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Lição de Vida

Por Ana Nobre de Gusmão

 

Nan Goldin, 1985, Suzanne and Philippe...O seu último romance "O Pintor" será lançado em Fevereiro 2004, durante as "Correntes de Escrita", na Póvoa do Varzim, Portugal. Ana N. Gusmão é nossa colaboradora constante e de indubitável excelência. A colecção de contos que já publicou na STORM daria para uma colectânea reveladora da vida de pessoas, aparentemente vulgares que, nos seus textos, ganham estatuto de heróis e heroínas. Breves aparições de impacto surpreendente.A vida absolutamente em directo.

Marinela cerzia e apanhava malhas num canto escuro da retrosaria da minha mãe e era a atracção do bairro e arredores pois possuía umas mãos que diziam bentas e que faziam maravilhas e milagres, tanto no que respeitava a cerzir e a apanhar malhas sem deixar o mínimo vestígio, como na capacidade de curar dores, todas as dores e as das cruzes em particular. Eu tinha treze anos quando ela começou a trabalhar na retrosaria, era pequeno em tamanho e se não fosse o buço escuro que despontava e as fífias na voz, ninguém diria que entrara na puberdade.
Marinela foi simultaneamente amor à primeira vista e a minha primeira paixão, de modo que quando saía do liceu parava na retrosaria só para a ver e ia-me deixando ficar até a Nádia (a outra empregada) me mandar para casa, “Não tarda a sua mãezinha está a vir buscá-lo por uma orelha”, lembrava ela a enxotar-me para a porta, “Corra para casa antes que a pobre fique em cuidado.”
Nádia gostava de puxar por mim, de me provocar e de me entontecer com histórias e piadas picantes, carregadas de sensualidade e de sextos sentidos, alusões a namoros, beijos trocados ao luar e forrobodós gozados à socapa.
Marinela era mais calada e concentrada no trabalho, mas às vezes deitava-me uns olhares estranhos, como se me visse sem me ver, e um sorriso aflorava-lhe os lábios pintados.
- E o menino já roubou algum beijo à sua namorada – perguntou ela um dia, de agulha suspensa no ar, a esconder o sorriso por trás da esguia e delicada mão.
- Ai deu, deu – disse Nádia de cotovelos apoiados no balcão e com os olhos fogosos cravados em mim – E até mais do que um de certeza
a julgar pelo modo como ele espreita por nós acima sempre que eu trepo ao escadote ou tu cruzas as pernas, deve saber muito mais do que devia.
Eu senti a cara a arder e vinguei o embaraço a dar masculinos pontapés nas fazendas, a abrir gavetas e a desenrolar rolos de elástico, de grega, de bordado inglês e a espalhar botões, fivelas, molas e colchetes sobre o balcão.
- Menino Simão, menino Simão – gritou Nádia a brandir ameaçadoramente o metro de madeira – Não estivesse eu a sentir-me adoentada e ia ver o que lhe acontecia.
- Ele volta a arrumar – afirmou Marinela com uma voz adocicada a pousar o trabalho sobre a camilha e a levantar-se – Vá, eu dou-lhe uma mãozinha.
E para a Nádia – E tu devias ir para casa, acho-te com muito má cara – disse ela – O menino Simão fica aqui e dá-me uma ajuda se for preciso, não dá?
Eu senti-me um homem – Fico até às sete – declarei solene, o fico numa voz grossa e os até às sete noutra desgraçadamente mais fina – Vou só avisar a minha mãe e volto já.
- Vá num pé e venha noutro – pediu a Nádia – Eu espero que o menino volte e depois vou-me embora.

Quando a Nádia saiu, Marinela aproximou-se de mim e colocou-me a mão no ombro - Aposto que não é capaz de me dar um beijinho como os que dá à sua namorada – disse a piscar-me o olho e a mostrar os dentes brancos, pequenos e regulares num sorriso que me pôs as pernas bambas.
E sem esperar pela minha reacção prendeu-me a cara entre as mãos e pespegou-me um beijo na boca.
A seguir largou-me de uma forma abrupta, recuou, virou-me as costas e sem dizer uma palavra voltou para o canto da loja, sentou-se e retomou o trabalho.
Perturbado pelo inesperado beijo e pelo silêncio em que Marinela caíra deixei-me ficar especado no meio da loja um bom bocado – O que é que eu faço – perguntei finalmente sem me atrever a olhar para ela.
- Sente-se aqui ao pé de mim e se aparecer uma cliente atenda-a – disse ela – Venha para aqui, esteja sossegado e aproveite para fazer os trabalhos de casa ou para estudar.
Eu aproximei-me dela – Onde – perguntei – Não há cadeira nem mesa.
- Vá buscar uma peça de flanela – sugeriu ela – E sente-se em cima dela.
Sentei-me obedientemente no chão em cima da flanela, abri a pasta, tirei o livro de História e fiz menção de começar a estudar, mas a proximidade dela desconcentrava-me e o cheiro que emanava do seu corpo dava-me a volta à cabeça.
Marinela suspirou e remexeu-se na cadeira.
Sem querer a minha mão roçou a perna dela.
Ela moveu imperceptivelmente a perna e voltou a suspirar.
Eu encolhi-me todo à espera de uma reprimenda, de um sopapo ou de um safanão, mas nada.
Desconfiado olhei para cima e vi a sua expressão geralmente grave e concentrada amaciada num sorriso, o rosto iluminado por um inesperado rubor
e a mão delicada a levar devagar e num gesto preciso a agulha a penetrar na cambraia.
Mais seguro toquei-lhe na perna com a ponta dos dedos – Tens tantos pêlos – balbuciei arrepiado – A minha mãe rapa-os.
Marinela soltou uma risada e pousou o trabalho sobre a camilha – Eu também – disse a fazer-me uma festa na cabeça – Quando tenho tempo e paciência
ou quando vou à praia.
E após uma breve pausa – Porquê, não gostas?
Senti a cara a arder – Gosto pois – apressei-me a dizer, mas a minha voz saiu fininha, quase inexistente.
- Gosto pois – repeti numa voz grossa, exagerada.
- Então podes continuar a mexer – disse ela num murmúrio – Mas tens de me prometer que não contas a ninguém.
- Juro – disse sério a levar os dedos um pouco mais acima.
Marinela abriu um pouco as pernas – Maroto – disse numa voz rouca que não reconheci – O menino é fresco.
E após um suspiro trémulo pegou na agulha e voltou placidamente a cerzir.
De respiração quase suspensa continuei a conquistar centímetro a centímetro aquela carne macia e quente, morto de impaciência por chegar ao tesouro, mas a avançar devagar com medo de ser repelido.
Quando a minha mãe entrou na retrosaria a chamar por mim tive ganas de a matar.
- Está aqui muito quietinho ao pé de mim a estudar História – disse Marinela a enxotar rapidamente a minha mão da coxa dela e a fechar as pernas.

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