
VISITA DO ANJO

ROSA LOBATO DE FARIA
Por Manuela Gonzaga
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É uma escritora de primeira água, com uma imaginação prodigiosa, e uma escrita musical, «direita ao coração» de quem a lê. Escreve poesia desde a mais remota infância, Mas a prosa, a ficção, só lhe bateu à porta muito tarde. A princípio ela nem acreditou que fosse verdade.
Depois aceitou o esplendor da “visita do anjo”.
Os seus livros falam de gente de carne osso, mitificadas pela escrita, ou não fosse essa também a missão da palavra. Transfigurar, transpor, para um plano essencial, o que de acidental nos marca e torna perecíveis. São livros carregados de sons, de cores, de cheiros. Apaixonados – porque a paixão é, definitivamente, um tema recorrente na obra de Rosa Lobato Faria, cujas poderosas personagens femininas vêm de universos tão diferentes como uma prisão ou um palácio. E de tempos tão díspares, como o passado remoto dos finais da Idade Média e futuro ainda por desvendar.
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Manuela
Gonzaga – Está a escrever um livro, e, tanto quanto sei, já chegou ao
marco que representa a página 100. Já se pode saber o nome?
Rosa
Lobato de Faria – Já. Chama-se O Sétimo Véu.
MG
– E pode saber-se do que trata?
R.L.F.
– Muito superficialmente. Se verbalizamos, em vez de ter o livro a mandar em nós,
ficamos nós a mandar no livro e então o livro já não presta.
MG
– Então, decididamente não vamos por aí. Diga-me: estamos perante entidades
que comandam a sua própria existência e até a vontade do autor?
R.L.F.
– Naturalmente. O livro escolhe-nos, não somos nós que o escolhemos a ele.
MG
– Como os filhos.
R.L.F.
– Como os filhos. E então, quando o livro vem ter connosco, para que o
transformemos em palavras, escolhendo-nos como intermediários entre o que o
livro quer dizer e o que as pessoas que o vão ler, ele trás a sua própria dinâmica.
A sua própria energia. Que é canalizada através das pessoas que nasceram com
esse dom.
MG
– Escrever assim... é como estar grávida.
R.L.F.
– Costumo dizer que é a visita do anjo, que chega e diz «Ave Rosa, cheia de
graça! Tu vais conceber». E eu não tenho outro remédio senão responder «Faça-me
em mim segundo a vossa vontade». Não há escapadela possível. Acho que a
Virgem Maria nunca poderia dizer que não! Foi escolhida, e isto não é negociável.
MG
– Mas pode-se trair o livro. Não conhece casos desses?
R.L.F.
– Não. Penso que quando isso acontece foi a pessoa que procurou o livro, não
foi o livro que a procurou. Se não, a pessoa não tem outro remédio. Isto é
uma fatalidade – no bom sentido. Claro que dito assim tem um ar muito dramático,
muito transcendente, assim a ver com destino, mas eu acredito que há essa força
superior que nos «obriga» a cumprir uma tarefa.
«DEITEI
FORA 40 E TAL ANOS DE POESIA,
SÓ VIM A PUBLICAR O QUE ESCREVI DEPOIS»
MG
– Sei que escreve poesia desde muito nova, mas prosa não estava no seu
horizonte, ou estava?
R.L.F.
– Escrevia poesia desde os seis anos. Sempre tive uma ligação fortíssima
com a palavra, e sempre me foi indispensável escrever. Claro que sempre soube
que tinha jeito para escrever, e escrevia uns textozinhos...
MG
– E publicou poesia muito cedo?
R.L.F.
