O LUGAR DAS CRÍTICAS E DOS CRÍTICOS

OS PROFANADORES  de Michael Collins por Helena Vasconcelos. Em colaboração com o Jornal PÚBLICO. Suplemento Cultural "Mil Folhas" www.publico.pt 

 

EXPIAÇÃO  de Ian McEwan por Tereza Coelho . Em colaboração com o Jornal PÚBLICO. Suplemento Cultural "Mil Folhas" www.publico.pt 

 

Kafka, Viagem às Profundezas de uma Alma, Citati, Pietro por Maria João Cantinho

 

Nuvens & Labirintos, José Mário Silva, por Maria João Cantinho

 

Macau (Via Hong-Kong) Avelino Rosa, por Maria João Cantinho

 

MANUAL DO AGRICULTOR BRASILEIRO, de Carlos Augusto Taunay, por  Sergio Amaral Silva

 

Este é o meu Corpo de Filipa Melo por Helena Vasconcelos

 

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OS PROFANADORES de Michael Collins, Tradução de Maria da Graça Melo, Ed. Gradiva, Lisboa, 2002

 

TWILIGHT ZONE

 

Michael Collins, o escritor com nome de herói irlandês, é o autor deste romance que retoma o tema do anterior,“Os Guardiões da Verdade”(Ed. Gradiva 2000). A depressão que acompanhou a passagem da era industrial para a era tecnológica e a crise económica e social dos anos setenta, são tomados como cenário para dramas em que os principais actores são os desajustados da razão, a escória, os falhados.Collins, que foi viver para os Estados Unidos em criança, preferiu seguir o trilho de incontáveis legiões de aventureiros, escritores, poetas, músicos e vencidos da vida que preferem uma América marginal e violenta, na qual os mitos se instalam como lapas e são absorvidos e revividos com a ajuda de omnipresente e toda-poderosa televisão.

Frank Cassidy, o “alter-ego” de Collins é um homem banal com um emprego incipiente. Vive em New Jersey, tem uma mulher chamada Honey (“hálito a galinha frita e Diet Pepsi”, unhas postiças pintadas de Candy Apple Red e trança pelo meio das costas ), um enteado adolescente no limiar da delinquência e um filho apaixonado por dinossáurios.

Frank é um “natural-born looser” que espera ardentemente pelos seus cinco minutos de fama prometidos pelo sonho americano, com a naturalidade própria de quem sabe não ter nada a perder, alimentando a suspeita (uma quase certeza) de que não é amado; nem por Honey que sonha ainda com o ex-marido, um criminoso que espera no corredor da morte, a hora de ser executado, nem por Robert Lee que se prepara para seguir as pisadas do pai, nem mesmo por Ernie, o miúdo mais pequeno, habitante de uma galáxia distante chamada “Rua Sésamo”.

A oportunidade surge no momento em que Frank, ao ter conhecimento do assassinato do tio, um homem sinistro que no remoto Michigan da sua infância o acolheu quando os seus próprios pais pereceram num misterioso incêndio, decide voltar às origens e reclamar a sua parte da herança. Com um passado repleto de violência e experiências traumáticas, a “corrida ao ouro” parece-lhe uma forma simples de ganhar dinheiro e de, ao mesmo tempo, resolver os mistérios da sua personalidade. 

A primeira parte de “Os Profanadores” centrada nessa viagem através do território americano é uma sequência familiar de imagens de motéis baratos, de néons suburbanos, da bares escuros com rostos indistintos e paredes sujas, de “junk-food” ( a “felicidade” pode encontrar-se numa embalagem de “happy meal”), de pregadores provincianos, de encontros fortuitos, de lutas familiares, de amuos e agressões menores. A família come, dorme, discute  e vê televisão, enquanto Frank rouba carros e providencia o seu sustento. É possível detectar uma intimidade erótica entre o casal, a ternura de Frank por Ernie e a exclusão natural de Robert Lee mas, no geral, os sentimentos parecem tão fugidios como a risca branca no pavimento das estradas secundárias.

À chegada à “capital do mundo de nenhuma parte”, a família Cassidy instala-se e parece ter encontrado um lar. Honey e Frank arranjam emprego, os rapazes são integrados nos estabelecimentos de ensino locais. A partir daqui, e enquanto o leitor tenta descortinar o tenebroso segredo da infância de Frank e a razão da perturbação real ou fabricada que o aterroriza, todos os personagens vão ficando cada vez mais perdidos e desfocados. Os episódios desgarrados sucedem-se, a trama constrói-se sobre um amontoado de figuras e acontecimentos aparentemente ligados apenas pelo acaso  – um velho sentado a uma mesa a falar sózinho, um homem que parece Jesus Cristo à janela de um carro, uma dona de pensão que bebe demais e dança no Dia de Acção de Graças, uma cunhada neurótica que nunca aparece  e um “irmão” que é o verdadeiro simbolo da América profunda: “bom”, emocionalmente imaturo, forte como um touro.

A acção é pontuada por referências a momentos históricos, como o assassinato de Kennedy, a Guerra do Vietname, o suicídio dos seguidores de Jim Jones na floresta da Guiana, etc, (que fazem lembrar os truques usados em  “Forrest Gump”). É também possível recordar vagamente  David Lynch, principalmente em “Wild at Heart”, mas frases como “o mundo chamava com vozes de crianças, à beira do destino, à espera de nascer” ( pág. 55) ou “lá fora, a vida continuava a rolar na linha de montagem da estrada” (pág 57) – para citar dois ínfimos exemplos - criam uma sensação de desconcertante banalidade que remete para a ideia de um verdadeiro “zapping” literário.

