A PINGUELUDA por Luis Alberto Machado

 

DEZ ANOS DEPOIS por Paulo Kellerman

 

  TORRADAS por Marcos Cruz

 

 

 

TORRADAS

Por Marcos Cruz

 

            Eduardo acorda por causa de um barulho na porta. Virando-se de olhos semi-abertos, vê Marilda nua que lhe traz o café da manhã: ovos, suco de laranja, geleia... Tudo perfeito; se não fosse pelas torradas queimadas.

            Ela entra pelo quarto e põe a bandeja com força na barriga do marido:

Se não gostou, não precisa. Mas também não faço mais!

Não é isso meu bem. Eu adorei.

Então, que cara é essa? Hein? E ainda tem a cara-de-pau de dizer que adorou - falou erguendo a voz.

É claro que eu gostei, mas...

Mas o que? - interrompendo o marido. O que foi então?

Bem... Eu não esperava. Você nua me trazendo café na cama e...

E você se assustou né? - interrompeu novamente Marilda. Só porque nos casamos você acha que não pode mais, né? Seu cínico! Se eu soubesse que seria assim após o casamento, eu teria continuado sua amante. Quando você falava da sua ex-mulher eu tinha pena de você. Eu devia é ter pena dela!

Opa! Pera lá! Não coloca a Lindaura na conversa que ela não tem nada a ver com isso.

Não? Não tem? E quando...

Ele pegou a mulher bem firme pela cinura, jogou-a na cama e a beijou, cortando o que ela ia dizer. A princípio, Marilda resistiu, mas Eduardo continuou em sua investida violenta até ela ceder.

Terminada a selvageria, nada mais se falou sobre o incidente do café da manhã. Dizem até que nunca mais brigaram. Porém, todas as noites, Eduardo esconde o pão de forma para ter certeza de que a mulher não irá tentar fazer torradas de novo.  

 

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Dez anos depois

por Paulo Kellerman

 

 

“There’s so many ways you can kill someone

  Like in a love affair,

  When the love is gone”

  1963, Bernard Sumner

 

I

 

Espreito pela janela: o imenso azul do céu convida-me à liberdade, desafia-me a partir. A manhã está fria, não sinto mas vejo-o, o sol acaba de nascer, parece espreguiçar-se pelo céu, como se também a ele lhe custasse enfrentar mais uma segunda-feira.

Decido apressar-me, antes que a coragem me abandone. E concentrado na imagem que guardo do céu, imaginando o que poderei fazer debaixo daquele azul libertador, regresso ao interior do quarto, regresso à realidade. Ela move-se, ameaça acordar e o pavor de ter de lhe falar invade-me, avassalador: seria incapaz de pronunciar uma única palavra, não saberia que dizer.

Quase corro até à casa de banho, tranco a porta com estrondo. E apenas quando a água quente do chuveiro me metralha, com indiferente violência, sinto alguma serenidade. Espreito um pedaço de céu pela pequena janela: mantém-se azul, convidativo. Espera-me. Os pensamentos vêm e partem, atropelam-se. Excitam-me e angustiam-me. Passam por mim, como se não me pertencessem. Como se fossem segredos murmurados por um anjo da guarda. E, indefeso, deixo-me ir: seduzido.

Visto-me, apressado. Tento não olhar nada, porque sei: o último olhar dói. Não quero despedidas, é mais fácil esquecer. E esta casa, esta vida, deve ser esquecida.

Ainda dorme. Poderia sair e desaparecer para sempre mas não tenho coragem para tanto. Seria mais fácil. E, afinal, menos hipócrita. Deixá-la a dormir e sair. Mas sou incapaz: por uma última vez, tenho que representar a comédia familiar, fingir que esta não é a última manhã que passamos juntos. Talvez dar uma explicação.

Estou sentado na cozinha e o tempo passa. Olho o leite que está à minha frente e pergunto-me quem o terá derramado no copo, não me lembro de o ter feito. O silêncio quase tétrico do apartamento incomoda-me. Não sei que fazer com as mãos. Não sei que fazer aos pensamentos. Olho o copo de leite. E o tempo vai passando, vazio e fútil. Fugindo. Fugindo-me.