– Não publiquei nada! Achava que um livro só vale a pena se for bom e
receava que a minha poesia não fosse grande coisa. E portanto não achava
correcto estar a gastar papel com mais uns poemazitos para me tornar uma
daquelas senhoras que escrevem versos, e que andam toda a vida com o poema que
fizeram aos 17 anos no bolso. Eu tinha pavor dessas coisas! E achava que se um
dia tivesse que publicar, que fosse uma coisa que valesse a pena ser lida e não
fosse mais um. Um dia o meu marido, com toda a sua experiência de ter sido um
grande editor, explicou-me que não podia ter essa atitude, que era muito pouco
humilde. Segundo ele, a minha poesia tinha a qualidade necessária e suficiente
para merecer a partilha com os outros. Então, combinei com ele – já tinha 40
e tal anos – que só publicaria o que, daquele dia em diante eu seleccionasse
do que viesse a escrever, se é que iria escrever mais alguma coisa. E deitei
fora 40 anos de poesia.
MG
– Porquê??
R.L.F.
– Porque era péssima! Esses erros não se cometem Se fosse mesmo boa teria
havido certamente mecanismos que teriam levado à sua publicação anterior. E a
partir dali, tudo o que fui escrevendo, porque sempre fui escrevendo,
seleccionei ao fim de um ano.
MG
– E o seu marido, Joaquim Magalhães, ele próprio também editor, levou os
poemas à Guimarães Editores.
R.L.F.
– Exactamente! Não quis editar na Editora Ulisseia, que era do meu marido,
porque isso era o mesmo que edição de autor que é uma coisa horrível, porque
quer dizer que nenhuma editora me quis e sou eu que sou uma injustiçada.
MG
– Além disso, o seu marido não disse de quem eram os poemas!
R.L.F.
– Exacto. Entregou-os como uma coisa anónima quer lhe tinha sido apresentada
a ele como editor, mas a sua editora não editava esse tipo de coisas. Eles
adoraram. Foram dizer ao Joaquim que se deixasse de coisas, porque aqueles
poemas eram do Régio! Fazia parte do Gabinete de Leitura da Guimarães, nessa
época, o David Mourão Ferreira. E, ainda antes de saberem que era eu a autora,
colocaram-me logo na Colecção Poesia e Verdade, que é muito prestigiada. E
assim editei um livrito e, passados uns quatro anos, editei outro.
MG
– Não lhe passava pela cabeça escrever romances?
R.L.F.
– Não! Como leitora sempre gostei muito de ler poesia, teatro, mas, a ficção
foi sempre o que me apaixonou. Mas nunca me passou pela cabeça escrever
romances! Exactamente por causa da natureza daquilo que escrevia, a poesia, que
é uma forma de comunicação sintética. Metafórica. Uma linguagem codificada,
hermética. E o romance é o contrário de tudo isso. Vou-me repetir – já
disse isto noutras entrevistas: se, em poesia, disser «barco» ou «árvore»,
estas palavras são símbolos. Mas se em prosa disser «árvore» eu tenho de
dizer que árvore é aquela, e saber se naquele sítio onde se passa a história
existe aquela árvore, e se, naquela altura do ano em que está a decorrer a acção
a árvore tem folhas, ou não tem, se dá flor, se a flor cheira bem, e se não
souber nada disto não vou falar da árvore. Portanto esta é toda a diferença.
E não me sentia vocacionada para ir fazer essa análise e essa pesquisa em
campos reais.
ERA
UMA VEZ UMA MULHER
QUE FAZIA UM NÚMERO DE CIRCO
MG
– Então, como é que tudo aconteceu? Foi a visita do anjo?
R.L.F.
– Pois foi. O anjo veio ter comigo, disse-me tens aqui esta tarefa, e era uma
história que não me largava a cabeça.
MG
– Foi o Pranto de Lúcifer. Do que é que partiu?
R.L.F.
– Contaram-me, muito por alto, um episódio. Era um número de circo que
tinha uma mulher num caixão, e aquela imagem não me largava. Que mulher é
esta? Tem família? Tem filhos? E como ninguém me sabia explicar nada eu tive
de inventar porque aquela mulher começou a assombrar-me as minhas noites, e eu
queria ver-me livre disto, de modo que resolvi começar a escrever, e pensei que
ia fazer um conto.
MG
– Partilha a ideia de que escrevemos para nos libertarmos, para termos
paz?
R.L.F.