Também é possível descortinar as influências literárias: Jack London, (talvez)  e, seguramente, Jack Kerouac com as suas deambulações de “anjo caído”, de vagabundo iluminado. Não é por acaso que Frank tem o apelido de Cassidy, o objecto amoroso de Kerouac, o seu “alter-ego”, o herói de “On the Road”. Mas Frank Cassidy nada tem de anjélico, é mais um “ersatz” da banda desenhada ou de jogos de computador do que propriamente uma figura literária. Collins também poderá ter procurado inspirar-se na desolada imobilidade dos quadros de Edward Hooper ou na rouquidão alcoólica das canções de Tom Waits. O drama da infância de Frank, manipulado por um médico psiquiatra grotesco que faz experiências com os pacientes e tem um ajudante atlético, remete directamente para Ken Kesey, o herói das “acid-trips” e veterano dos electrochoques que tornou célebre um tal Jack Nicholson quando da adaptação para o cinema do seu livro “Voando sobre um Ninho de Cucos”.Há, ainda, personagens como um antigo combatente do Vietname que se embebeda e continua, na vida civil, a comportar-se como se estivesse a cumprir ordens dadas aos berros por um qualquer sargento demasiado embrenhado no seu próprio papel, e saloios “red necks” que vão caçar alces como no “Deer Hunter” de Michael Cimino. Para além desta “enxurrada” de referências, Collins deixa-se arrastar, com entusiasmo romântico, pela ideia do herói-bandido do cinema como em “Butch Cassidy and the Sundance Kid” e “Bonnie and Clyde”. Há um momento em que Frank assalta um pobre diabo à saída de um bar, ficando na posse de uma enorme quantidade de dinheiro à custa de um truque rocambolesco que só “passa” como remotamente possível se se  considerar que todas as personagens deste romance vivem numa espécie de “twilight zone”, em que acontece tudo graças a uma visão destorcida e meio demente da realidade. 

“Os Profanadores” constrói-se numa base de “clichés” em série. Uma vez que  a originalidade se está a tornar cada vez menos popular e mais perigosa, tudo, incluindo a literatura, é inundado de imagens que são imediatamente reconhecidas.O autor escolheu situar a acção nos anos setenta do século XX, no limiar da era Reaganeana que ajudou a construir um universo vazio de ideias, de sentimentos, de emoções. Assim, na sua função de herdeiros desse “admirável mundo antigo”, estamos todos, no século XXI, presos na teia da irrealidade que é legada pela televisão: os horrores das guerras, dos assassinatos, dos assaltos à mão armada, dos actos de terrorismo, da destruição, da desolação, da fome, da miséria, do choro das crianças, da morte, da mutilação, são-nos despejados na soleira da porta da mesma forma como, antigamente, se fazia a entrega do leite e do jornal diário. Tal como médicos ou soldados, olhamos o horror com displicência, de relance, com ar ausente e extenuado pelo hábito. 

Noam Chomsky falou do futuro em termos  de uma “mutação letal” da raça humana, ligada à transfiguração da linguagem, manipulada pelos meios de informação. Quando questionado a este respeito, Michael Collins concordou que “é  assim que funciona a nova história: umas vezes os factos contêm uma certa veracidade outras vezes não e a história individual mistura-se com a colectiva. Antigamente uma pessoa pegava num livro, ia sentar-se algures e lia para si. Agora, pode estar a tomar o pequeno-almoço, a fazer amor com a mulher ou no meio de uma grande discussão e na televisão,  subitamente,  alguém morreu, acontece um desastre, um cataclismo.” E se, até agora, o “olhar “ para a televisão tem sido mais do que suficiente, a geração seguinte vai interligar-se verdadeiramente, vai penetrar em todos esses universos, através de novos jogos, cada vez mais sofisticados, em que todos os sentidos participam nesse mundo virtual.

“Os Profanadores”, que em inglês se chama “The Ressurrectionists” é a história do pesadelo americano como o contrário de sonho. O grande espaço continental é o território da liberdade, do livre arbítrio, de um leque infindável de escolhas. É a terra das oportunidades – tanto para o mais estrondoso sucesso como para o mais irremediável falhanço. A “viagem iniciática” da Família Cassidy acaba por se tornar num amontoado de imagens descartadas de inúmeras séries televisivas e dos “blockbusters”. O romance não acaba sem um acto sangrento sacrificial e um final mais ou menos feliz que parece forçado e inverosímel. O autor afirmou que queria deixar uma espécie de “mensagem de esperança”  mas a sua boa vontade é tão pouco convincente que, ao fechar o livro, fica apenas a incómoda sensação de que a história funcionaria bem melhor se passasse directamente no cinema ou na televisão.

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  EXPIAÇÃO  de Ian McEwan  Tradução de Maria do Carmo Figueira. Ed. Gradiva. 349 páginas

 

O Resgate de Northanger por Tereza Coelho

Amor que não assente em bom-senso está condenado. As guerras não se ganham com retiradas. E não há expiação para os escritores, mesmo os ateus. São conclusões de “Expiação”, o  melhor livro de Ian McEwan.

Uma mulher, se tem a pouca sorte de saber alguma coisa, deve escondê-lo tanto quanto possa. Uma rapariga, se está predestinada para heroína, não pode ser impedida, nem sequer pela maldade de quarenta famílias. Isto já sabemos desde Jane Austen, em “A Abadia de Northanger”,  que Ian McEwan cita na epígrafe de “Expiação” (o último — e melhor — livro dele), e re-cita indirectamente muitas vezes, de muitas maneiras, até ao fim. 

Ian McEwan cita Austen, Samuel Richardson, Cyril Connolly, provavelmente Henry James, outros: conhecidos, como Elizabeth Bowen e Rosamond Lehmann, ou desconhecidos, como Lucilla Andrews. Mas o facto de ele  fazer, em “Expiação”, uma espécie de “selecção de imortais” da literatura inglesa não é fundamental para a narrativa — é uma curiosidade. Mas, é importante a parte específica de “A Abadia de Northanger” colocada em epígrafe.