Ouço-a levantar. Pequeno arroto. Tosse. Ruído do isqueiro. Mais tosse. Sinto a tensão percorrer-me o corpo, o medo espreitar. Apetece-me fugir, desejo irracionalmente que venha um tremor de terra e me salve. Ouço passos e hei-la: está nua e a beleza do seu corpo perturba-me. Segura o cigarro com uma mão, ordena o cabelo selvagem com a outra. Passa por mim e, sem me olhar, deposita-me um beijo seco e indiferente na testa. Choca-me, o seu gesto: não demonstra ternura nem sentimento nem amor. É apenas uma acção mecânica, irreflectida, condicionada por dez anos de rotina. Indiferente, como alguém a sacudir a cinza do cigarro num cinzeiro.

Sacode a cinza do cigarro num cinzeiro e desaparece na casa de banho.

Pego no copo de leite e bebo um gole. Amarga, apetece-me cuspi-lo.

Vagas recordações do passado invadem-me a mente, perturbam-me as ténues e incipientes fantasias de liberdade. Tento esquecer. Uma nuvem de nevoeiro vem da casa de banho e arrasta-me para a realidade: um corpo que toma banho e de que tenho de me despedir. Aguardo.

Passa por mim, sem me olhar. Tento dizer qualquer coisa mas sou incapaz. Sons desordenados chegam do quarto, atrapalho-me com os pensamentos, não consigo dominar a ansiedade. Levanto-me. Está a vestir as cuecas, numa posição muito sexual. Convidativa. Noutros tempos (noutra vida), teria simplesmente despido as calças e faríamos amor. Ou, talvez, apenas sexo. Prazer físico. Partilha de líquidos. Passado.

Fico a vê-la vestir-se, tentando encontrar palavras. Ignora-me. Passa por mim, sem me tocar, e volta a fechar-se na casa de banho. E é quando ouço o baque da porta que percebo (admito): não terei coragem. Não direi uma palavra. Serei, uma vez mais, o cobarde que sempre fui. Direi até logo e fugirei para longe, na direcção do céu.

Admito-o. E uma sensação de alívio invade-me, lenta e refrescante.

Quando ela sai da casa de banho, atravesso-me no seu caminho. Dou-lhe um beijo na testa e digo até logo. Saio e fecho a porta. Tudo muito rápido, como se temesse arrepender-me e voltar atrás.

Mas não volto. Caminho pelo corredor, firme e resoluto. Pergunto-me: e agora?

II

 

            Pergunto-me: e agora?

            Quando ouvi a porta fechar, senti uma onda de alívio invadir-me, lenta e refrescante. Mas, e agora?

            Sento-me num canto da cama, fecho os olhos. Apetece-me chorar: dez anos depois, aqui estou. Parece que foi ontem, parece que passou uma eternidade. Mas acabou. Quero sentir-me feliz e não consigo, tenho vergonha de me sentir feliz.

Pensamentos desordenados atropelam-se, procurando captar a minha atenção. Mas a minha atenção não se deixa captar e voa, anárquica, em busca de tudo, encontrando nada (deixou ali as meias azuis, no meio do chão, comprei-as numa loja do centro comercial, no Verão passado, fazia um calor dos diabos, lanchei numa esplanada, aquela em frente do cinema, e um rapaz não me tirava os olhos das pernas, era bem bonito, bastaria estalar os dedos e seria meu, como no tempo da escola, muitas vezes estalei os dedos, bons tempos, esses, e as férias eram o melhor, piqueniques todas as tardes, o pai a jogar à bola connosco, engraçado, andava sempre de calções pretos e meias azuis, discoteca à noite, rapazes por todos os lados, foi assim a primeira vez, um rapaz da discoteca, depois de um piquenique, foi tão rápido, há tanto tempo que não tenho prazer, porque têm os homens tanta pressa. Apeteceu-me estalar os dedos e não o fiz: se o arrependimento matasse...). Levanto-me, decidida a apanhar as meias mas não o faço: fico no meio do quarto, com a mão estendida. Sentindo-me patética.

E agora? Tive uma última oportunidade para tentar explicar, para o fazer perceber, para me despedir. Não a usei, fui cobarde, tive medo de mim, de ir longe demais, de não ir tão longe quanto deveria. Ou terá sido, simplesmente, preguiça?

Talvez. Explicar o quê? Como se explica que o amor acabou? Não se explica, sente-se. Sobrevive-se. Continua-se.

É melhor assim. Sem explicações.

