CRÓNICAS 

 

 

MAC VIDA Por Rui Bebiano

JUSTIÇA DE CASTELA  por Baron Von Vasc

 

JUSTIÇA DE CASTELA por Baron von Vasc

 

“Nasci Castelhano e Castelhano morri. Com orgulho!” afirmou um dos meus interlocutores. “E sempre em Lisboa, de Pais Portugueses”, acrescentou.

O outro, o Martinho, olhava-o com ar furibundo.

Eu? Devia estar com cara de parvo!

Eles, muito sérios, estavam empenhados numa discussão intensa.

A cena passava-se em no salão de um clube privado da capital Ali estávamos, arbitrariamente juntos pelo o que nos coubera em sorte: sermos os únicos ocupantes da sala, naquele dia..

Mas deixem-me contar: o primeiro falava de reincarnação e das suas consequências políticas. (Pelo menos creio que era esse o tema!)

Segundo ele, numa incarnação anterior, de que se lembrava, perfeitamente (como fazia questão de sublinhar) teria nascido em Lisboa em 1581 e morrido na mesma cidade, com 57 anos, em 1638. O Pai falecera em 1588, quando ele mal atingira os 7 anos, numa malograda tentativa de domínio dos mares por parte de políticos e burocratas mal avisados (“o costume, está tudo praticamente igual!” rosnava ele entre dentes) .

Até aqui, o Martinho ainda estava a aguentar a história, embora o seu cenho franzido não augurasse nada de bom. Mas o que o irritou de vez e fez perder as estribeiras foi a afirmação do outro, lançada com sinceridade factual de que.... E cito ipsis verbis: “(constato)na presente incarnação que está tudo na mesma”. Ao que o Martinho já apopléctico, respondeu, bradando aos ventos “Mentis! Mentis!”

(E, a mim, apetecia-me acrescentar “...lhe bradou convulso. Mentis senhor dom vilão”. Mas calei-me, e pensei: “Onde é que eu já ouvi isto?!”)

Convém dizer que Martinho, político populista especializado em beijos a bebés e a vendedoras de mercado, acredita em valores nacionalistas. O outro, um puro Darwinista, acredita na dominação e sobrevivência do mais forte, do mais apto, do mais rápido, do mais eficaz e audaz.

Ignorando o fervor patriótico do Martinho que continuava a defender um “Portugal dos portugueses, para os portugueses”, o outro multiplicava os exemplos que ilustravam o seu ponto de vista: a maior superfície comercial de Lisboa de uma mesma empresa....castelhana, os citrinos que comemos...castelhanos, um dos grupos bancários mais importantes ...castelhano  e tantos outros exemplos. E regougava: “Pergunte aos jovens da Península Ibérica se sabem o que foi Aljubarrota? Pergunte, pergunte. E depois pergunte sobre o Real Madrid, o Flamenco, os caramelos: uma maioria sabe o que é.”

Ao que o Martinho retorquia já debilmente, no que parecia uma pré-rendição: “Mas a classe política é bem distinta. E desde que se mantenham as zonas de influência haverá sempre valores autónomos. Aliás , repare  num ponto muito importante: não ensinamos nada, mesmo nada aos nossos jovens sobre os nossos vizinhos, nem na Escola, nem na Universidade. Sabe quantas escolas superiores de gestão ou economia têm cadeiras ou seminários sobre a Economia dos nuestros hermanos?”

E respondia à sua própria pergunta, de forma triunfante: “Nenhuma! Nenhuma! Não queremos contaminações. O melhor é ignorá-los. Os nossos dirigentes sabem o que fazem”

Eu, com ar de basbaque mal informado, extasiado com a fluidez dos pensamentos dos meus interlocutores, ainda tentei meter a minha colherada. “É o síndroma do futebol: tem que haver uns que ganham e outros que perdem”

Eles assentiram com as cabeças, gravemente.

Entusiasmado com a aquiescência muda de tão doutas  mentes, e aproveitando aquelas tréguas, resolvi acrescentar

“Mas será mesmo assim? No mundo real não poderão ambos ganhar?”

Fez-se um silêncio, ambos olharam para mim com um olhar compungido.

E acharam por bem mudar de assunto.

Disse o Martinho: “Excelente este Amontillado.”

E bebeu delicadamente.

E o outro: “Aí estamos de acordo, é quase um Oloroso!”

Percebi que era um bom momento para me despedir ... com a desculpa que tinha que ir apanhar o avião para Madrid.

