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Em Teoria (A Literatura)- In Theory (Literature),

Por Maria João Cantinho

 

Frias MartinsManuel Frias Martins, Em Teoria (A Literatura)- In Theory (Literature), editora Ambar, colecção Referência, Porto, 2003.Edição bilingue

(...)O ensino da literatura, uma actividade da crítica que procura lançar o seu pão para a água sem saber quando ou como ou por quem ele será apanhado, está envolvido em paradoxo e ambiguidade (...)Ensinar literatura é impossível; é por isso que é tão difícil. No entanto, deve ser tentado, constante e infatigavelmente tentado, e colocado no centro de todo o processo educativo, pois a todos os níveis a compreensão das palavras é uma necessidade tão urgente e crucial como o é, no seu nível mais elementar, a aprendizagem da leitura e da escrita.

Frye, Northorp, citado por Manuel Frias Martins, p. 114.

Nenhuma citação poderia ser mais adequada ao objectivo fundamental deste livro. Minuciosa e rigorosamente, o autor aborda todas as questões relativas à legitimidade da teoria e da crítica literárias, à possibilidade do seu ensino, à natureza do seu objecto e às teorias mais centrais e significativas sem as quais, actualmente, não podemos problematizar e avaliar criticamente o “objecto literário”.
Partindo do suposto de que este se encontra cada vez mais desvalorizado, em detrimento de outras modalidades estéticas e culturais, submetido a técnicas de hibridismo que, quase sempre, o fazem resvalar para um segundo plano, o autor entende que deve ser repensado e avaliado, em termos de futuro (a palavra devir, aqui, parece mais adequada), do que poderá advir do prazer da leitura e das representações ficcionais e organizadoras do mundo, através da linguagem.
Obviamente, este livro magnífico, em edição bilingue e muito cuidada – o que desde logo o projecta para um universo bem mais amplo - coloca-se sob a égide da prática literária e da pedagogia, no seu melhor sentido. Tanto a introdução, como o desenvolvimento dos restantes capítulos obedecem a uma delineação que se tenta fazer desde o início: “Traçar um Traço para Ver a Linha: a Teoria da Literatura”. Esta configuração dos problemas, com que se confronta actualmente a Teoria Literária e a própria estética, vai ganhando corpo e densidade, à medida que o autor avança nas suas análises. Este primeiro capítulo possui, assim, um carácter epistemológico que procura demarcar o território no qual se desenvolvem as principais questões da teoria literária, abordando os temas de uma forma incisiva e crítica. Todos os restantes capítulos obedecem ao traçado desse mapa, que se esboça desde o início, e do qual Manuel Frias Martins nunca se desvia. De um passado, que é questionável, entre as fronteiras do estético, teoria e crítica literária ocupa-se o segundo capítulo, onde o autor aborda “encontros” e “desencontros” que foram (e são-no, ainda) marcantes na delimitação das fronteiras, passando pelas mais variadas teorias e debruçando-se, particularmente, sobre a importância da Escola de Frankfurt e de Jürgen Habermas.
No terceiro capítulo, “Para a Não definição da Literatura”, Manuel Frias Martins joga com a análise dos conceitos de literatura, do ponto de vista da sua história, com o conceito contemporâneo de literatura, referindo a importância das relações subjectiva e intersubjectiva na problemática do conhecimento da literatura. Dá primazia às questões do método e do objecto da literatura, que são expostas e analisadas criticamente. Aqui, é importante frisar a consistência e coerência do projecto do autor, relativamente a obras anteriores, nomeadamente “A Matéria Negra da Literatura” (objecto da sua tese de doutoramento).