Essa parte corresponde ao momento em que Henry Tilney repreende Catherine Morland pela sua imaginação delirante, e lhe recomenda que consulte a consciência, que faça apelo ao sentido do provável e ao espírito de observação, que acima de tudo se lembre de que é cristã —  em síntese, diz-lhe que não está disposto a aturar os disparates que ela imagina.  E Catherine foge, chorando de vergonha.

É esta a epígrafe. Depois “Expiação” começa, introduzindo Briony Tallis, uma rapariga de 13 anos que gosta de escrever histórias. Escreveu uma peça de teatro, “As Provações de Arabella”.  Estamos no verão de 1935.  A casa dos Tallis é isolada, o sr. Tallis não está, trabalha no seu misterioso ministério, a sra. Tallis — Emily Tallis — é afectuosa, pouco maternal e propensa a enxaquecas. Leon e Cecilia, os irmãos mais velhos de Briony,  estudam e só estão em casa nas férias. Ela tem um efectivo estatuto de filha única.

Briony escreve porque gosta de ordem e organização.  Na enorme casa, o  seu quarto é o único que está arrumado. “As bonecas, de costas muito direitas, nas múltiplas divisões da sua casinha de brincar, pareciam ter recebido ordens estritas de não tocarem nas paredes; as muitas figuras minúsculas (…), dispostas sobre o toucador, faziam lembrar, pela forma como estavam alinhadas e pela distância que as separava, um exército de cidadãos à espera de ordens. (…)” “Na quinta de brincar montada num parapeito ao fundo, havia os animais do costume, mas estavam todos voltados para o mesmo lado, como se estivessem prestes a entoar uma canção”.

Briony tenciona representar “As Provações de Arabella” para Cecilia e Leon, para a mãe, para Paul Marshall (um jovem empresário rico, amigo de Leon, que chegou com ele) e para Robbie Turner, o filho da mulher-a-dias, a quem Mr. Tallis ajudou até ele conseguir uma bolsa para Cambridge, onde se prepara para o curso de medicina, depois de ter estudado arquitectura.  Tenta ensaiar com o elenco, os seus três primos, Lola, de quinze anos, e os gémeos Jackson e Pierrot, de nove, temporariamente em casa dos Tallis porque a mãe fugiu com o amante  para Paris e o pai ficou abatido e sem paciência para os aturar. O nervosismo dos três irmãos,  forçados a  permanecerem numa casa estranha não sabem por quanto tempo, contribui para a inviabilizar os ensaios, e Briony, destroçada, suspende a estreia.

Estamos, ainda, na primeira parte de “Expiação”. O autor, com um virtuosismo extremo, manipula o “suspense”, as revelações, o primeiro e o segundo grau, as convenções do século XVIII — por exemplo, e em segundo grau, através de Samuel Richardson e das suas heroínas míticas , de “Pamela”, com a virtude recompensada, e de “Clarissa”, mais a sua desvairada paixão por Lovelace. Aliás, a moral da peça de Briony Tallis vem daí: amor que não esteja assente em bom-senso está condenado. Além disso, Cecilia Tallis  lê “Clarissa”, embora contrariada — preferia Fielding, porque acha que Richardson “não anda para a frente”.  E realmente diz muito sobre uma pessoa, preferir Fielding a Richardson.

Estamos nós, portanto, neste impasse — Fielding ou Richardson, “notre coeur balance”,  aliás Fielding não é assim-tão-cru, e Richardson também não é assim- tão-bom-psicólogo, quando McEwan decide, e o que acontece a seguir é uma grandesíssima tragédia, que produzirá, de resto, uma pequena colecção de tragédias mais simples até ao final do livro. A propósito, temos dois finais à escolha: um é feliz, vitoriano, “à Jane Austen”, um final daqueles de que foi dito, e por um escritor, que são a distribuição dos últimos prémios, pensões, maridos, mulheres, parágrafos e observações; e um final contemporâneo, extraordinariamente irritante,  com aquela que é ­— suponho — a última referência a “A Abadia de Northanger”, visto que se passa na antiga casa dos Tallis que, depois da guerra, aparece baptizada como Hotel Tilney (de Henry Tilney, o da epígrafe, claro).

Depois do prémio Booker em 1998, por “Amsterdão” (Gradiva), McEwan voltou a ficar na selecção do prémio com este livro. Podemos, evidentemente, ler “Expiação” sem referências. Mas é divertido quando reparamos, é como se McEwan decidisse expiar o fardo da literatura. Há muito mais referências: entre outras, comentários de Elizabeth Bowen  a“Duas Pessoas Junto de Uma Fonte”, o romance de Briony, a confrontar com comentários que podem ser feitos às articuladíssimas e improváveis crianças que a própria Elizabeth Bowen colocou nos seus livros;  a carta que Cyril Connolly escreve, em “Expiação”, como director da Horizon, e que poderia de facto ter sido escrita por Cyril Connolly, enquanto director da Horizon; etc.

Na segunda parte do livro, brilhante e assustadora, a fuga em Dunquerque é revista por Ian McEwan até não se parecer nada com aquilo que, nas páginas de História da II Guerra, nos aparece como “O Milagre de Dunquerque” — aqui é apenas a desolação de “Um exército inteiro a fugir em direcção à costa, com os cigarros a servirem de arma contra a fome”.  O que era a culpa, naqueles dias? “Nada. Toda gente tinha a culpa e ninguém tinha. Ninguém seria redimido por uma alteração de um testemunho, pois não havia gente suficiente, nem papel nem canetas, nem paciência nem paz, para anotar as declarações de todas as testemunhas e reunir os factos”. Na terceira parte,  Briony, sabendo, talvez, que os escritores sabem pouco de sobrevivência — estamos a falar de um tempo em que há demasiadas coisas “que não podem ser ditas nem perguntadas” — tenta redimir-se como enfermeira em Londres, durante a II Guerra.

