiplas divisões da sua casinha de brincar, pareciam
ter recebido ordens estritas de não tocarem nas paredes; as muitas
figuras minúsculas (…), dispostas sobre o toucador, faziam lembrar,
pela forma como estavam alinhadas e pela distância que as separava, um
exército de cidadãos à espera de ordens. (…)” “Na quinta de
brincar montada num parapeito ao fundo, havia os animais do costume, mas
estavam todos voltados para o mesmo lado, como se estivessem prestes a
entoar uma canção”. Briony
tenciona representar “As Provações de Arabella” para Cecilia e
Leon, para a mãe, para Paul Marshall (um jovem empresário rico, amigo
de Leon, que chegou com ele) e para Robbie Turner, o filho da
mulher-a-dias, a quem Mr. Tallis ajudou até ele conseguir uma bolsa
para Cambridge, onde se prepara para o curso de medicina, depois de ter
estudado arquitectura. Tenta
ensaiar com o elenco, os seus três primos, Lola, de quinze anos, e os gémeos
Jackson e Pierrot, de nove, temporariamente em casa dos Tallis porque a
mãe fugiu com o amante para
Paris e o pai ficou abatido e sem paciência para os aturar. O
nervosismo dos três irmãos, forçados
a permanecerem numa casa
estranha não sabem por quanto tempo, contribui para a inviabilizar os
ensaios, e Briony, destroçada, suspende a estreia. Estamos,
ainda, na primeira parte de “Expiação”. O autor, com um
virtuosismo extremo, manipula o “suspense”, as revelações, o
primeiro e o segundo grau, as convenções do século XVIII — por
exemplo, e em segundo grau, através de Samuel Richardson e das suas
heroínas míticas , de “Pamela”, com a virtude recompensada, e de
“Clarissa”, mais a sua desvairada paixão por Lovelace. Aliás, a
moral da peça de Briony Tallis vem daí: amor que não esteja assente
em bom-senso está condenado. Além disso, Cecilia Tallis
lê “Clarissa”, embora contrariada — preferia Fielding,
porque acha que Richardson “não anda para a frente”.
E realmente diz muito sobre uma pessoa, preferir Fielding a
Richardson. Estamos
nós, portanto, neste impasse — Fielding ou Richardson, “notre coeur
balance”, aliás Fielding
não é assim-tão-cru, e Richardson também não é assim- tão-bom-psicólogo,
quando McEwan decide, e o que acontece a seguir é uma grandesíssima
tragédia, que produzirá, de resto, uma pequena colecção de tragédias
mais simples até ao final do livro. A propósito, temos dois finais à
escolha: um é feliz, vitoriano, “à Jane Austen”, um final daqueles
de que foi dito, e por um escritor, que são a distribuição dos últimos
prémios, pensões, maridos, mulheres, parágrafos e observações; e um
final contemporâneo, extraordinariamente irritante,
com aquela que é — suponho — a última referência a “A
Abadia de Northanger”, visto que se passa na antiga casa dos Tallis
que, depois da guerra, aparece baptizada como Hotel Tilney (de Henry
Tilney, o da epígrafe, claro). Depois
do prémio Booker em 1998, por “Amsterdão” (Gradiva), McEwan voltou
a ficar na selecção do prémio com este livro. Podemos, evidentemente,
ler “Expiação” sem referências. Mas é divertido quando
reparamos, é como se McEwan decidisse expiar o fardo da literatura. Há
muito mais referências: entre outras, comentários de Elizabeth Bowen
a“Duas Pessoas Junto de Uma Fonte”, o romance de Briony, a
confrontar com comentários que podem ser feitos às articuladíssimas e
improváveis crianças que a própria Elizabeth Bowen colocou nos seus
livros; a carta que Cyril
Connolly escreve, em “Expiação”, como director da Horizon, e que
poderia de facto ter sido escrita por Cyril Connolly, enquanto director
da Horizon; etc. Na
segunda parte do livro, brilhante e assustadora, a fuga em Dunquerque é
revista por Ian McEwan até não se parecer nada com aquilo que, nas páginas
de História da II Guerra, nos aparece como “O Milagre de
Dunquerque” — aqui é apenas a desolação de “Um exército
inteiro a fugir em direcção à costa, com os cigarros a servirem de
arma contra a fome”. O
que era a culpa, naqueles dias? “Nada. Toda gente tinha a culpa e
ninguém tinha. Ninguém seria redimido por uma alteração de um
testemunho, pois não havia gente suficiente, nem papel nem canetas, nem
paciência nem paz, para anotar as declarações de todas as testemunhas
e reunir os factos”. Na terceira parte,
Briony, sabendo, talvez, que os escritores sabem pouco de
sobrevivência — estamos a falar de um tempo em que há demasiadas
coisas “que não podem ser ditas nem perguntadas” — tenta
redimir-se como enfermeira em Londres, durante a II Guerra. São
os factos. Este livro é
notável. Leiam-no: em primeiro ou em segundo grau, como história de
amor ou como história da expiação do romance, ou ambas, tanto faz. No
fundo, tudo o que é preciso saber é que, se uma pessoa tem a pouca
sorte de saber alguma coisa, deve escondê-lo tanto quanto possa. Para não
ter de andar a pedir desculpa. Leiam-no.