– Não podemos viver com aquelas pessoas todas dentro de nós, que não nos
largam. Ficamos loucas. E foi assim que comecei a escrever e esse acto ilumina,
esclarece. Ficamos a perceber melhor o que se passa e foi assim que tudo aquilo
começou a fazer sentido. De modo que quando acabei tinha 240 páginas e pensei
que para conto já estava grande demais.
MG
– O que é que ia sentindo, à medida que o livro crescia?
R.L.F.
– Sobretudo uma alegria muito grande. Com dor, angústia, à mistura. Aquelas
coisas horríveis que a gente pensa nessas alturas, tipo «para que é que isto
serve?», «quem vai ler esta bodega?», a grande inquietação. Mas não há
como voltar atrás.
MG
–E não dá por si a adiar, a descobrir outras tarefas que tenta colocar à
frente...
R.L.F.
–Nós, mulheres, temos aquele atavismo terrível de que tudo o que nos dá
prazer é culposo. Ou seja, dá-me tanto prazer escrever que às tantas estou a
pensar que deve estar a falhar em alguma coisa. Que devo ter qualquer coisa para
fazer muito mais importante. Coser um botão, fazer a sopa, comprar cebolas, que
horror. Um bebé a chorar lá dentro... ah! Já não tenho bebés! (risos).
Mas é sempre aquela coisa terrível que é «se isto me dá tanto
prazer, deve ser asneira». E eu até tenho a melhor circunstância do mundo
para escrever que é ter um marido que me estimula imenso a escrita, que não me
chateia minimamente...
MG
– Sobretudo, que está ligado a esse universo!
R.L.F.
– Mas podia estar ligado a esse universo e em casa... sabe que às vezes os
homens em casa são outra coisa... mas não! Ele lava-me a loiça, para eu não
ter que interromper, faz-me a pesquisa, porque aquilo que ele pesquisa em dez
minutos eu levava se calhar dez meses! E nem sabia muito bem onde ir buscar. Não
tem comparação nenhuma, entre a cultura e a informação que ele tem. Por
isso, eu sei que às vezes digo coisas, que não faço ideia onde as vou
desencantar, por exemplo, no Pranto de Lúcifer há aquela alusão às religiões
hindus, mas eu, nem que seja para escrever cinco linhas, tenho de saber de que
estou a falar. E ele trouxe-me um livro, já marcadinho, e disse «lê isto,
deve ser suficiente. Eram umas trinta páginas, chegava para o que eu queria. A
própria bibliografia: ele toma isso como uma tarefa dele e traz-me tudo. Porque
eu tenho de ter uma base muito sólida, à volta da qual depois ficciono. Eu não
acredito nada em aldrabices em literatura. Aquilo, no fim, até pode ser só uma
linha. Mas eu tenho de saber muito bem porque é que aquilo está ali, e porque
é que fui buscar aquilo, e é aquela palavra e não outra.
«ESCREVO
OS MEUS LIVROS
COMO
QUEM LÊ UMA HISTÓRIA»
MG
– Penso que a maior parte das pessoas não imagina que por detrás daquelas páginas
estão centenas, milhares que é preciso ler e assimilar para tornar uma história
credível para o seu autor, não é?
R.L.F.
– É. Há uma honestidade para connosco próprios para sabermos que nada foi
posto ali, nem por acaso, nem para compor, nem para ficar bonito. Mas também
tenho essa preocupação adicional, intrínseca, melhor dizendo. Nos meus livros
cada linha é importante. Eu não escrevo à ligeira. Às vezes mudo uma
palavra, porque aquela tem duas sílabas e eu preciso de uma com três. Para
fazer aquele desenho musical que eu preciso. Tem que ter aquele redondo ao coração
da pessoa que o lê. E como leitora também sou assim.
MG
– Vamos voltar ao anjo. Deu-lhe uma primeira história e depois? Também
foi o anjo que lhe deu uma história com mulheres na prisão?
R.L.F.
– Foi. E eu fui para Tires, aliás dedico o livro às reclusas de Tires.