São os factos.  Este livro é notável. Leiam-no: em primeiro ou em segundo grau, como história de amor ou como história da expiação do romance, ou ambas, tanto faz. No fundo, tudo o que é preciso saber é que, se uma pessoa tem a pouca sorte de saber alguma coisa, deve escondê-lo tanto quanto possa. Para não ter de andar a pedir desculpa.

Leiam-no.

 

Nota: este texto foi cedido pela autora com a colaboração do Jornal PÚBLICO, Lisboa

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Kafka, Viagem às Profundezas de uma Alma, Citati, Pietro,  tradução de Ernesto Sampaio, colecção

 

Biografias, editora Cotovia, Lisboa 2001.

 

 

"(...)Mas um dos homens pôs-lhe as mãos no pescoço, enquanto o outro lhe espetava profundamente a faca no coração e aí a rodava duas vezes. Moribundo, K. viu ainda os dois homens muito perto do seu rosto, com as faces quase coladas, a observarem o desfecho.

- Como um cão! - disse. Era como se a vergonha devesse sobreviver-lhe."

 

Kafka, O Processo.

 

Encontra-se agora disponível a biografia de Citati sobre Kafka. O título Viagem às Profundezas de uma Alma indicia-nos, desde logo, o tom forte que o autor imprime à sua obra, devendo ser considerada muito mais do que uma biografia. É também um ensaio notável, que se lê com voracidade, como de resto quase todas os seus livros. O kafkianismo a que fomos habituados, nos vários registos conhecidos, desde uma perspectiva boémia de Kafka até ao seu lado atormentado e de extrema fragilidade, deixa-nos sempre hesitantes sobre o julgamento da personalidade deste génio da literatura moderna. O retrato que Citati nos dá de Kafka é o de um homem profundamente atormentado e inquieto, inteiramente submetido à literatura, vivendo única e simplesmente em função dela e tudo recusando em seu nome. A monotonia da sua vida e a rigidez dos seus hábitos subordinavam-se às leis da escrita, proporcionando-lhe o espaço e a solidão necessários à criação. A relação com Felice Bauer, os seus noivados fracassados e as suas relações com mulheres em geral, como Milena, Dora e Grete, eram dominadas pela submissão à escrita. Em nome dela renunciou ao casamento que lhe retiraria a solidão de que precisava, auto-condenando-se a um círculo cujo centro era, precisamente, o da criação. A tuberculose, a intensa fragilidade, os horários a que se submetia para conseguir escrever, para além do emprego que sempre manteve, excepto na fase final da sua vida, tudo isso é abordado de forma intensa e, às vezes, pungente, nesta obra de Citati. Fica-nos o retrato de um homem infeliz e só, cuja ideia de felicidade consistia justamente num casamento, mas à qual renunciou em definitivo. Fazendo desfilar diante do nosso olhar os factos que marcaram decisivamente a sua vida e se imprimiram na sua obra, Citati prima pelo entrosamento dos aspectos biográficos com o ensaio e estudo da sua literatura. Assim, a relação de Kafka com a família e, em especial, com o pai, com o nihilismo e o lado alegórico, profundamente cravado no cerne das suas imagens, o desespero humano constantemente renovado e despedaçado que constituem os seus romances, tudo isso é analisado com mestria e descrito num tom romanceado, imprimindo o dinamismo que caracteriza as biografias de Citati.

O que suscita, sobretudo, o nosso interesse é o modo como o autor soube captar admiravelmente o aspecto profundamente alegórico da obra kafkiana, esforçando-se por encontrar a razão de ser e a origem dessas imagens que tanto nos perturbaram (e ainda perturbam) na sua literatura. Desde a redacção dos primeiros escritos, menos alegóricos, até às estranhas arquitecturas que nos fascinaram em O Processo e O Castelo, Citati persegue a origem dessas imagens como um caçador que persegue a sua presa, seguindo-lhe as pisadas que se perdem e se fecham numa escrita enigmática e poderosíssima. Logo no capítulo I, o modo como o autor define a presença de Franz Kafka para os seus amigos, parece aproximar-se bastante daquela que imaginamos: «Todas as pessoas que conheceram Franz Kafka na juventude ou na maturidade, ficaram com a impressão de estar circundado por uma "parede de vidro". Estava ali, atrás do vidro transparentíssimo, caminhava graciosamente, gesticulava, falava, sorria como um anjo meticuloso e ágil(...)». Um olhar de anjo, derradeiro, sobre os tempos que se adivinhavam já absurdos, dominados pela presença do Mal absoluto (pouco depois do desaparecimento de Kafka terá início a perseguição aos judeus na Alemanha e em toda a Europa, de que as suas próprias irmãs foram vítimas). A lucidez atroz desse olhar é já a de um visionário, alguém que sabe e reconhece na vivência humana a fragmentação e a perda do sentido da experiência, através das figuras alegóricas da lei e da palavra.