Nota: este texto foi cedido pela autora com a colaboração do Jornal PÚBLICO, Lisboa -----------------------------------------------------------------------------------
Kafka, Viagem às Profundezas de uma Alma, Citati, Pietro, tradução de Ernesto Sampaio, colecção
Biografias, editora Cotovia, Lisboa 2001.
"(...)Mas
um dos homens pôs-lhe as mãos no pescoço, enquanto o outro lhe
espetava profundamente a faca no coração e aí a rodava duas vezes.
Moribundo, K. viu ainda os dois homens muito perto do seu rosto, com as
faces quase coladas, a observarem o desfecho. -
Como um cão! - disse. Era como se a vergonha devesse
sobreviver-lhe." Kafka,
O
Processo. Encontra-se
agora disponível a biografia de Citati sobre Kafka. O título Viagem às Profundezas de uma Alma indicia-nos, desde logo, o tom forte que o autor imprime à sua
obra, devendo ser considerada muito mais do que uma biografia. É também
um ensaio notável, que se lê com voracidade, como de resto quase todas
os seus livros. O kafkianismo a que fomos habituados, nos vários
registos conhecidos, desde uma perspectiva boémia de Kafka até ao seu
lado atormentado e de extrema fragilidade, deixa-nos sempre hesitantes
sobre o julgamento da personalidade deste génio da literatura moderna. O
que suscita, sobretudo, o nosso interesse é o modo como o autor soube
captar admiravelmente o aspecto profundamente alegórico da obra
kafkiana, esforçando-se por encontrar a razão de ser e a origem dessas
imagens que tanto nos perturbaram (e ainda perturbam) na sua literatura.
Desde a redacção dos primeiros escritos, menos alegóricos, até às
estranhas arquitecturas que nos fascinaram em O
Processo e O Castelo,
Citati persegue a origem dessas imagens como um caçador que persegue
a sua presa, seguindo-lhe as pisadas que se perdem e se fecham numa
escrita enigmática e poderosíssima. A
orientação teológica que se acentuará nos últimos escritos, em que
a figura de Deus aparece frequentemente, o problema da culpa, que tão
intimamente Kafka partilhou com Pascal, a procura de restituição de um
sentido para a existência humana que nunca se vislumbra (os heróis
kafkianos são pungentes precisamente por isso, encontram-se
constantemente a questionar o que jamais entenderão, problemas para os
quais não é possível qualquer saída), apresentando-se a existência
de uma forma cada vez mais desesperada e destituída de sentido,
comandada por estranhos desígnios. Os romances e contos de Kafka, como
Citati o demonstra são alegorias fortíssimas que expõem, em toda a
sua intensidade, a dilaceração gerada pelos eternos paradoxos humanos.
Uma dilaceração ostentada, visível até às suas entranhas, e que é
da ordem do que já não é possível pensar-se ou representar-se. ___________________________________________________________ Nuvens & Labirintos, José Mário Silva, , Editora Gótica, Lisboa, 2001 Por
Maria João Cantinho Onde adquiriu o livro:
na fnac. O que mais a atraiu na sua leitura: a
musicalidade, a maturidade poética e a beleza da poesia. Um extracto do livro:
."Do cimo das falésias,/ o
mar é sempre igual./ As ondas repetem o seu desabar de espuma, as/ suas
simetrias. As marés/ obedecem ainda às secretas/ leis da lua. O mar
dos gregos,/ repleto de deuses e de mistérios,/ é o que vemos agora.