Levanto-me e caminho pelo apartamento, tocando, despedindo-me de tudo. E tento convencer-me: se ele tivesse feito qualquer coisa, se tivesse dito uma palavra, poderia ter sido diferente. Se tivesse entrado na casa de banho e ficasse a espreitar-me, devorar-me o corpo com o olhar de infantil deslumbramento que aprendi a amar, talvez o tivesse puxado para dentro da banheira, talvez tivéssemos feito amor, talvez decidisse adiar a minha partida, talvez conseguisse descobrir um vestígio de amor. Mas não. Ficou a olhar para o copo de leite.

Afasto o ímpeto de nostalgia que me foi dominando, tento controlar as emoções. Caminho, firme, na direcção da porta, abro-a, lanço um último olhar. Não consigo evitar a antecipação: ele a abrir a porta, logo à noite, observar o apartamento, talvez deste exacto ângulo, e procurar-me, descobrir que parti. Que pensará?

Puxo a porta e enfrento o corredor, decidida.

III

 

Caminho pelas ruas da cidade, repletas de pessoas mas desertas de pessoas que me interessem ou que se interessem. Penso: finalmente, sou livre. Penso: não sei que fazer da minha liberdade. E sinto-me triste.

Anoitece.

   

IV

 

Anoitece e não tenho onde ir.

Mas sinto-me feliz: as possibilidades são tantas... E sinto-me triste: as possibilidades são tantas que não saberei decidir-me.

(É tão difícil começar de novo.)

 

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"Sesta de um Fauno" Gregorio Bueno

 

 