A orientação teológica que se acentuará nos últimos escritos, em que a figura de Deus aparece frequentemente, o problema da culpa, que tão intimamente Kafka partilhou com Pascal, a procura de restituição de um sentido para a existência humana que nunca se vislumbra (os heróis kafkianos são pungentes precisamente por isso, encontram-se constantemente a questionar o que jamais entenderão, problemas para os quais não é possível qualquer saída), apresentando-se a existência de uma forma cada vez mais desesperada e destituída de sentido, comandada por estranhos desígnios. Os romances e contos de Kafka, como Citati o demonstra são alegorias fortíssimas que expõem, em toda a sua intensidade, a dilaceração gerada pelos eternos paradoxos humanos. Uma dilaceração ostentada, visível até às suas entranhas, e que é da ordem do que já não é possível pensar-se ou representar-se. Seria desejável, ainda, que Citati soubesse articular melhor o homem e a sua época, tendo de facto mostrado o quanto de visionário existe na sua obra, o único aspecto que não é abordado e que parece tão crucial para compreender a obra de Kafka em toda a sua real extensão.  

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Nuvens & Labirintos, José Mário Silva, , Editora Gótica, Lisboa, 2001

Por Maria João Cantinho

Onde adquiriu o livro: na fnac.

O que mais a atraiu na sua leitura: a musicalidade, a maturidade poética e a beleza da poesia.

Um extracto do livro: ."Do cimo das falésias,/ o mar é sempre igual./ As ondas repetem o seu desabar de espuma, as/ suas simetrias. As marés/ obedecem ainda às secretas/ leis da lua. O mar dos gregos,/ repleto de deuses e de mistérios,/ é o que vemos agora. Passam/ outros navios no horizonte,/mas com os mesmos  marinheiros." (p. 13)  

 

Esta obra belíssima, vencedora do prémio literário Cidade de Almada,marca o aparecimento de um jovem poeta no panorama português. Indo buscar o seu título à terceira parte do livro, o autor presta uma homenagem à poesia contemporânea, encontrando, sobretudo, em Borges e Sophia de Mello Breyner Andressen os seus matriciais labirintos, subvertendo essas influências, conjugando-as e criando uma poética de intenso fulgor.

Porém, se essa tutela primordial é explicitamente evocada na sua obra, não pode deixar de se referir a revisitação dos autores clássicos, como é o caso de Homero, bem como a presença de Matsuo Bashô, a presença, igualmente, da pintura, como Dürer, Rembrandt, Turner ou Caspar Friedrich, de Paula Rego ou Vieira da Silva.

Na primeira parte da obra, “Regresso”, o poeta abre com um poema intitulado “Mar Intacto”, colocando-se, e a nós também, imediatamente sob o signo do apolíneo, nomeadamente da poesia de Sophia de Mello Breyner Andressen, que ressuma em todo livro. Porém, este é o regresso do poeta a uma fonte originária, de onde emana o esplendor da linguagem e das sagradas leis dos deuses, o pathos, votando o homem à solidão existencial, trágica.

A figura do marinheiro, a que o poeta alude, quando diz “(...)o mar dos gregos,/ repleto de deuses e de mistérios,/ é o que vemos agora. Passam/ outros navios no horizonte,/ mas com os mesmos marinheiros”, não encontra o seu correspondente, apenas, no poema de Sophia, configurando o destino do próprio poeta, um Ulisses contemporâneo e que leva a cabo a sua travessia, num mundo assombrado pelas leis misteriosas do acaso e do caos.

Reaparecem Homero, cego e perdido em Santa Apolónia, Eurídice, atravessando um túnel do metro, algures, onde a espera Orfeu, ressurgindo, ainda, Penélope e Ariadne, trágicas figuras num mundo moderno e sincopado pela velocidade. Esta fragmentação é exibida exemplarmente nos poemas como “Sísifo, cinco da tarde”, herói a contar o tempo que lhe falta para a reforma, arrastando penosamente o fardo dos dias, ou o admirável poema “56 (Hades)”, que termina deste modo tão pungente: “(...) O autocarro segue a marcha/ e as pessoas não sabem o que fazer com/ as mãos. Ficam os silêncios, o cheiro./ E regressa lentamente ao mundo dos/ vivos a tenebrosa barca de Caronte.”

“Ars Brevis” revela uma inegável maturidade, compondo-se de pequenos poemas, possuindo, na sua maioria, a estrutura dos haikai orientais, numa vibrante tensão da imagem, fragmentos poéticos que acolhem em si o fluxo, o sopro vital de cada coisa, revelando-se tão luminosamente no poema “Epitáfio possível para Matsuo Bashô”: “De cada poema/ fez um eco, um reflexo/ do mundo inteiro”.

Para finalizar, gostaria de ressaltar o belo poema de homenagem a Jorge Luís Borges, intitulado Ainda um outro poema dos dons”, revelando um equilíbrio da musicalidade e do ritmo notáveis, dando-nos conta da mestria de José Mário Silva: “Tal como tu, Jorge Luis Borges,/ graças quero dar ao insondável/ labirinto dos efeitos e das causas, /pelo cosmos infinito, espaço/ vazio onde brilham galáxias(...)/pelas noites antigas em que as estrelas/ pareciam grandes fogueiras acesas no céu.(...)”.

Um autor a descobrir com urgência. Uma obra intensa, límpida e musical. Imperdível.

 

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MACAU (VIA HONG-KONG)

Rosa, Avelino, Macau (Via Hong Kong), Editora Diferença, 2002.

Por Maria João Cantinho

 

Onde adquiriu o livro: Oferecido pelo autor

O que mais a atraiu na sua leitura: A leveza da linguagem e a sensualidade da escrita..

Um extracto do livro: ."Macau é a meta, com todas as incógnitas, imprevistos e indecisões. O avião que descola as rodas de Lisboa, transporta Pedro já para uma outra dimensão, como se a vida fosse feita de pedaços, que se colam mas não se seguem, necessariamente, uma sequência lógica, o fio condutor de uma narração linear.(página 11)”

 

Mais do que um romance de amor, Macau (via Hong kong), que se lê de um fôlego, é uma homenagem a um lugar que integra já o imaginário dos portugueses: Macau. E a cidade de Macau define-se aqui como uma rota do desejo, da utopia, em que “o avião que descola” “transporta Pedro, a personagem central, para uma outra dimensão”, arrancando-o aos laços e às relações que se configuram nessa plataforma de estabilidade, i.e., é a sua vida quotidiana.