Passam/ outros navios no horizonte,/mas com os mesmos
marinheiros." (p. 13)
Esta
obra belíssima, vencedora
do prémio literário Cidade de Almada,marca o aparecimento de um jovem
poeta no panorama português. Indo buscar o seu título à terceira
parte do livro, o autor presta uma homenagem à poesia contemporânea,
encontrando, sobretudo, em Borges e Sophia de Mello Breyner Andressen os
seus matriciais labirintos, subvertendo essas influências,
conjugando-as e criando uma poética de intenso fulgor. Porém,
se essa tutela primordial é explicitamente evocada na sua obra, não
pode deixar de se referir a revisitação dos autores clássicos, como
é o caso de Homero, bem como a presença de Matsuo Bashô, a presença,
igualmente, da pintura, como Dürer, Rembrandt, Turner ou Caspar
Friedrich, de Paula Rego ou Vieira da Silva. Na
primeira parte da obra, “Regresso”, o poeta abre com um poema
intitulado “Mar Intacto”, colocando-se,
e a nós também, imediatamente sob o signo do apolíneo, nomeadamente
da poesia de Sophia de Mello Breyner Andressen, que ressuma em todo
livro. Porém, este é o regresso do poeta a uma fonte originária, de
onde emana o esplendor da linguagem e das sagradas leis dos deuses, o pathos,
votando o homem à solidão existencial, trágica. A
figura do marinheiro, a que o poeta alude, quando diz “(...)o
mar dos gregos,/ repleto de deuses e de mistérios,/ é o que vemos
agora. Passam/ outros navios no horizonte,/ mas com os mesmos
marinheiros”, não encontra o seu correspondente, apenas, no poema
de Sophia, configurando o destino do próprio poeta, um Ulisses
contemporâneo e que leva a cabo a sua travessia, num mundo assombrado
pelas leis misteriosas do acaso e do caos. Reaparecem
Homero, cego e perdido em Santa Apolónia, Eurídice, atravessando um túnel
do metro, algures, onde a espera Orfeu, ressurgindo, ainda, Penélope e
Ariadne, trágicas figuras num mundo moderno e sincopado pela
velocidade. Esta fragmentação é exibida exemplarmente nos poemas como
“Sísifo, cinco da tarde”, herói a contar o tempo que lhe falta
para a reforma, arrastando penosamente o fardo dos dias, ou o admirável
poema “56 (Hades)”, que termina deste modo tão pungente: “(...) O autocarro segue a marcha/ e as pessoas não sabem o que fazer
com/ as mãos. Ficam os silêncios, o cheiro./ E regressa lentamente ao
mundo dos/ vivos a tenebrosa barca de Caronte.” “Ars Brevis” revela uma inegável maturidade, compondo-se de pequenos poemas, possuindo, na sua maioria, a estrutura dos haikai orientais, numa vibrante tensão da imagem, fragmentos poéticos que acolhem em si o fluxo, o sopro vital de cada coisa, revelando-se tão luminosamente no poema “Epitáfio possível para Matsuo Bashô”: “De cada poema/ fez um eco, um reflexo/ do mundo inteiro”. Para
finalizar, gostaria de ressaltar o belo poema de homenagem a Jorge Luís
Borges, intitulado “Ainda um outro poema dos dons”,
revelando um equilíbrio da musicalidade e do ritmo notáveis, dando-nos
conta da mestria de José Mário Silva: “Tal
como tu, Jorge Luis Borges,/ graças quero dar ao insondável/ labirinto
dos efeitos e das causas, /pelo cosmos infinito, espaço/ vazio onde
brilham galáxias(...)/pelas noites antigas em que as estrelas/ pareciam
grandes fogueiras acesas no céu.(...)”. Um autor a descobrir com urgência. Uma obra intensa, límpida e musical. Imperdível.
____________________________________________________________ MACAU (VIA HONG-KONG) Rosa, Avelino, Macau (Via Hong Kong), Editora Diferença, 2002.