                                        A PINGUELUDA

Por Luiz Alberto Machado

Judilinho era doido carne, osso, alma e mais possuídos e despossuídos pela Francisquinha, uma matutinha quase-vesga das grotas, que pela sua brejeirice faceira roubara a bússola do seu coração. O bocó estava tão apaixonado de pagar mico adoidado vararando noites e dias em sua sofrência por conquistá-la de qualquer forma, nem que fosse na marra, fazendo de tudo para chamar-lhe atenção no meio da sua doidera. E ela nem, nem. Vôte, o cabra se ouriçava, perdia o prumo, dava cambalhotas na rodagem, amorcegava cata-côrno, dava pirueta na bicicleta entronchada, debulhava chavecagem descabida, enrolava santos e desafetos, tudo para conseguir, nem que fosse de longe e por um instantim de nada, pelo menos, um biquinho de riso da danada.
- Vixi, Maria! Que nega mais sestrosa! -, era ele de-noite quando buzuntava arquitentando planos para envolvê-la na maior das lábias.
Francisquinha ali, pura no seu vestindinho afolosado e bem curtinho, de chita, de ver-se a cada alvoroço desengonçado, aquele cheirinho de fruta boa inebriando a alma dele, mostrando a caçolinha branca apregada nos fundilhos quando a saia tremulava ao vento e atravessa suas perninhas sedosas e escondidas intimidades. Eita! Aquilo mexia com todo acorçôo do Judilinho. Flagrando aquilo, o abestalhado corria para lugar incerto e não sabido, matar a sua sede numa bronha de mais de hora mergulhado na imaginação de foder a alma da danida.
- Venha, Francisquinha! Pelamor de Deus, venhaaaaaaaaa!
Como se arriava de ficar um tempão se refazendo depois de todo galado, causava ainda mais vexame para se esconder mais ainda para que ninguém visse o seu estado detratável de tão melado pelo queijo acumulado de tempos sem molhar biscoito com vivalma perdida.
Um dia lá, espia só, inventaram um casamento matuto com gente vindo das brenhas mais distantes e escolheram, depois de muito puxa-e-encolhe, para noivos do casório festeiro, Judilinho e Francisquinha. Era de mentirinha, mas ele já viajava na maionese como se fosse a mais absoluta verdade. Levou a sério mesmo. Ela nem se tocava com os ardís dele. Cerimônia enrolada, abençoados no matrimônio, danaram-se na festança da quadrilha, anavatu, anarriê, olha a cobra, debaixo da ponte, os homens cumprimentam as mulheres, e patati patatá, passear. Ôxe, nessa hora, Judilinho aproveitou, saiu pela brincadeira fazendo todo tipo de mesura, Francisquinha se rindo de se mijar, ele sai da roda, passeia por longe, até adentrar uns grotões distantes, ela se abrindo toda, ingênua, com a risível macacada dele.
Depois de se enfiarem dentro do mato, Judilinho se fez de levar um trupicão, esfregando a venta na rodagem de arrancar-lhe um samboque feio, espirrando sangue. Ela estatelou-se, rindo-se desbragadamente. Como se riram. Depois ela pegou a saia e ficou limpando o sangue na venta dele enquanto Judilinho ficava conferindo a tufa que se sobressaia da caçola. Ôxe, Judilinho aproveitou-se.
- Francisquinha, deixa eu desembuchar uma apertura que me consome pro dento!
- Ige, como ele tá todo conversador de prosa! - disse ela na maior risadagem.
- Oia, Fracisquinha, você num sabe, mas eu tenho uma gastura que me remoi o tempo todo, d'eu quase endoidar de vez por vosmicê!
- Cuma é, fala, endoidado!
Coitada, nem sabia da astúcia dele. O lazarento deitou moda de paixonite aguda da bestinha ficar se mangando fácil. Era loa descabida que se juntar no mundo as asneiras todas num dá para se baldar o tamanho da lorota que ele soltou, a ponto de Francisquinha, hora agá, interagir com a zoada frouxa, provocando nela um mijadeiro brabo do sujeito ir aparar na cuia das mãos. Ela se rindo. Quase que o mijo abre um rombo de tão abundante. Ali ajoelhado, com as duas mãos encuiada entre as pernas dela, ele foi subindo, subindo, de apalpar sua xiranha, dela estremecer-se toda. O arteiro nessa hora, foi providente:
- Tô aparando para cê num se mijar facilmente.
- Ih!
- Vou fazer uma reza para alumiar seu caminho.
- Ih!
- Feche os olhos.
- Ih!
- Fique assim de ôio fechado, pensando na salvação do céu. Nessa oração vou fazer com que o céu ilumine a sua vida e vancê fique rica, famosa e para sempre bonita!
O cabra começou dizendo um dialeto inventado, aproximando mais das preciosidades dela, encostando a mão devagarinho quando topou com uma saliência.
- Vôte! Que droga é nove?
O apaideguado foi levantando a saia da menina, fazendo o maior bulício, removendo a calcinha dela e constatando um pinguelão maior que a pêia dele!
- Nossa! Essa tem o pinguelo avantajado mermo, maior que a minha peia, visse? S'eu me abestaiar, ela é que me come!
Ôxe! O danado num pôde nem encostar no pitôco que ela foi logo se desmanchando na maior tremedeira e com todos os ais e uis de gozo precoce. Judilinho foi sabido, foi logo soltando o colchete do vestido, desnudando-a, beijando seu ventre, seus seios, ela agoniada, impando, toda meladinha, ele se aproveitando disso, lubrificando bem a bucetinha dela para enfiar-lhe, finalmente, o mondrongo duro nos seus guardados. Antes, porém, foi enfiando o dedo, entrou a mão, escorregou o braço numa fundura sem fim.
- Danou-se! Isso é um lascão de boceta ou uma cacimba bem funda? Essa é mais arrombada que papoco de tiro de canhão!
No enfiado que fizera, o cabra quase viu o dedo sair pela boca da menina. A coitada ria e chorava, deitada no chão, as pernas abertas, a cheba à mostra, as mãos na cabeça, nuazinha, arreganhada, sendo possuída pelo ajegado que aproveitava a peia perdida no afolosado, gozando exultante nos seus guardados, só saltando fora depois de quase se ver enfiado todo naquela areia movediça que chupava ele todo para dentro dela.
- Eita, gota! Essa mulé quage que me ingoli todo? Sai-te!
Foi aí que, enquanto ele se ajeitava para vestir suas calças, ela largou-lhe uma dedada no furico dele, sentindo a injetada bulir na sua tripa gaiteira. Deu um salto solto no ar ocasionando o maior remexido no seu bucho, da cólica desenterrar bosta velha na maior caganeira.
- Cagão! -, acusou ela depois que se sentiu preterida pelo marmanjo.
Dedada providencial demovendo a prisão de ventre do seboso Judilinho que fabricava um monturo de bosta bastante proeminente.
- Isso num é um home! É um cagado de gente arrodeado de merda por todos os lados! Fui! 

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