 

 

 

 

 

MAC VIDA 

Por Rui Bebiano

 

Existiam restrições impostas pelo governo do Estado Novo que mais pareciam pormenores de comédia. Aconteceu com o isqueiro, "perigoso" instrumento que carecia de licença paga para ser utilizado pelos cidadãos fumadores. E atenção que não era uma licença por isqueiro, mas sim por utilizador: uma família de dez elementos que partilhasse um único desses objectos precisaria... de dez licenças. Talvez fosse um modo de prevenção das tendinites. Aconteceu também com a Coca-Cola, a vulgaríssima bebida refrescante que, durante décadas, enquanto se incentivava o consumo de vinho, foi liminarmente banida do país. Eis algumas das palavras dirigidas por Salazar a Makinsky, responsável daquela multinacional para a Europa, no sentido de excluir qualquer possibilidade de distribuição comercial da bebida (transcritas por M. F. Mónica): "Sempre me opus à sua aparição no mercado português. Trata-se daquilo a que eu poderia chamar "a nossa paisagem moral". Portugal é um país conservador, paternalista e – Deus seja louvado – "atrasado", termo que eu considero mais lisonjeiro do que pejorativo. O senhor arrisca-se a introduzir em Portugal aquilo que eu detesto acima de tudo, ou seja, o modernismo e a famosa "efficiency". Estremeço perante a ideia dos vossos camiões a percorrer, a toda a velocidade, as ruas das nossas velhas cidades, acelerando, à medida que passam, o ritmo dos nossos hábitos seculares". Para não falar dos cartazes publicitários da empresa, evocadores de atitudes expansivas e joviais, ou da presença autónoma da mulher no espaço público, coisas que provocavam suores frios nos defensores dos padrões morais do regime.

Se o problema se pusesse na altura, semelhante destino teria, sem dúvida, uma tentativa de instalação dos restaurantes da cadeia McDonald’s. Não por razões dietéticas, na jurada defesa do pão com chouriço e do copo de três, mas simplesmente por causa do colorido berrante do logótipo, das t-shirts justas dos empregados e das empregadas, dos estranhos bonés de basebol. Um atentado ignóbil, considerar-se-ia, à samarra e ao barrete. Mas ainda bem que assim não é e que podemos ver hoje entre nós aqueles mesmos espaços, decorados com um grande M amarelado sobre fundo vermelho, que, em tempos de dinheiro contado à justa, ainda ajudam muito boa gente a enganar a fome e a matar a sede.

Não sendo – como José Bové, o conhecido rosto da actual luta contra o pronto-a-comer planetário – partidário do encerramento puro e simples daqueles espaços que albergam regimentos de Big Macs, Cheeseburguers, Crispy Chicken e outros acepipes com cognomes americanizados e muito ketchup, resisto empenhadamente a entrar em tais sítios e esforço-me sempre que posso por dissuadir os outros de o fazerem. A razão é quádrupla: não se sabe minimamente aquilo que se come, não existe surpresa alguma no acto de comer pois o sabor é sempre o mesmo, engordamos imenso sem nos alimentarmos, e, aspecto assaz chocante, não há sopa. Mas, acima de tudo, deixei de ir a tais sítios por olhá-los como delegações locais de uma mcdonaldização que nos quer matar o prazer da comida saudável, personalizada, e nos tem vindo a marcar os ritmos de vida.

Por mcdonaldização – termo inventado pelo sociólogo George Ritzer – entende-se o processo de acordo com o qual as cadeias de restaurantes de fast food acabaram, sob vários aspectos, por influenciar diversas áreas da sociedade, como a educação, o trabalho, o divertimento, a política ou mesmo a vida familiar, tanto na América como, de forma crescente, no resto do mundo. Essa influência passa por uma aplicação a esses domínios dos princípios inerentes à organização dos McDonalds: eficiência, cálculo, previsibilidade e controlo. Aspectos que apenas podem ser aplicados organizando todas as actividades de uma forma absolutamente racional e rotineira. Para entendermos melhor a origem da ideia é preciso conhecer a história da McDonald’s. Uma história que é contada, porém, de duas maneiras diferentes.

Take 1 (versão da empresa) – Tudo começou em 1954, quando Ray Kroc, um vendedor de batedeiras, achando muito estranho que uma hamburgueria situada perto do deserto de São Bernardino, Califórnia, precisasse de oito máquinas, decidiu meter-se no avião e ir lá dar uma espreitadela. O restaurante que encontrou, gerido pelos irmãos Maurice e Richard McDonald, era pequeno, mas os hambúrgueres eram saborosos, as batatas fritas bem tostadas e os batidos invulgarmente cremosos. O sucesso na área era inquestionável e assim Kroc comprou o nome McDonald’s e começou a construir um império. A partir do comes-e-bebes obscuro e rascóide, no meio de nenhures, o génio do senhor Kroc teria produzido o milagre da multiplicação.