Por
Maria João Cantinho
Onde adquiriu o livro: Oferecido pelo autor O que mais a atraiu na sua leitura: A leveza da linguagem e a sensualidade da escrita.. Um extracto do livro: ."Macau é a meta, com todas as incógnitas, imprevistos e indecisões. O avião que descola as rodas de Lisboa, transporta Pedro já para uma outra dimensão, como se a vida fosse feita de pedaços, que se colam mas não se seguem, necessariamente, uma sequência lógica, o fio condutor de uma narração linear.(página 11)”
Mais do que um romance de amor, Macau (via Hong kong), que se lê de um fôlego, é uma homenagem a um lugar que integra já o imaginário dos portugueses: Macau. E a cidade de Macau define-se aqui como uma rota do desejo, da utopia, em que “o avião que descola” “transporta Pedro, a personagem central, para uma outra dimensão”, arrancando-o aos laços e às relações que se configuram nessa plataforma de estabilidade, i.e., é a sua vida quotidiana. Assim se abre o horizonte no qual tudo pode acontecer e emergir, surpreendendo o leitor que acompanha as peripécias de Pedro. E o que acontece é, sem dúvida, a mais improvável de todas as coisas: a paixão e o amor, se entendermos ambos como os dois lados indiscerníveis de uma mesma moeda. Ainda no contexto da administração portuguesa, em 1985, e recém-chegado a Macau, o olhar de Pedro é o olhar de um português, confrontando-se com uma civilização milenar e misteriosa, que tanto fascinou Camilo Pessanha. E, simultaneamente, Pedro depara-se com essa estranha fusão entre a culturas chinesa e portuguesa. Falo evidentemente dos modos de viver que aí se instauraram, de um roteiro ou um mapa conhecido de todos os portugueses que aí estiveram e regressaram, saudosos. Mapa que é intensamente relembrado, o que lhe confere essa alegria vivificante de quem volta aos lugares de infância, recordando os cheiros, os odores, a beleza própria e íntima de cada coisa. De uma paisagem sentimental, de um determinado contexto que serviu de base e de pano de fundo ao autor deste livro. Escrito sob o signo da nostalgia, no melhor sentido, e não de um certo saudosismo ressentido, aquilo que, sobretudo, nos prende neste romance é a alegria que nele lateja. Uma alegria que lhe advém do modo como o autor perspectiva a realidade, aquela que nos toca, enquanto celebra esse foco utópico ou cidade, situada algures entre a nossa imaginação e a realidade: Se, por um lado, Macau reveste essa dimensão imaginária, enquanto foco de desejo, ou matriz do sonho, alimento do próprio amor/lugar da paixão; por outro, existe nela uma dimensão real, onde ocorre a acção, perfeitamente delimitada no espaço e no tempo. E é essencialmente neste aspecto que considero importante referir a excelência da escrita, no sentido em que Avelino Rosa faz da escrita um instrumento rigoroso de análise do contexto sócio-cultural e político, transformando Macau (Via Hong kong) numa fonte de informação preciosa, não apenas para os que desconhecem essa Macau, agora tão longínqua e perdida num passado aurático, como para quem lá viveu e pode confirmar o rigor da descrição. Um outro aspecto que considero relevante é leveza no modo como Avelino Rosa constrói a sua narrativa, a sua simplicidade despretensiosa e que, obviamente, resulta de um trabalho de apuro artesanal, eliminando a opacidade, simplificando e naturalizando a linguagem, conferindo-lhe, assim, um tom profundamente realista. Cito, a título de exemplo, a construção dos diálogos, em que o tom é sempre natural, algo que apenas pode ser conquistado através do domínio da escrita. Ressalto igualmente a consistência própria das personagens, recortando-se e adquirindo uma autonomia própria, em que os actores ou protagonistas são também personagens históricas e não apenas romanescas. A fluidez e sólida arquitectura do romance denuncia claramente um domínio de recursos estilísticos, uma narrativa apta à construção de ambientes e que, por certo, nos surpreenderá novamente. A escrita de Avelino Rosa é de uma sensorialidade intensa, evidenciando um olhar atento ao pormenor, uma observação cuidadosa, a capacidade de descrição límpida e solar, revelando, ainda uma extrema sensualidade, primando por um certo culto e influência da literatura erótica. O amor/paixão encontra-se sempre