Poemas de grande contenção, minimalistas. Um olhar sobre o que nos rodeia, transformado pela força do sentir poético e pelo ritmo das palavras.Um contacto estreito, sensual, privado, com objectos que parecem tão familiares.
COLHER
É íntima das bocas:
as mornas mucosas
na carne de alumínio.
No côncavo do corpo
beijos vorazes da gula
nos delírios do apetite.
Depois é restar vazia
Na solidão de mármore da pia.
ESPELHO
Ali estava o outro – o meu eu cintilando
nos corpúsculos de luz e nitrato de prata.
Era o duplo de mim, o eu-reflexo,
trânsito da minha passagem
na paisagem do mundo,
o último movimento da carne
no armarinho do banheiro.
PRATO
Em seu bojo fumegaram refeições, sucumbiram apetites,
tiniram garfos e facas roçando-lhe o corpo de louça.
Em sua circunferência de gostos e paladares, a vida
- toda boca e dentes -, matou a fome de cada dia.
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