Porque eu escrevo os livros como quem lê uma história. Posso saber o esqueleto
da história, mas não sei os pormenores. E às tantas percebi que a minha
protagonista ia presa e pensei, caramba! O que é que eu sei de prisões? Nada.
Só de prisões que vejo nos filmes. As americanas. E pensei que em Portugal não
devia ser nada assim. Somos todas tão mais caseirinhas. Deve ser uma coisa
muito menos militar. Pedi autorização aos serviços prisionais para ir
pesquisar, explicando que era ficção, não tinha nada a ver com reportagem.
Deram-me as autorizações todas, a directora da prisão foi inexcedível de
simpatia, aliás adorou o livro...
MG
– E as presas, também gostaram?
R.L.F.
– Não sei se têm literacia suficiente para ler o livro. Mas sei, por
exemplo, que nas prisões de homens, onde o Raul Solnado fez um trabalho muito
bonito, que foi ensiná-los a ler no sentido de perceberem um livro, que o livro
de maior sucesso foi o meu. O Raul telefonou-me a dizer que eu tinha de ir com
ele às prisões, e foi fantástico. Vi homens a chorarem com partes do livro!
Um deles dizia-me: «quando a Senhora Rosa» – que era como eles me chamavam
– «diz que a mãe faz sempre comida a mais, quando o filho vai embora, que é
uma forma de continuar a sentir o filho ao pé dela! Ah, não imagina o que eu
senti a ler isto!» E dizia-me isto com as lágrimas a caírem-lhe pela cara
abaixo. Uma pequenina frase. Duas linhas! Outros também me diziam: «nós
gostamos muito da senhora, porque a senhora percebeu o que é que os pobres
sentem». E eu respondia-lhe que não é um problema de sermos pobres ou não
– somos todos pessoas! E eu também sinto essas coisas que vocês sentem!
MG
– A Rosa sentiu-se muito próxima das mulheres que conheceu, em Tires?
Conseguiu identificar-se com elas?
R.L.F.
– Estas mulheres de quem eu falo, foram presas porque mataram os maridos, e eu
descobri que nas mesmas circunstâncias tinha feito exactamente a mesma coisa.
Eu não sou diferente delas! A minha circunstância é que é diferente! Se
vierem violar os meus filhos eu mato. Só que se calhar tenho uma circunstância
em que isso não é tão possível. Ou eu sei recorrer a outros mecanismos de
protecção que elas não sabem. Uma analfabeta enfiada dentro de uma quinta,
sem ver ninguém, e de repente o marido começa a dizer que vai violar as
filhas, não tem outra solução! Mata o homem. E eu passei a achar natural que
se fizesse assim. Essa mulher a que eu chamo Zulmira no Romance da Cordélia era
extraordinária. Foi ela que me contou a história dela, todas me contaram, é
evidente que ficcionei um bocadinho, poetizei, mas o essencial é aquilo. A
diferença é no discurso e outra diferença – as histórias eram tão
sobrecarregadas, algumas delas sobretudo, que tive de dividir por duas.
MG
– Aquelas mulheres estão presas quando deveriam estar a ser amparadas,
apoiadas de todas as maneiras, desde acompanhamento psicológico, a médico,
tudo, por causa da vida de inferno que levaram, e que as levou até matar. Como
se pode considerar que são criminosas, sem sequer a atenuante da legítima
defesa, em nome de vidas, inteiras, de inferno?
R.L.F. – Sabe porque é que esta mulher apanhou 25 anos? Porque as filhas foram vistas pelos médicos de medicina legal e como não tinham sido violadas consideraram tudo uma invenção. Mas um homem mata outro que não lhe faz mal nenhum e apanha 10, e ao fim de quatro está cá fora. Viola uma criança, apanha três anos e ao fim de uns meses já está em casa. Mas esta mulher, que tem este acto heróico de matar o inimigo das suas filhas, e que se vai entregar – não esperou que a prendessem, ninguém desconfiava dela, o marido era um bruto, morreu de indigestão, ponto final. Ela é que quis ser presa, achou que tinha de pagar. Uma mulher admirável.