Agora o Take 2 (versão contada por Bill Bryson) – No mesmo ano de 54, quando Kroc entrou pela porta do tal estabelecimento, já os manos McDonald eram lendários no ramo. A revista American Restaurant publicara, dois anos antes, uma reportagem sobre eles, sucedendo-se a partir daí as visitas de pessoas que queriam ver como é que aqueles dois sujeitos conseguiam fazer tanto dinheiro num espaço tão pequeno. E Kroc só conseguiu convencer os irmãos a vender o negócio em 1961, quando a cadeia já tinha 200 restaurantes e os McDonalds, ambos com um pavor imenso de andar de avião, decidiram que não seriam capazes de administrar convenientemente a empresa por não se poderem deslocar através dos Estados Unidos.

Existe porém uma verdade que é comum a ambas as histórias: a McDonald’s afirmou-se devido ao facto de produzir alimentos que os clientes conheciam de antemão, reduzindo o tempo de escolha e de espera, adaptando o produto à vida ritmada dos consumidores, a baixo custo devido à mecanização e à rotina. Riqueza de sabor e inovação era coisa olhada com desconfiança, uma vez que o objectivo central – produzir o máximo lucro – estava garantido. Daí ao alargamento da cadeia a todo o mundo seria um passo e, hoje, o palhaço Ronald, imagem de marca da empresa, apresenta-se como sendo "o sorriso que todo o mundo conhece", apenas ultrapassado, segundo dizem, pelo Pai Natal. Conta-se a propósito que uma menina japonesa, em férias com a família, chegou à Califórnia. Ainda no aeroporto de Los Angeles, olhou em redor, fixou-se num ponto e disse: "olha mãe, eles aqui também têm McDonalds!"

Espalhados por todo o lado, passaram a servir de modelo a muitas outras cadeias e até a simples postos de venda locais e individuais de comida pronta, destronando aos poucos muitos restaurantes de comida caseira barata e reduzindo o espaço de manobra dos barzinhos de petiscos que ainda apostam na qualidade, na surpresa, no atendimento pessoal, no tempo para saborear. E ao mesmo tempo, ampliaram, com o seu exemplo, "mcdonaldizaram", a velha ideia fordeana da produção em série. Monótona, barata e extremamente produtiva do ponto de vista comercial. Contando sempre, claro, com uma clientela pouco exigente, cheia de pressa ou com a carteira magra. É assim que hoje encontramos pastelarias, hipermercados, lojas de pronto-a-vestir, livrarias, bancos e até serviços públicos, como centros de saúde, correios, transportes, etc., que passaram a utilizar o mesmo esquema: reduzindo a escolha e baixando os custos, mecanizando e desqualificando os seus trabalhadores, forçando o cidadão a escolher o que existe tal qual existe. Se não gosta, adeusinho que está outro à espera. Até a política dos partidos institucionais lhe seguiu o caminho: slogans minimalistas, campanhas sem ideias, comícios cirúrgicos, desaparecimento do improviso, da espontaneidade, pura e simples venda do "produto". Tudo a copiar os senhores McDonalds!

Numa entrevista, publicada pelo site activista McSpotlight (www.mcspotlight.org), perguntavam a Ritzer se, depois daquilo que escrevera, ainda comia nos restaurantes da McDonald’s. A resposta foi pronta: "Mas que coisa posso eu fazer no meio de uma autoestrada se estiver cheio de fome e não houver outro lugar onde comer?" E até Manuel Vasquez Montalbán, gourmet e pai literário de Pepe Carvalho, o detective-gastrónomo, já reconheceu a mesma coisa. Como eles, nenhum de nós poderá jurar sobre o livro sagrado que jamais desse McQualquer-coisa comerá. Antes isso, francamente, do que os biscoitos do cão. Mas se o fizer apenas por não possuir uma qualquer alternativa é porque terá já consciência de que está perante uma forma violenta de opressão dos estômagos. E que todas estas práticas, que lhe copiam o modelo, configuram um atentado contra a liberdade de escolha e a qualidade de vida. Da nossa vida.

 

Nota. Este texto foi cedido por Rui Bebiano em colaboração com http://www.zonanon.com