associado/a ao prazer erótico, mas também à exaltação da alegria, apelando à fruição dos sentidos, revelando um hedonismo que constitui o tom dominante de todo o romance. A uma dada altura, apetece perguntar quem é Aline, a heroína do romance. Mais do que protagonista e do que "mulher amada", mais do que celebração da mulher, em toda a sua beleza mestiça, misteriosa e exótica, a figura de Aline evoca e metaforiza o "corpo" dessa mediação entre as culturas portuguesa e chinesa, imagem que percorre o leitor de forma mais ou menos inconsciente, ao longo de todo o romance. Aline figura ou alegoriza o lugar do mistério, o desejo erótico de Pedro, que vai descobrindo, não apenas a mulher, mas a própria cultura chinesa, a que Aline dá voz. E essa ligação amorosa vai-se solidificando e frutificando, ramificando, ultrapassando em muito o mero papel amoroso. Ela actua como uma poderosa força atractiva sobre Pedro, arrastando-o ao coração da profunda ligação entre as duas culturas. Esse coração tem um lugar, um nome: Macau. _______________________________ MANUAL DO AGRICULTOR BRASILEIRO, de Carlos Augusto Taunay, organização de Rafael de Bivar Marquese. Companhia das Letras, 322 págs., R$ 25,50. Por Sergio Amaral Silva
MANUAL DO SENHOR DE ESCRAVOS Em fina sintonia com as forças mais conservadoras do século passado no Brasil, autor francês defendeu a escravidão negra. Este livro não é tão "inocente" quanto seu título pode sugerir. Afinal, este Manual do Agricultor Brasileiro não é um tratado didático sobre modernas técnicas de irrigação, semeadura ou cultivo da terra, embora alguns de seus capítulos sejam sobre pomares, horticultura, café e algodão. O mistério apenas começa a se desvendar quando observamos o ano em que saiu sua primeira edição (e que a Editora poderia ter incluído no título da obra, para ajudar a situar o leitor menos avisado): 1839.. Isso mesmo, mais de cento e sessenta anos atrás. Seu autor, o francês Carlos Augusto (batizado como Auguste Marie Charles, nome posteriormente trocado) Taunay nasceu em 1791 e veio para o Brasil em 1816, com o pai, Nicolas Antoine, pintor que integrava a Missão Artística Francesa da qual faziam parte Montigny e Debret. No Rio de Janeiro, os Taunay resolveram comprar um sítio de vinte hectares na Tijuca e começaram a cultivar café. Como seria de esperar, a família européia passou a utilizar a mão-de-obra predominante na agricultura brasileira da época, ou seja, escravos.
Carlos Augusto, que tinha sido major das tropas de Napoleão, ingressou no recém-criado Exército brasileiro com a mesma patente em 1822, participando das lutas pela Independência que ocorreram na Bahia. Em 1827, depois de pedir baixa do Exército, passou a dedicar-se à administração da lavoura cafeeira da família. Escreveu o Manual, que tentou publicar em 1829, sem êxito.
Dez anos mais tarde, o livro foi lançado e, rapidamente, conseguiu o apoio de Bernardo de Vasconcelos, ministro da Justiça e do Império do gabinete conservador que fora nomeado com a renúncia do regente Feijó, em 1837. Vasconcelos era o grande adversário de Feijó, que apoiava publicamente o fim da escravidão, afirmando ser uma "vergonhosa contradição com os princípios liberais que professamos, manter homens escravos". Esse poderoso padrinho garantiu uma segunda edição no mesmo ano e recomendou oficialmente a distribuição do livro em todo o país.
A súbita "simpatia" do ministro pela obra de Taunay se explica politicamente: tendo como tema central a administração dos escravos, que aponta como principal problema dos donos de terras no Brasil, o livro justifica a escravidão pela "inferioridade física e intelectual da raça negra". Bem ao gosto do regime conservador, propunha um modelo baseado em paternalismo e disciplina, seguindo o exemplo dos jesuítas e militares.
Além da escravidão, Taunay trata da necessidade de aumentar a produtividade da agricultura para exportação, bem como de ampliar a produção de gêneros de primeira necessidade, para alimentar os negros cativos. Duas questões de solução bastante simples, uma vez que, para o autor, a terra brasileira era tão fértil e abundante que bastaria aplicar sobre ela o esforço humano (escravo, naturalmente) para que, parafraseando Caminha em 1500, "tudo nela desse".
