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Estaline, analisado por Martin Amis

Por Helena Vasconcelos

 

Com " Yellow Dog", a obra mais recente de Martin Amis, a gerar as habituais polémicas, é insispensável ler "Koba, The Dread", o livro que trata a questão do estalinismo a partir de uma perspectiva muito pessoal.


A morte resolve todos os problemas. Ao eliminar-se o homem, elimina-se o problema.” Estaline.

Depois de “Experiência” (Ed. Teorema), Martin Amis conseguiu repetir magistralmente o “truque” de produzir uma obra na qual a autobiografia e os grandes acontecimentos que deram forma ao universo contemporâneo entre agem e, praticamente, se desafiem entre si.Desta vez, "Koba the Dread" é, essencialmente uma meditação em forma de parábola sobre a culpa colectiva. O título, com a sua ambivalência e hábil jogo de insinuações, mostra Martin Amis no seu melhor, a avançar para uma análise do estalinismo e da história recente da União Soviética. Amis revela as suas tragédias familiares e especula inteligentemente sobre a razão do fascínio, por parte de intelectuais reputados do ocidente, incluindo o seu próprio pai e Sartre, em relação a um sistema político que se baseou num aparatus repressivo, baseado em mentiras, em trabalho escravo, em pogroms, torturas e assassinatos. A estranheza e repugnância de Amis é claramente expressa (“toda a gente sabe dos 6 milhões de vítimas do Holocausto e ninguém fala sobre os 6 milhões que pereceram durante o Terror/Fome do estalinismo”) e os argumentos de uma certa inteligentsia britânica, fascinada pelo bolchevismo, levam-no a denunciar, com uma ironia corrosiva misturada com desprezo, um regime – que durou sete vezes mais do que o nazismo – cujos pilares foram as deportações em massa, a tortura, as execuções sumárias, o assassínio e a repressão.
É usual que sobreviventes de tortura refiram que os piores momentos por que passaram tenham sido aqueles em que o torturador estava de bom humor. Estaline foi, provavelmente, um dos déspotas com um sentido de humor mais bizarro e aterrador. Quem o diz é Christopher Hitchens, (autor de “A Tale of Two Utopias" ),o jornalista e grande amigo de Martin Amis, com quem ele tem mantido acesas discussões sobre a responsabilidade dos intelectuais de esquerda, desde os tempos do New Statesment. O riso, nas suas vertentes mais sinistras, sempre exerceu um fascínio muito especial sobre Amis que tem utilizado essa “arma” na sua obra, atingindo aqui um apogeu difícil de igualar. Não admira que Estaline seja um tema apetecível. Amis começa por mostrar a quantidade de informação que acumulou sobre o ditador, para depois se dedicar a reflexões sobre o pai, Kingsley Amis, sobre a morte da sua irmã, Sally , seguindo-se comentários de vários textos de Aleksandr Solzhenitsyn e de Trotsky (“História da Revolução Russa”) por exemplo, e análises da correspondência entre Vladimir Nabokov e Edmund Wilson. Faz, ainda, a sua crítica aos membros do Bloomsburry Circle e aos seus antigos “camaradas” do New Statesment. Como chama a atenção Zinovy Zinik, na sua recensão ao livro para o TLS (23 Agosto, 2002), Amis “denuncia uma forma utópica de pensar , rejeitando um “paraíso” criado à custa do sacrifício de milhões de pessoas. Finalmente, Amis centra a sua argumentação na questão do medo como força que mina e diminui a capacidade de exercer a liberdade, estabelecendo uma relação entre o Terror estalinista e a repressão pela linguagem, a violação dos direitos humanos, o vício do secretismo e a distorção da realidade. Com mágoa, ressalva o facto de Estaline ter tido à sua disposição um território imenso e inóspito bem como um espaço de tempo bastante alargado ( sete vezes mais longo do que o nazismo). E, com perplexidade sarcástica, coloca o dedo na ferida: por que razão os intelectuais “sérios” se insurgiram contra o nazismo e contra o perigo atómico e se mostraram benevolentes para com Estaline?
“Koba the Dread” poderá ser considerado como o terceiro dos livros de Martin Amis – depois de “Einstein Monsters” sobre o perigo atómico e “Time’s Arrow” sobre o Holocausto – que o autor dedica ao tema do genocídio, empregando uma forma literária de cunho pessoalíssimo. No ano em que se comemora o centenário de George Orwell, vale a pena citar uma das suas frases terríveis que, certamente, Martin Amis conhece: “Há a tendência para que todas as histórias de atrocidades acabem por se assemelhar”.
Martin Amis não tem a intenção de permitir que o esquecimento ou a negligência se abatam sobre as consciências.
"Koba, o Terrível" Ed. Teorema, Lisboa, 2003

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