Assim se abre o horizonte no qual tudo pode acontecer e emergir, surpreendendo o leitor que acompanha as peripécias de Pedro. E o que acontece é, sem dúvida, a mais improvável de todas as coisas: a paixão e o amor, se entendermos ambos como os dois lados indiscerníveis de uma mesma moeda.

Ainda no contexto da administração portuguesa, em 1985, e recém-chegado a Macau, o olhar de Pedro é o olhar de um português, confrontando-se com uma civilização milenar e misteriosa, que tanto fascinou Camilo Pessanha. E, simultaneamente, Pedro depara-se com essa estranha fusão entre a culturas chinesa e portuguesa.

Falo evidentemente dos modos de viver que aí se instauraram, de um roteiro ou um mapa conhecido de todos os portugueses que aí estiveram e regressaram, saudosos. Mapa que é intensamente relembrado, o que lhe confere essa alegria vivificante de quem volta aos lugares de infância, recordando os cheiros, os odores, a beleza própria e íntima de cada coisa. De uma paisagem sentimental, de um determinado contexto que serviu de base e de pano de fundo ao autor deste livro.

Escrito sob o signo da nostalgia, no melhor sentido, e não de um certo saudosismo ressentido, aquilo que, sobretudo, nos prende neste romance é a alegria que nele lateja. Uma alegria que lhe advém do modo como o autor perspectiva a realidade, aquela que nos toca, enquanto celebra esse foco utópico ou cidade, situada algures entre a nossa imaginação e a realidade:

Se, por um lado, Macau reveste essa dimensão imaginária, enquanto foco de desejo, ou matriz do sonho, alimento do próprio amor/lugar da paixão; por outro, existe nela uma dimensão real, onde ocorre a acção, perfeitamente delimitada no espaço e no tempo. E é essencialmente neste aspecto que considero importante referir a excelência da escrita, no sentido em que Avelino Rosa faz da escrita um instrumento rigoroso de análise do contexto sócio-cultural e político, transformando Macau (Via Hong kong) numa fonte de informação preciosa, não apenas para os que desconhecem essa Macau, agora tão longínqua e perdida num passado aurático, como para quem lá viveu e pode confirmar o rigor da descrição.

Um outro aspecto que considero relevante é leveza no modo como Avelino Rosa constrói a sua narrativa, a sua simplicidade despretensiosa e que, obviamente, resulta de um trabalho de apuro artesanal, eliminando a opacidade, simplificando e naturalizando a linguagem, conferindo-lhe, assim, um tom profundamente realista. Cito, a título de exemplo, a construção dos diálogos, em que o tom é sempre natural, algo que apenas pode ser conquistado através do domínio da escrita.

Ressalto igualmente a consistência própria das personagens, recortando-se e adquirindo uma autonomia própria, em que os actores ou protagonistas são também personagens históricas e não apenas romanescas. A fluidez e sólida arquitectura do romance denuncia claramente um domínio de recursos estilísticos, uma narrativa apta à construção de ambientes e que, por certo, nos surpreenderá novamente.

A escrita de Avelino Rosa é de uma sensorialidade intensa, evidenciando um olhar atento ao pormenor, uma observação cuidadosa, a capacidade de descrição límpida e solar, revelando, ainda uma extrema sensualidade, primando por um certo culto e influência da literatura erótica. O amor/paixão encontra-se sempre associado/a ao prazer erótico, mas também à exaltação da alegria, apelando à fruição dos sentidos, revelando um hedonismo que constitui o tom dominante de todo o romance.

A uma dada altura, apetece perguntar quem é Aline, a heroína do romance. Mais do que protagonista e do que "mulher amada", mais do que celebração da mulher, em toda a sua beleza mestiça, misteriosa e exótica, a figura de Aline evoca e metaforiza o "corpo" dessa mediação entre as culturas portuguesa e chinesa, imagem que percorre o leitor de forma mais ou menos inconsciente, ao longo de todo o romance. Aline figura ou alegoriza o lugar do mistério, o desejo erótico de Pedro, que vai descobrindo, não apenas a mulher, mas a própria cultura chinesa, a que Aline dá voz. E essa ligação amorosa vai-se solidificando e frutificando, ramificando, ultrapassando em muito o mero papel amoroso. Ela actua como uma poderosa força atractiva sobre Pedro, arrastando-o ao coração da profunda ligação entre as duas culturas. Esse coração tem um lugar, um nome: Macau.

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MANUAL DO AGRICULTOR BRASILEIRO, de Carlos Augusto Taunay, organização de Rafael de Bivar Marquese. Companhia das Letras, 322 págs., R$ 25,50.

Por Sergio Amaral Silva

 

MANUAL DO SENHOR DE ESCRAVOS

Em fina sintonia com as forças mais conservadoras do século passado no Brasil, autor francês defendeu a escravidão negra. 

Este livro não é tão "inocente" quanto seu título pode sugerir. Afinal, este Manual do Agricultor Brasileiro não é um tratado didático sobre modernas técnicas de irrigação, semeadura ou cultivo da terra, embora alguns de seus capítulos sejam sobre pomares, horticultura, café e algodão.

O mistério apenas começa a se desvendar quando observamos o ano em que saiu sua primeira edição (e que a Editora poderia ter incluído no título da obra, para ajudar a situar o leitor menos avisado): 1839..