Dirigindo-se a seus pares, os membros da elite escravocrata, Taunay enumera à exaustão seus conselhos para que possam gozar "de doce satisfação, de inocente orgulho" e regozijar-se "no foro de sua consciência". Apesar da clareza com que propagava tais pontos de vista, anos depois de sua morte (na França, aos 76 anos), seu sobrinho, o escritor visconde de Taunay (autor do romance Inocência) e o filho deste, o historiador Affonso d’Escragnolle Taunay ainda tentaram "reabilitar" a memória do ancestral, transformando-o numa espécie de pioneiro do abolicionismo.
Inútil trabalho: este Manual que documenta bem a mentalidade da elite escravista é prova inequívoca de que de Carlos Augusto Taunay foi um dos mais convictos e sistemáticos defensores da servidão negra no Brasil do século 19. Conclusão óbvia: não se pode apagar a História passada, embora seja nosso dever, fazê-la mais digna enquanto temos nas mãos esta delicada matéria-prima chamada presente.
Sergio Amaral Silva (samaralsp@uol.com.br) é brasileiro, jornalista, economista e escritor.
___________________________________________________ ESTE É O MEU CORPO Filipa Melo. Uma edição cuidada, "limpa", com uma bela capa – sobre desenho da pintora Graça Morais, de Edições Temas e Debates, 153 págs. Por Helena Vasconcelos Onde comprou este livro: não foi comprado. Uma amiga recomendou-mo, outra, ofereceu-mo. O que mais a atraiu na leitura: uma construção muito hábil que absorve a atenção do leitor. Um tema (a Morte), à partida um pouco incómodo, mas que se transforma num pólo de uma sensualidade alarmante. O cuidado com que a autora efectuou uma pesquisa aturada sobre a técnica da autópsia e a forma como contextualiza toda essa informação. A relação estreita com a pintura – a luz e a composição dos mestres flamengos nas cenas da morgue, a referência ao abstraccionismo na descrição de texturas, por exemplo. A ligação com outras obras literárias contemporâneas como "Anil’s Ghost" de Michael Ondaatje, uma história construída a partir de uma autópsia com contornos políticos, sociais e culturais, "Being Dead" de Jim Crace em que se relata a vida íntima de um casal, cujos corpos são encontrados numa praia e "In the Cut" de Susanna Moore, um thriller erótico que é um verdadeiro mergulho no Hades. Uma frase do livro : "A parte interior das coxas está intacta, sem sinais de violência. As pernas. Os pés. Compridos como os de um homem, musculados. Nos tornozelos permanecem as marcas fundas das quatro voltas da corda de nylon. Também aqui não existem outros sinais de violência. Termino o exame externo. Observo pela ultima vez o que resta do teu rosto. Prepara-te. Vou entrar dentro de ti." (pág. 55)
CINZAS E PÓ É um cão quem primeiro encontra o cadáver, sob a chuva forte. Um dejecto sem calor, sem sopro, sem forma; rasgado, raspado, sem nome, sem roupas, sem sinais. Desde o inicio que sabemos que "aquilo" que jaz no alcatrão foi despojado de quase todas as marcas que o poderão identificar como um ser humano. Os traços fisionómicos que marcam mais fortemente a diferença, estão apagados por uma brutal erosão. O facto de só serem visíveis as sobrancelhas, acrescenta um dado simbólico. Elas representam uma referência que remete para a existência difusa da individualidade. (Muitas crianças desenham caras só com sobrancelhas o mesmo acontecendo em certas máscaras primitivas) Uma carcassa. O animal segue o seu destino, levando consigo o gosto familiar da morte. O mundo continua o seu girar cósmico. Enquanto uns seres morrem, outros nascem. António caminha pelas ruas molhadas a sonhar com o neto que acabou de ver, no hospital. É um homem solitário que fez da viuvez um pretexto para a ritualização da vida. Gosta de repetir os mesmos gestos, seguir os mesmos caminhos, cumprir as mesmas tarefas como se a rotina que o espera todos os dias lhe protegesse a existência. Ele é um ser vivo, de uma banalidade chocante, em contraste com a singularidade conferida pela morte, ao corpo que ele descobre. O seu casulo, reforçado pela indiferença, expõe-se aos acontecimentos, estala, abre fendas e dissolve-se perante a brutal evidência do nascimento e da morte.Mais cedo ou mais tarde, todos ficamos expostos. "Não há como a morte para