Nesse livro, a “matéria negra” da literatura era definida pelo excesso em relação ao dizer, excesso que foi tomando nomes como inefável, indizível, furor ou inspiração (nos gregos) e, justamente, toda a dificuldade ou (im)possibilidade do ensino da literatura residia na incapacidade de captação de um lado outro da linguagem , a benjaminiana, e a que poderíamos, chamar a “linguagem muda da matéria” e inacessível ao dizer, mas que constitui, na sua essência, o “fluxo metamórfico” da leitura ou a sua matriz. Como o autor o afirma: “Um domínio que, fundado na especificidade ficcional da representação do homem e da vida, nos remete constantemente para um lado obscuro, indeterminado e não racional da comunicação artística, e que o pensamento literário ocidental, desde a poética do entusiasmo de Platão até à indecibilidade derridiana, sempre reconheceu e consagrou em termos de inefável, indizível, inexprimível, neutro, etc.” (v. pp.115/6).
A impossibilidade do ensino da literatura é, naturalmente, consequência deste “vazio” inscrito no que é dito, do mesmo modo que o “pensamento vivo”, se escapava na transmissibilidade e ensino da filosofia.
A opção possível consiste num apontar para a configuração de uma estratégia que intensifique a vivência da experiência literária, entendida como diálogo entre subjectividades, como uma passagem entre o autor – instância ficcional – e o aluno – instância interpretativa. Mas essa experiência reveste justamente toda a riqueza do ensino da literatura e, paradoxalmente, a sua vulnerabilidade.
Passando, ainda pela “Significação Teórica e Possibilidades estratégicas da Convenção Literária”, Manuel Frias Martins analisa as correntes que mais influenciaram a história contemporânea da crítica, com destaque para o Romantismo, Formalismo Russo, New Criticism, Estruturalismo Francês e para M. Bakthin.
No capítulo dedicado à Tradução literária e ao seu lugar teórico, o autor parte da crítica ao texto benjaminiano “A Tarefa do Tradutor”, negando a sua afirmação de que “Nenhum poema se destina ao leitor, nenhum quadro ao observador, nenhuma sinfonia ao ouvinte.” (Benjamin, 1955, 1973: 69, citado por Frias Martins), mostrando quão pouco operativa se tornou esta concepção, na teoria actual da tradução, e como são hoje fulcrais e decisivas as figuras do receptor e do intérprete, na apreciação estética de um texto. É evidente que esta questão é susceptível de discussão e debate, nos dias em que a teoria benjaminiana ainda é muito aceite (e trabalhada) nos meios académicos (cf. os estudos de João Barrento, em "O Poço de Babel", por exemplo). É preciso assinalar, no entanto, a sua profundidade analítica e a sua acutilância, ao longo de todo este texto, mediante as alternativas propostas ao longo do artigo.
O notável ensaio sobre a alegoria, no último capítulo do livro, e a procura de uma fundamentação teórica do conceito de alegoria literária, partindo da distinção entre símbolo e alegoria e definindo, como o fez, entre outros, Henri Meschonic (no seu estudo magnífico sobre Benjamin e o Trauerspiel), a alegoria como “modo de expressão”, joga essencialmente na questão da Mimese e da Semiose, baseando-se nas formulações de Teodorov e de E. Spenser. No entanto, deixa de lado (por opção do autor) os importantes estudos benjaminianos sobre a alegoria e a sua relação, tanto com a linguagem, como com a crítica, já que a alegoria é também um “processo” e um conceito operatório para pensar a literatura e, essencialmente, no caso benjaminiano, a literatura contemporânea. (A inclusão dessa referência fundamental teria, seguramente, enriquecido o texto).
Recomensa-se vivamente esta obra, que prima essencialmente pelo seu rigor, pertinência e honestidade intelectual. Como o autor salienta, os dias de hoje, mais do que nunca, proporcionam uma ocasião para repensar o “objecto literário” em toda a sua extensão.

Nota sobre o autor:
Manuel Frias Martins é professor da Faculdade de Letras de Lisboa, doutorado em Teoria da Literatura e tem trabalhos publicados, na sua área de especialização, em livros e revistas nacionais e estrangeiros. É autor de ensaios como Sombras e Transparências da Literatura, 1983, Herberto Helder – um Silêncio de Bronze, 1983, 10 anos de poesia em Portugal: 1974-1984 – Leitura de uma década, 1986, Matéria Negra. Uma Teoria da Literatura e da Crítica Literária, 1993, com o qual recebeu o Prémio PEN Clube de Ensaio, As Trevas Inocentes, 2001. Traduziu e prefaciou as seguintes obras: L’Allegro e Il Penseroso, de John Milton, O Cânone Ocidental, de Harold Bloom.

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