«QUANDO
ACABEI O PRIMEIRO LIVRO
DISSE:
NUNCA MAIS FAÇO OUTRO»
MG
– E achou que havia uma diferença grande entre as tais cadeias americanas que
conhecia dos filmes e estas, as cadeias portuguesas?
R.L.F.
– Uma grande diferença. Para melhor. Porque tem uma componente afectiva, que
as outras me dá a sensação de não terem. Nós somos mesmo muito de brandos
costumes. E há uma cumplicidade grande entre as guardas e as presas, feita de
coisinhas do quotidiano, do tomaste o comprimido, ou já soubeste da tua mãe.
De vez em quando arrepelam-se todas. Uma gritaria medonha, uma grande briga, mas
depois logo passa. Senti-me sempre seguríssima com elas. Achei que eram umas
amigas minhas, de sempre. Comíamos à mesma mesa, uma mesinha de quatro, e elas
ansiosas por me contarem a sua história. Não é minha maneira de ser, emitir
qualquer juízo de valor. As perguntas que fazia eram todas no sentido de
compreender melhor. Houve uma, e isto está no livro, que me disse: estou aqui
por um crime que não cometi. Eu não matei o meu marido. Mas fiz tantos crimes
que não me importo. Estou a pagar por crimes pelos quais nunca fui presa. Uma
rapariga ainda nova, muito bonita.
MG
– Essa história também aparece no Romance de Cordélia.
R.L.F.
– Sim, de uma maneira um pouco diferente, mas mesmo assim custou-me descrever
aquelas mortes horríveis. Depois ela contou-me que um dia caiu em si e sonhou
com a Nossa Senhora que lhe disse que ela não podia continuar aquela vida. Eu
acho isto tudo lindíssimo! E ela foi viver muito feliz com o seu marido, que
também tinha sido bandido, e tiveram uma filha e eram todos muito felizes, até
ao dia em que o marido estava a sulfatar as vinhas e envenenou-se com o sulfato.
Claro, como ela tinha aquele passado, condenaram-na. Uma pena enorme, 25 anos.
Mas ela achou que era justo. As pessoas têm todas um sentimento imanente de
justiça.
MG
– A seguir ao Romance de Cordélia vem o Prenúncio das Águas. Uma mudança
enorme de registo. Como foi a transição entre um e outro?
R.L.F.
– Quando acabei o primeiro livro disse assim tudo quanto sabia, tudo o que eu
aprendi ao longo dos meus sessenta anos, está aqui. Não sei mais nada. Não
esperem mais de mim, e nem me perguntem mais coisíssima nenhuma. Acabou. Disse
isso ao Manel Valente, que é o director editorial da Asa, e fartei-me de rir
porque tinha assinado um contrato por dez anos.
MG
– E quanto tempo esteve sem escrever?
R.L.F.
– Dois meses. Disse isto em Janeiro e comecei a escrever em Março. Porque
logo, logo, começou-me a surgir assim de dentro aquelas mulheres que vêm
absolutamente do nada, e que conseguem construir-se e ser pessoas fantásticas
na sua área. Este livro foi inspirada numa analfabeta, que foi para criada de
um senhor, passou a governanta, aprendeu tudo o que havia para aprender, o
senhor casou com ela, e ela fez-se uma “lady”! Ora eu acho que para se
atingir esse estatuto tem que se ter nascido no povo. Não se pode ter nascido
na classe média. É o que eu chamo a aristocracia popular que eu defendo que
existe. E veio ter comigo aquela Diamantina, que não podia ter outro nome. Não
podia ter um daqueles nomes bonitos entre aspas. Mas depois Diamantina tornou-se
um nome fantástico, era como ela assinava as colchas. Outra coisa que eu juntei
aos seus atributos, é que uma obra de arte é um conceito. As pessoas acham que
uma obra de arte só pode ser um quadro ou um livro ou uma escultura ou uma
partitura musical. Não! Pode ser uma colcha. E queria muito dizer isto sempre
partindo do tal princípio que aquele livro era o último, agora é que eu ia
esgotar tudo o que sabia.