desbravar a intimidade de alguém" diz o médico legista. Não há como a vida para exaltar os sentimentos. Há três homens importantes (e um, mais difuso, talvez por ser o único que verdadeiramente sabe amar) em torno deste objecto de desejo que é corpo de uma mulher, esse corpo que colocam na mesa das autópsias para ser apropriado pelo anatomista, pacificamente à espera de ser desvendado. Um palimpsesto que ele vai raspar, friccionar, rasgar, furar, virar do avesso, até lhe conhecer todos os mistérios. Uma história que se ira construindo como as peças de um puzzle. Do abstracto para o real. Um longo caminho em que o perigo maior é o sonho, o lugar onde se esbatem as fronteiras entre o real e o imaginado, a vida e a morte. É uma lugar comum dizer-se que Shakespeare descobriu a interiorização do "eu" muito antes de Freud, com Hamlet, cuja versão final nos chegou como uma peça emblemática do mistério que é o ser humano e a sua relação com a morte. "To die, to sleep, perchance to dream" entoa o eterno angustiado, o depressivo crónico. Em "Este é o meu Corpo" está-se em pleno território shakespereano, mais propriamente nesse reino da Dinamarca, decadente e apodrecido que serve de cenário ao delírio de um príncipe, possuído de furor dionisíaco, como fez notar Nietzsche em " O Nascimento da Tragédia": " ...o homem dionisíaco assemelha-se a Hamlet: a partir do momento em que ambos, por uma vez, tiveram acesso à verdadeira essência das coisas, ganhando conhecimento, a náusea inibe a acção, uma vez que a acção não pode alterar nada da natureza eterna das coisas....o abismo do esquecimento separa o mundo da realidade quotidiana da realidade dionisíaca". É esse reconhecimento que transforma a vida de todos os que gravitam em torno de Eduarda. Eduarda, em si mesma é uma figura apagada, já espectral mesmo em vida. Como um animal resignado ao sacrifício. Dela resta apenas a memória que persiste nos vivos, "flashes" difusos - a sua figura de costas a caminhar pelo corredor do escritório, a poeira que se acumula na sua secretária, os papéis sem nenhum detalhe pessoal que a remetem para um anonimato inquietante. A morte de Eduarda foi violenta. É necessário descobrir o como, o porquê. A violência é um dos atractivos mais excitantes, provoca um incontrolável formigueiro, um desejo de verdade, de justiça. Há uma implicação moral, uma imposição de ordem ética. O anatomista é o celebrante de uma longa cerimonia de reconhecimento. A sala de autópsias é uma catedral, a mesa onde repousa o pobre corpo desfigurado, um altar de sacrifício, homenagem e rito. As cenas na morgue são meticulosamente reveladas como composições de quadros. A iluminação, a forma dos instrumentos, a quietude, a precisão dos gestos, o brilho rápido dos metais compõem o cenário de um tabernáculo, um lugar sagrado, sacrificial. A precisão calma dos gestos, a paixão metafísica que os dita, possuem a solenidade de um sacerdote que oficia o ritual mágico: "Este é o meu corpo, a nova e eterna aliança – entre Deus e os homens – que promete a salvação das almas. (" É um acto sagrado" confia-nos o anatomista sem um vislumbre de pudor, enquanto avança com uma infinita ternura pelos meandros daquilo a que Shakespeare (sempre ele!) chamou "this mortal coil" ´Entre Jacinto, o amante que com o impulso primário do desejo a penetra para a destruir e possuir, e o anatomista que a desvenda há, aparentemente, um paralelismo. Ambos partilham o desespero da solidão, o drama do vazio existencial . É interessante notar que o médico vive tão intensamente a sua ligação com a morte que rejeita o que o poderia ligar a vida, a banalidade do quotidiano, a realidade dos sentidos, a atracção sexual. Como um sacerdote ( ou como o próprio Hamlet) que trava um dialogo metafísico com a morte, ele é casto, quase assexuado. É ele quem, finalmente desvenda os mistérios e "entrega o corpo". Há três homens na vida de Eduarda – o que lhe insufla vida, o que a arrasta para o inferno de Eros e o que lhe concede a união com o Divino. Não basta morrer – é preciso que a alma seja libertada.
"Uma vez, enquanto eu estava sepultando um dos meus mortos, o coveiro
passou por mim e disse:" De todos os que vêm aqui para sepultar, és o
único que amo.' |