Território da Poesia

 

 

                                                                        

                                           

                                             Canção por Bernardo Pinto de Almeida 

                                             O Encontro por Ozias Filho

                                                            Traz-me violetas    por Maria João Cantinho

                                    A Mirra dos Dias por Paulo Moreiras

                                    A Morte das Estrelas por Manuela Gonzaga

                                    Obra ao Rubro por Manuela Gonzaga

   

 

 

 

                     

                       

 

Canção

por Bernardo Pinto de Almeida

 

Limiar de ser

entre sombra e voo

à face de ser

pouco mais que sopro

 

Sem saber se é

criatura ou ar

entre o não sei quê

e o saber voar

 

Todo iluminado

feito só de errância

conhece o acaso

e a circunstância

 

Ténue passageiro

de um gesto a lembrança

no seu voo ei-lo

como uma criança

 

Sem rosto nem rasto

despido de branco

voa contra o vento

ébrio de ser anjo.

 

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O Encontro

por Ozias Filho

 

E tu chegaste

como a palavra que

de súbito

irrompe a madrugada

de tempestades

e eras a calmaria

aparente

com a tempestade

dentro de ti.

E eu, tempestade

aparente,

aguardava a calmaria

aparente

que vinha de ti.

E de repente

encontramo-nos

encontramos nus

tempestade e calmaria

calmaria e tempestade

uma dança inevitável.

Como o sentimento

que encontra no poema

o seu par perfeito

 

 

 

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Traz-me Violetas

por Maria João Cantinho

 

Traz-me violetas, hoje.

Traz-me violetas e deixa-me a sós

com a loucura por céu.

Deixa-me a sós com lágrimas.

 

Tudo está aqui, junto de mim.

E das coisas tenho um silêncio

que levo para dentro.

 

É assim que a chuva entra na pedra

e que o orvalho traz a luz da noite

até à pequena flor

oculta no sopé da montanha.

 

Sabe a flor do orvalho

como eu de lágrimas

e do tempo que voa

como um animal de luz intensa

onde tudo se liberta,

onde tudo cai para dentro.

 

São asas de solidão

as que por mim passam

sem fundo e sem navios de regresso.

 

 

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A Mirra dos Dias

por Paulo Moreiras

 

Poema n.º 4

 

há muito que deixei de ser mar

agora perco-me entre gotas de lusco-fusco

e nas mãos desenho os dias

como se fossem figuras sólidas de geometria

 

o tempo gasta-se na soma

do que não consigo equacionar

e só tu és o resultado

 

entre dois sinais ali estás

e isso basta.

 

Este poema pertence ao livro "A Mirra dos Dias" de Paulo Moreiras. A publicar.

 

 

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A morte das estrelas

por Manuela Gonzaga

 

Poeira e

Cinza no fim de nada

Migalhas de ferro a arder

Parecem jóias

 

Sóis velhos nas franjas do mundo

A adormecer na fogueira cansada e branca

Tão branca

 

Algumas constelações

Estremecem

Como se fosse preciso

Suspender, por momentos,

a respiração da Dança

 

E nós tão longe

Sem poder

Fazer nada…

 

Obra ao Rubro

por Manuela Gonzaga

 

Que o coração arda

Na fogueira

Até ao fim:

É assim a boda,

o banquete vermelho

 

Foi o que me disse um velho rei

E tinha a cabeça cortada

 

Estes dois poemas pertencem ao livro "A Obra ao Rubro", (a publicar) de Manuela Gonzaga