MG
– Mas o livro aprofunda outras vertentes da psicologia humana!
R.L.F.
– Sempre tive a impressão que as pessoas muito talentosas gerem mal os
sentimentos.. E espetam-se com a pessoa mais burra ou menos interessante,
porque, acho eu, são destituídas da capacidade de gerir os afectos. Não sabem
o que é bom para si, nem para a sua vida, e não têm sentido prático. E então
a Diamantina apaixona-se por um malandro.
MG
– Começa aqui a entrar pelos caminhos da paixão.
R.L.F.
– É. Começo já a falar da paixão, que se revelou depois ser um tema
recorrente nos meus livros. A paixão com uma grande componente lírica. Temos
então a Diamantina que é uma grande apaixonada pelo seu Chico Ruço, a Camila,
logo a seguir, que é aquela paixão romântica, por aquela pessoa que
praticamente não se conhece, ela viu aquele homem três vezes, idealizou que
era o homem da vida dela, e que acabou por ser. Gosto de escrever sobre a paixão
porque acho que é um tema inesgotável.
MG
– O próprio Romance da Cordélia...
R.L.F. – Acaba por ser. Tem tudo a ver com muitas paixões. No Prenúncio das Águas há aquela coisa que eu também achei piada falar, que é uma mulher poder amar dois homens. Um pelo espírito outros pelo corpo. Isto diz-se muito dos homens mas nunca se diz das mulheres e eu achei que sim, ela gostava de ir par a cama com o Zé Nunes, mas com quem gostava de conversar era com o Ivo Morais. Ela realmente gostava dos dois. E não havia nada a fazer. Ela era dominada por aquele homem, que ela achava que era burríssimo, um parvalhão, mas as mulheres têm isso. Um homem dá-lhes a volta, e elas estão mesmo a ver que aquilo não tem saída, mas não podem fazer nada. E de facto o Zé Nunes era tão sedutor que eu própria já estava um bocadinho apaixonada por ele (risos). E então aí achei que o melhor era matá-lo.
«NÃO
ACREDITO NO TEMPO
EM
QUE OS POETAS CAGAVAM ROSAS»
MG
– Um tema que culmina, julgo eu, no romance lindíssimo que é sobre os amores
de Pedro e Inês. E que a Rosa abordou de uma forma inédita.
R.L.F.
– Sim, mais do que nenhum, "A Trança de Inês" é um livro sobre a
paixão. E nesta perspectiva, por mais que as circunstâncias mudem, a paixão
permanece o mesmo sentimento com as mesmas consequências, fazendo os mesmos
estragos na vida e na alma das pessoas.
MG
– "A Trança de Inês" é uma tragédia grega! E sendo um livro
sereno e até poético, tem a dimensão da vertigem.
R.L.F.
– Daí a minha necessidade de pôr o livro quase visto de um outro plano. Ou
seja aquele homem veio de um outro plano cumprir três vezes o mesmo destino.
MG
– Entretanto já tinha posto de parte a ideia de que cada livro era o último?
R.L.F.
–A partir da Cordélia aceitei que todos nascemos com uma determinada missão,
e se calhar a minha era escrever estes romances. Para que servem? Quem me
incumbiu desta missão saberá. É como eu digo – os livros é que me escolhem
a mim. Eu não tenho que escolher nada.
MG
– Há uma grande alegria nos seus livros...
R.L.F.
– Esperança, talvez.
MG
– Situações carregadas de humor. E páginas cheias de perfumes. Cheiros da
terra, comidas maravilhosas, um fantástico muito real.
R.L.F. – A mim interessa-me o dia a dia, que depois transcendo. Não me interessam muito personagens que estejam completamente afastadas da realidade. Não acredito no tempo em que os poetas cagavam rosas. Somos todos de carne e osso. E é a partir do trabalho que fazemos connosco próprios é que transcendemos essa condição humana, quiçá divina, que todos temos, em ultima análise. O passar do bicho para o divino, é disso que a vida trata.