O seu último romance "O Pintor" será lançado em Fevereiro 2004, durante as "Correntes de Escrita", na Póvoa do Varzim, Portugal. Ana N. Gusmão é nossa colaboradora constante e de indubitável excelência. A colecção de contos que já publicou na STORM daria para uma colectânea reveladora da vida de pessoas, aparentemente vulgares que, nos seus textos, ganham estatuto de heróis e heroínas. Breves aparições de impacto surpreendente.A vida absolutamente em directo.
Marinela cerzia e apanhava malhas num canto escuro da retrosaria da minha mãe e era a atracção do bairro e arredores pois possuía umas mãos que diziam bentas e que faziam maravilhas e milagres, tanto no que respeitava a cerzir e a apanhar malhas sem deixar o mínimo vestígio, como na capacidade de curar dores, todas as dores e as das cruzes em particular. Eu tinha treze anos quando ela começou a trabalhar na retrosaria, era pequeno em tamanho e se não fosse o buço escuro que despontava e as fífias na voz, ninguém diria que entrara na puberdade.
Marinela foi simultaneamente amor à primeira vista e a minha primeira paixão, de modo que quando saía do liceu parava na retrosaria só para a ver e ia-me deixando ficar até a Nádia (a outra empregada) me mandar para casa, “Não tarda a sua mãezinha está a vir buscá-lo por uma orelha”, lembrava ela a enxotar-me para a porta, “Corra para casa antes que a pobre fique em cuidado.”
Nádia gostava de puxar por mim, de me provocar e de me entontecer com histórias e piadas picantes, carregadas de sensualidade e de sextos sentidos, alusões a namoros, beijos trocados ao luar e forrobodós gozados à socapa.
Marinela era mais calada e concentrada no trabalho, mas às vezes deitava-me uns olhares estranhos, como se me visse sem me ver, e um sorriso aflorava-lhe os lábios pintados.
- E o menino já roubou algum beijo à sua namorada – perguntou ela um dia, de agulha suspensa no ar, a esconder o sorriso por trás da esguia e delicada mão.
- Ai deu, deu – disse Nádia de cotovelos apoiados no balcão e com os olhos fogosos cravados em mim – E até mais do que um de certeza
a julgar pelo modo como ele espreita por nós acima sempre que eu trepo ao escadote ou tu cruzas as pernas, deve saber muito mais do que devia.
Eu senti a cara a arder e vinguei o embaraço a dar masculinos pontapés nas fazendas, a abrir gavetas e a desenrolar rolos de elástico, de grega, de bordado inglês e a espalhar botões, fivelas, molas e colchetes sobre o balcão.
- Menino Simão, menino Simão – gritou Nádia a brandir ameaçadoramente o metro de madeira – Não estivesse eu a sentir-me adoentada e ia ver o que lhe acontecia.
- Ele volta a arrumar – afirmou Marinela com uma voz adocicada a pousar o trabalho sobre a camilha e a levantar-se – Vá, eu dou-lhe uma mãozinha.
E para a Nádia – E tu devias ir para casa, acho-te com muito má cara – disse ela – O menino Simão fica aqui e dá-me uma ajuda se for preciso, não dá?
Eu senti-me um homem – Fico até às sete – declarei solene, o fico numa voz grossa e os até às sete noutra desgraçadamente mais fina – Vou só avisar a minha mãe e volto já.
- Vá num pé e venha noutro – pediu a Nádia – Eu espero que o menino volte e depois vou-me embora.
Quando a Nádia saiu, Marinela aproximou-se de mim e colocou-me a mão no ombro - Aposto que não é capaz de me dar um beijinho como os que dá à sua namorada – disse a piscar-me o olho e a mostrar os dentes brancos, pequenos e regulares num sorriso que me pôs as pernas bambas.
E sem esperar pela minha reacção prendeu-me a cara entre as mãos e pespegou-me um beijo na boca.
A seguir largou-me de uma forma abrupta, recuou, virou-me as costas e sem dizer uma palavra voltou para o canto da loja, sentou-se e retomou o trabalho.
Perturbado pelo inesperado beijo e pelo silêncio em que Marinela caíra deixei-me ficar especado no meio da loja um bom bocado – O que é que eu faço – perguntei finalmente sem me atrever a olhar para ela.
- Sente-se aqui ao pé de mim e se aparecer uma cliente atenda-a – disse ela – Venha para aqui, esteja sossegado e aproveite para fazer os trabalhos de casa ou para estudar.
Eu aproximei-me dela – Onde – perguntei – Não há cadeira nem mesa.
- Vá buscar uma peça de flanela – sugeriu ela – E sente-se em cima dela.
Sentei-me obedientemente no chão em cima da flanela, abri a pasta, tirei o livro de História e fiz menção de começar a estudar, mas a proximidade dela desconcentrava-me e o cheiro que emanava do seu corpo dava-me a volta à cabeça.
Marinela suspirou e remexeu-se na cadeira.
Sem querer a minha mão roçou a perna dela.
Ela moveu imperceptivelmente a perna e voltou a suspirar.
Eu encolhi-me todo à espera de uma reprimenda, de um sopapo ou de um safanão, mas nada.
Desconfiado olhei para cima e vi a sua expressão geralmente grave e concentrada amaciada num sorriso, o rosto iluminado por um inesperado rubor
e a mão delicada a levar devagar e num gesto preciso a agulha a penetrar na cambraia.
Mais seguro toquei-lhe na perna com a ponta dos dedos – Tens tantos pêlos – balbuciei arrepiado – A minha mãe rapa-os.
Marinela soltou uma risada e pousou o trabalho sobre a camilha – Eu também – disse a fazer-me uma festa na cabeça – Quando tenho tempo e paciência
ou quando vou à praia.
E após uma breve pausa – Porquê, não gostas?
Senti a cara a arder – Gosto pois – apressei-me a dizer, mas a minha voz saiu fininha, quase inexistente.
- Gosto pois – repeti numa voz grossa, exagerada.
- Então podes continuar a mexer – disse ela num murmúrio – Mas tens de me prometer que não contas a ninguém.
- Juro – disse sério a levar os dedos um pouco mais acima.
Marinela abriu um pouco as pernas – Maroto – disse numa voz rouca que não reconheci – O menino é fresco.
E após um suspiro trémulo pegou na agulha e voltou placidamente a cerzir.
De respiração quase suspensa continuei a conquistar centímetro a centímetro aquela carne macia e quente, morto de impaciência por chegar ao tesouro, mas a avançar devagar com medo de ser repelido.
Quando a minha mãe entrou na retrosaria a chamar por mim tive ganas de a matar.
- Está aqui muito quietinho ao pé de mim a estudar História – disse Marinela a enxotar rapidamente a minha mão da coxa dela e a fechar as pernas.
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