Maria Teresa Horta, Antologia Pessoal, 100 poemas, editora Gótica, Lisboa, 2003.
A escrita vai-me despoletando dúvidas à medida que acontece. Há um risco de um descontrolo emocional, porque a escrita desvela faces de mim que me eram absolutamente desconhecidas. Isso acontece-me quase sempre, mas este livro foi um processo mais uma prospecção mais profunda, que às vezes me assustava.
Maria Teresa Horta , Destino.
Esta antologia de 100 poemas, seleccionados pela autora, ao longo das suas várias obras - Espelho Inicial (1960), Tatuagem (1961), Cidadelas Submersas (1961), Verão Coincidente (1962), Amor Habitado (1963), Candelabro (1964), Jardim de Inverno (1966), Cronista não é Recado (1967), Minha Senhora de Mim (1971), Educação Sentimental (1975), Mulheres de Abril (1977), Os Anjos (1983), Minha Mãe Meu Amor (1986), Rosa Sangrenta (1987), Destino (1997), Só de Amor (1999), Vozes e Olhares no Feminino (2001) - oferece-nos uma escolha cujo critério é o da depuração minuciosa e rigorosa que atesta um percurso singular e coerente. Alheio a modismos é pautado pelas obsessões sempre presentes na sua obra: o corpo e o amor, isto é, o corpo tomado como celebração ou júbilo, relembrando a expressão de Bataille, em Erotismo, “uma imensa aleluia num silêncio sem fim”.
A assinalar o universo coerente da sua poesia, podemos afirmar que Maria Teresa Horta, tal como Bataille ou Artaud, já não se encontra preocupada com a ideia de literatura ou de texto poético, mas tão só com a escrita, tal como ela se entretece com o imperceptível e com a fruição da vida, do prazer e do corpo. O corpo é seguramente a mais óbvia das evidências, mas dizê-lo transforma-se na vertigem do seu próprio enunciar. Por isso, a imensa sombra que paira nesse umbral, onde confinam os limites entre o enunciar e o próprio enunciado, assume a forma de uma ausência que se faz presente, a cada momento, uma presença convocada pelo texto poético. A voz (o grito) é a presença, na escrita, de um outro do sentido: desde a angústia da perda ao júbilo do prazer, a voz permanece como modulação da forma, configurando o espaço, preenchendo-o, disseminadamente. É disso exemplo o poema “O Grito”: “O grito que se solta/ espaço a espaço// que se afunda mole/e aderente// que se adivinha/curvo e apertado//(...)O grito que se insinua/pela tarde// se desdobra mudo/incoerente (...)O grito que se sabe antigo//imenso(...)O grito que em tristeza/cai lá fora/no espaço que da chuva se desprende” (pp. 32, 33).
E essa ausência com que nos confrontamos, uma ausência feliz porque habitada pela voz, delineia um espaço silencioso e secreto, indizível, como encontramos em “Palavras”: “Habito por dentro/ das palavras//(...)E se as palavras tenho/como armas/moldando-as uma a uma/conscientemente// É de habitá-las hoje/que suponho/ não mais poder usá-las conivente” (p. 37). Símbolo ou imagem dessa impotência de comunicar as palavras nomeadoras, a poesia ou a escrita (como prefiro chamar) de Maria Teresa Horta é, não apenas o gesto de enunciar ou de nomear, mas essencialmente uma inflexão da própria poesia sobre si própria, uma metalinguagem ou “o ritual interno/da ternura” (p. 37) lugar “sagrado”. E porque, ao longo da sua obra, Maria Teresa Horta se aproxima cada vez mais da dimensão essencial da palavra poética, também esta antologia exprime o caminho para a mais rigorosa depuração, num desdobramento pleno e sereno, contido, da sua voz poética. É ela quem diz, em “Vulcão”: “Saber um extinto/ vulcão/dentro do peito// um espaço interdito/e vulnerável// Um coração de fogo/ que perdeu a imagem” (p.129). Celebração do corpo, dir-se-á, erotismo e ousadia, mas também a descoberta do corpo como lugar de ruína ou de mutilação, exaltação do perigo da vida e da experiência como travessia (como a própria palavra etimologicamente o diz ex-perire, atravessar um perigo), em “O Impossível”: “Resguardou-se o sangue e a lâmina da faca/recolheu-se da vida simplesmente o nada/aquele meigo espaço que doendo/é já no peito a morte inesperada” (p.130). E dessa travessia fica-nos a lição trágica e melancólica que sabe que “o lugar destes sítios é o destino”, “uma dúvida cansada de quem chega/com uma chaga aberta no peito” (p. 132). A melancolia esboça-se, precisamente nesse saber de que o espaço da palavra é também o espaço da morte e da desagregação do humano e do físico, para citarmos Giorgio Agamben ou lembrarmos Blanchot. Todavia, a escrita poética, votada ao destino, essa “chaga aberta” e nunca supurada, de que nos fala a autora, é ainda e paradoxalmente uma exaltação do fulgor efémero do corpo, da vida e do amor que o habita, no seu lado mais divino e simultaneamente vulnerável.
A intensidade poética de Maria Teresa Horta, que advém do modo como, de corpo inteiro, a autora sempre assumiu os riscos da escrita, é uma lição de sageza para quem, nos dias que correm, confunde experiência com o “inventário inócuo dos dias”. A forma como, desde sempre, a autora assumiu um discurso poético que fazia frente à hipocrisia moral da sua época e num tempo em que a poesia erótica se confinava a um território masculino e exclusivo, é um dos aspectos essenciais a ter em conta, mas obscurece, em parte, o valor autêntico da sua poética. É tempo de lermos os seus livros com um olhar atento ao “dizer rente” que nela se vislumbra, em todo o seu esplendor.
Sobre a autora:
Maria Teresa Horta nasceu em Lisboa e estreou-se na poesia em 1960, com Espelho Inicial. Jornalista de profissão, o seu nome é associado ao grupo da “Poesia 61”, que integrava poetas como Luiza Neto Jorge, Gastão Cruz, Casimiro de Brito, entre outros. É sobretudo a partir do escândalo que envolveu as Novas Cartas Portuguesas, de que foi co-autora, e ao processo judicial que se lhe seguiu, que passa a ser vista como figura expoente do feminismo em Portugal. É com Minha Senhora de Mim (1971) que a a literatura portuguesa assinala um importante momento de viragem na escrita feminina contemporânea e na obra da autora. Escrita erótica e subversiva, face ao universo masculino (no sentido em que o erotismo era exclusivamente território masculino), Maria Teresa Horta dá um passo gigantesco e um contributo assinalável para a emancipação da escrita feminina em Portugal.
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