Estes testemunhos fragmentados são objectos perfeitos, enclausurados em epifânias. Contemplação, sobressalto e uma sensualidade cálida a insinuar-se no quotidiano. Uma grande voz do universo poético.
Tenho uma resma de papel para te oferecer
com muitas saudades e paisagens de chuva e
gritos acetinados; tenho-me para ti,
para me levares ao mar e me lançares
um abraço pouco apertado.
Também fiz um gelado, para sorvermos
na praia, enquanto os pássaros se afastam
depois de nos roubarem a roupa.
E já sinto frio e ouço
a gargalhada de pudor
ao regressarmos nus a casa.
29/Maio/2003
O teu corpo...
O teu corpo esconde o mistério de mil livros – a justiça das leis por incendiar, nesta honesta batalha por ti.
Mas eu não tenho armas. Só luto com os dedos doridos - procuro a tua forma original, o dilúvio, a lava que se encobre na pedra fria que me acerta.
E o teu corpo, sob a roupa, estremece em cada letra que te escrevo, com pseudónimo.
04/Junho/2003
Os Livros...
Os livros permanecem ao meu lado, num justo estado de fé, enquanto isolo o tempo que me falta, para os poder afagar com os olhos.
Esperam por mim, os livros, com a mesma ebulição dos filhos quando me chegam a casa e se lançam nos meus braços.
Mas depois há a injustiça das tarefas, e ficam e à espera. Os livros e os filhos.
05/Junho/2003
O meu caminho...
O meu caminho é o meu ninho.
Durmo nas paredes mais largas, cubro-me das folhas que sobraram da última estação, sento-me em sobras de troncos, respiro a aragem deixada pelo voo dos pássaros e vivo.
Estou só e ferida.
Os gatos arranharam-me numa brincadeira perigosa; os pássaros debicaram-me aflitos e tu não apareceste para me salvar da intensa exposição solar.
06/Junho/2003
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