Isso mesmo, mais de cento e sessenta anos atrás. Seu autor, o francês Carlos Augusto (batizado como Auguste Marie Charles, nome posteriormente trocado) Taunay nasceu em 1791 e veio para o Brasil em 1816, com o pai, Nicolas Antoine, pintor que integrava a Missão Artística Francesa da qual faziam parte Montigny e Debret. No Rio de Janeiro, os Taunay resolveram comprar um sítio de vinte hectares na Tijuca e começaram a cultivar café. Como seria de esperar, a família européia passou a utilizar a mão-de-obra predominante na agricultura brasileira da época, ou seja, escravos.

 

Carlos Augusto, que tinha sido major das tropas de Napoleão, ingressou no recém-criado Exército brasileiro com a mesma patente em 1822, participando das lutas pela Independência que ocorreram na Bahia. Em 1827, depois de pedir baixa do Exército, passou a dedicar-se à administração da lavoura cafeeira da família. Escreveu o Manual, que tentou publicar em 1829, sem êxito.

 

Dez anos mais tarde, o livro foi lançado e, rapidamente, conseguiu o apoio de Bernardo de Vasconcelos, ministro da Justiça e do Império do gabinete conservador que fora nomeado com a renúncia do regente Feijó, em 1837. Vasconcelos era o grande adversário de Feijó, que apoiava publicamente o fim da escravidão, afirmando ser uma "vergonhosa contradição com os princípios liberais que professamos, manter homens escravos". Esse poderoso padrinho garantiu uma segunda edição no mesmo ano e recomendou oficialmente a distribuição do livro em todo o país.

 

A súbita "simpatia" do ministro pela obra de Taunay se explica politicamente: tendo como tema central a administração dos escravos, que aponta como principal problema dos donos de terras no Brasil, o livro justifica a escravidão pela "inferioridade física e intelectual da raça negra". Bem ao gosto do regime conservador, propunha um modelo baseado em paternalismo e disciplina, seguindo o exemplo dos jesuítas e militares.

 

Além da escravidão, Taunay trata da necessidade de aumentar a produtividade da agricultura para exportação, bem como de ampliar a produção de gêneros de primeira necessidade, para alimentar os negros cativos. Duas questões de solução bastante simples, uma vez que, para o autor, a terra brasileira era tão fértil e abundante que bastaria aplicar sobre ela o esforço humano (escravo, naturalmente) para que, parafraseando Caminha em 1500, "tudo nela desse".

 

Dirigindo-se a seus pares, os membros da elite escravocrata, Taunay enumera à exaustão seus conselhos para que possam gozar "de doce satisfação, de inocente orgulho" e regozijar-se "no foro de sua consciência". Apesar da clareza com que propagava tais pontos de vista, anos depois de sua morte (na França, aos 76 anos), seu sobrinho, o escritor visconde de Taunay (autor do romance Inocência) e o filho deste, o historiador Affonso d’Escragnolle Taunay ainda tentaram "reabilitar" a memória do ancestral, transformando-o numa espécie de pioneiro do abolicionismo.

 

Inútil trabalho: este Manual que documenta bem a mentalidade da elite escravista é prova inequívoca de que de Carlos Augusto Taunay foi um dos mais convictos e sistemáticos defensores da servidão negra no Brasil do século 19. Conclusão óbvia: não se pode apagar a História passada, embora seja nosso dever, fazê-la mais digna enquanto temos nas mãos esta delicada matéria-prima chamada presente.

 

Sergio Amaral Silva (samaralsp@uol.com.br) é brasileiro, jornalista, economista e escritor.

 

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ESTE É O MEU CORPO Filipa Melo. Uma edição cuidada, "limpa", com uma bela capa – sobre desenho da pintora Graça Morais, de Edições Temas e Debates, 153 págs.

Por Helena Vasconcelos

Onde comprou este livro: não foi comprado. Uma amiga recomendou-mo, outra, ofereceu-mo.

O que mais a atraiu na leitura: uma construção muito hábil que absorve a atenção do leitor. Um tema (a Morte), à partida um pouco incómodo, mas que se transforma num pólo de uma sensualidade alarmante. O cuidado com que a autora efectuou uma pesquisa aturada sobre a técnica da autópsia e a forma como contextualiza toda essa informação. A relação estreita com a pintura – a luz e a composição dos mestres flamengos nas cenas da morgue, a referência ao abstraccionismo na descrição de texturas, por exemplo. A ligação com outras obras literárias contemporâneas como "Anil’s Ghost" de Michael Ondaatje, uma história construída a partir de uma autópsia com contornos políticos, sociais e culturais, "Being Dead" de Jim Crace em que se relata a vida íntima de um casal, cujos corpos são encontrados numa praia e "In the Cut" de Susanna Moore, um thriller erótico que é um verdadeiro mergulho no Hades.

Uma frase do livro : "A parte interior das coxas está intacta, sem sinais de violência. As pernas. Os pés. Compridos como os de um homem, musculados. Nos tornozelos permanecem as marcas fundas das quatro voltas da corda de nylon. Também aqui não existem outros sinais de violência. Termino o exame externo. Observo pela ultima vez o que resta do teu rosto.

Prepara-te. Vou entrar dentro de ti." (pág. 55)

 

 

CINZAS E PÓ

É um cão quem primeiro encontra o cadáver, sob a chuva forte. Um dejecto sem calor, sem sopro, sem forma; rasgado, raspado, sem nome, sem roupas, sem sinais. Desde o inicio que sabemos que "aquilo" que jaz no alcatrão foi despojado de quase todas as marcas que o poderão identificar como um ser humano. Os traços fisionómicos que marcam mais fortemente a diferença, estão apagados por uma brutal erosão. O facto de só serem visíveis as sobrancelhas, acrescenta um dado simbólico. Elas representam uma referência que remete para a existência difusa da individualidade. (Muitas crianças desenham caras só com sobrancelhas o mesmo acontecendo em certas máscaras primitivas)

Uma carcassa. O animal segue o seu destino, levando consigo o gosto familiar da morte.

O mundo continua o seu girar cósmico. Enquanto uns seres morrem, outros nascem. António caminha pelas ruas molhadas a sonhar com o neto que acabou de ver, no hospital. É um homem solitário que fez da viuvez um pretexto para a ritualização da vida. Gosta de repetir os mesmos gestos, seguir os mesmos caminhos, cumprir as mesmas tarefas como se a rotina que o espera todos os dias lhe protegesse a existência. Ele é um ser vivo, de uma banalidade chocante, em contraste com a singularidade conferida pela morte, ao corpo que ele descobre.

O seu casulo, reforçado pela indiferença, expõe-se aos acontecimentos, estala, abre fendas e dissolve-se perante a brutal evidência do nascimento e da morte.Mais cedo ou mais tarde, todos ficamos expostos. "Não há como a morte para desbravar a intimidade de alguém" diz o médico legista. Não há como a vida para exaltar os sentimentos.

Há três homens importantes (e um, mais difuso, talvez por ser o único que verdadeiramente sabe amar) em torno deste objecto de desejo que é corpo de uma mulher, esse corpo que colocam na mesa das autópsias para ser apropriado pelo anatomista, pacificamente à espera de ser desvendado. Um palimpsesto que ele vai raspar, friccionar, rasgar, furar, virar do avesso, até lhe conhecer todos os mistérios. Uma história que se ira construindo como as peças de um puzzle. Do abstracto para o real. Um longo caminho em que o perigo maior é o sonho, o lugar onde se esbatem as fronteiras entre o real e o imaginado, a vida e a morte.

É uma lugar comum dizer-se que Shakespeare descobriu a interiorização do "eu" muito antes de Freud, com Hamlet, cuja versão final nos chegou como uma peça emblemática do mistério que é o ser humano e a sua relação com a morte. "To die, to sleep, perchance to dream" entoa o eterno angustiado, o depressivo crónico.

Em "Este é o meu Corpo" está-se em pleno território shakespereano, mais propriamente nesse reino da Dinamarca, decadente e apodrecido que serve de cenário ao delírio de um príncipe, possuído de furor dionisíaco, como fez notar Nietzsche em " O Nascimento da Tragédia": " ...o homem dionisíaco assemelha-se a Hamlet: a partir do momento em que ambos, por uma vez, tiveram acesso à verdadeira essência das coisas, ganhando conhecimento, a náusea inibe a acção, uma vez que a acção não pode alterar nada da natureza eterna das coisas....o abismo do esquecimento separa o mundo da realidade quotidiana da realidade dionisíaca".

É esse reconhecimento que transforma a vida de todos os que gravitam em torno de Eduarda. Eduarda, em si mesma é uma figura apagada, já espectral mesmo em vida. Como um animal resignado ao sacrifício. Dela resta apenas a memória que persiste nos vivos, "flashes" difusos - a sua figura de costas a caminhar pelo corredor do escritório, a poeira que se acumula na sua secretária, os papéis sem nenhum detalhe pessoal que a remetem para um anonimato inquietante.

A morte de Eduarda foi violenta. É necessário descobrir o como, o porquê. A violência é um dos atractivos mais excitantes, provoca um incontrolável formigueiro, um desejo de verdade, de justiça. Há uma implicação moral, uma imposição de ordem ética. O anatomista é o celebrante de uma longa cerimonia de reconhecimento. A sala de autópsias é uma catedral, a mesa onde repousa o pobre corpo desfigurado, um altar de sacrifício, homenagem e rito. As cenas na morgue são meticulosamente reveladas como composições de quadros. A iluminação, a forma dos instrumentos, a quietude, a precisão dos gestos, o brilho rápido dos metais compõem o cenário de um tabernáculo, um lugar sagrado, sacrificial. A precisão calma dos gestos, a paixão metafísica que os dita, possuem a solenidade de um sacerdote que oficia o ritual mágico: "Este é o meu corpo, a nova e eterna aliança – entre Deus e os homens – que promete a salvação das almas. (" É um acto sagrado" confia-nos o anatomista sem um vislumbre de pudor, enquanto avança com uma infinita ternura pelos meandros daquilo a que Shakespeare (sempre ele!) chamou "this mortal coil" ´Entre Jacinto, o amante que com o impulso primário do desejo a penetra para a destruir e possuir, e o anatomista que a desvenda há, aparentemente, um paralelismo. Ambos partilham o desespero da solidão, o drama do vazio existencial . É interessante notar que o médico vive tão intensamente a sua ligação com a morte que rejeita o que o poderia ligar a vida, a banalidade do quotidiano, a realidade dos sentidos, a atracção sexual. Como um sacerdote ( ou como o próprio Hamlet) que trava um dialogo metafísico com a morte, ele é casto, quase assexuado.

É ele quem, finalmente desvenda os mistérios e "entrega o corpo".

Há três homens na vida de Eduarda – o que lhe insufla vida, o que a arrasta para o inferno de Eros e o que lhe concede a união com o Divino.

Não basta morrer – é preciso que a alma seja libertada.

"Uma vez, enquanto eu estava sepultando um dos meus mortos, o coveiro passou por mim e disse:" De todos os que vêm aqui para sepultar, és o único que amo.'
Respondi: "Alegro-me imensamente com tuas palavras. Mas dize-me por favor por que me amas?"
"Porque eles chegam chorando e partem chorando, e tu chegas rindo e partes rindo
." Kahlil Gibran