A capa desta edição da STORM mostra uma imagem de uma das encenações de Pina Bausch, uma das mais talentosas e originais "performers" do nosso tempo.1940 Nasceu a 27 Julho 1940, em Solingen/Alemanha. Dirige o Wuppertal Tanztheater.
“Amigos, Romanos, cidadãos, emprestem-nos os vossos ouvidos;
Estou aqui para enterrar o nobre César e não para lhe tecer elogios.
O mal que muitos fazem, sobrevive,
O bem, vai com eles para a cova”
(tradução livre, Acto III, Cena II , 79-82 - “Júlio César” de Shakespeare)
Em momentos de crise social e política – como é o caso - é sempre bom recorrer a Shakespeare e o célebre discurso aos romanos, proferido por Marco António, logo após o assassinato de César é um exemplo perfeito de ambiguidade, manipulação e retórica oportunista. A versão cinematográfica, com um Marlon Brando a exibir abdominais de aço, ombros possantes, braços de ferro e pernas bem torneadas (atributos que iria perder rapidamente, hélas!) acrescentou algo de poderoso ao já suficientemente perverso e absolutamente “político” texto de Shakespeare. Mas o que é que esse discurso, proferido no alto de uma escadaria monumental para o “povo”, ou seja, a “massa informe” e imprevisível, nos poderá ensinar, neste momento, num país entregue aos seus fantasmas e sem forças para levantar um dedo? De que forma a leitura, o teatro, o exercício do pensamento, a actividade cultural em suma, pode contribuir para sair do pântano em que estamos mergulhados, numa nação que aparece cada vez mais corrupta e débil e em que a CULTURA é filha enjeitada, desprezada e ignorada? Como fazer perceber que a política – perdão, os políticos – não serve(m) para nada ( a não ser num estado totalitário, evidentemente) se os cidadãos continuarem ignorantes, desinteressados, mal informados, manipuláveis. E não venham os políticos chorar para a frente das câmaras, queixando-se que “nada conseguem fazer”, esconder-se nos gabinetes não vá o diabo tecê-las ou armar-se em arruaceiros quando estão falhos de argumentos. A História não perdoa.
A figura de César é interessante, no contexto actual. Passe a comparação porque não há nenhum César entre nós. Mas, tal como em Roma Imperial, a nossa sociedade já se encontra há muito em franca decadência, embora arrogantemente se proclame como “europeia” ( nem em sonhos!) e pretensamente “civilizada”.
É que, em primeiro lugar César, embora todo poderoso, divino e inatingível, (bem guardado pelas forças de segurança!) foi assassinado de uma forma muito simples, praticamente “em directo”. Se fosse hoje, a comunicação social enviaria seguramente quilómetros de cabos eléctricos, dezenas de câmaras, gruas e guindastes, para o momento: “...e agora, senhoras e senhores directamente de Roma... o nosso correspondente ...possui dados sobre... o verdadeiro, único, jamais visto, assassínio hediondo, pérfido, etc. e tal. Aconselhamos cautela às mentes mais impressionáveis.”
Segundo, porque tudo isso foi possível numa época de confusão de valores, de “alienação”. César, o governante absoluto, apesar de todos os avisos, ( da mulher - era mulher, não valia a pena dar-lhe ouvidos; dos oráculos – quem é que sendo tão sofisticado daria importância a tal parvoíce?, dos amigos – quais seriam os seus verdadeiros amigos, naquela altura do campeonato?) acredita que está a salvo, que é invencível e, pior ainda que, no fundo, todos o amam. Ora, todos sabemos que ninguém AMA verdadeiramente alguém poderoso e que o domínio sobre os outros é algo muito delicado que comporta um preço elevado.
Onde se coloca César? Shakespeare, apesar de intitular a peça “The Tragedy of Julius Caeser”, não a faz revolver em torno da sua figura. (César é assassinado a meio – Acto III, Cena i). Será que, inteligentemente, Shakespeare faz deslocar o centro para Brutus? Brutus que não invejava César, mas temia as consequências da concentração de um poder absoluto nas mãos e na cabeça de um só homem? Parece que sim e Harold Bloom, não se coíbe em elogiar aquele a que chama “o primeiro intelectual” de Shakespeare, com todas as complexidades de uma natureza multifacetada. Quanto a Cassius, ele é um verdadeiro puritano, que se ressentia de tudo o que não estivesse de acordo com suas ideias relacionadas com a pureza original do espírito romano. (César diz que ele é demasiado magro, lê muito, é um grande observador, o seu sorriso é forçado e desdenhoso e, se fosse mais gordo, seria menos perigoso.
“ Let me have men about me that are fat,
Sleek-headed men, and such as sleep a-nights.
Yond Cassius has a lean and hungry look;
He thinks too much, such men are dangerous"
« Acto I. Cena II 188-191»
Mas adiante: toda a gente, ou quase toda, sabe a história: o invencível César – tão bom soldado como hábil político, uma figura de grande carisma - passa a ser o “perigoso César”, cego pela arrogância, crivado de golpes pelos seus grandes amigos.
Brutus era como um filho para César (embora o herdeiro político fosse o sobrinho Octavius que Plutarco insinua ser realmente filho natural de César), o triste Brutus, o Estóico, tão trágico e patético como Judas, que se justifica perante os cidadãos de Roma, que “tinha de ser assim”, que “não havia outra hipótese”, que “era preciso sacrificar um homem em prol da comunidade”, que “era melhor cortar o mal pela raiz”, que “César estava a ir longe demais”... O que justificava “matar o pai” para que os filhos pudessem assumir o seu lugar, etc., etc. (Freud estava a milhões de anos luz mas o velho bardo de Stratford já andava metido nestas histórias edipianas). Foi isto que Brutus veio dizer a público e toda a gente lhe deu razão, como nos comícios. E estava ele a esfregar as mãos e a pensar que o poder lhe pertencia, (o que lhe apaziguava estranhamente os remorsos), quando apareceu o machão do Marco António que gostava de mulheres, copos, batalhas e outras actividades, consideradas muito apropriadas para um cidadão da sua condição mas pouco dignas de um governante. Apesar disso o povo gostava do seu ar de rufia, das suas estroinices. Chegou e, com toda a esperteza deu a volta ao texto e estragou o arranjinho de Brutus e do resto do pessoal da pesada.
Brando, ( lá está, a sua figura referencial!) aparece naquele magnífico cenário de Hollywood, com o corpo ensanguentado de César nos braços, a cabeça levantada, prontinha para receber a coroa de louros, um olhar firme e contrito e aquela boca de lábios cheiíssimos, sensuais e cruéis. E, com o seu discurso, hipócrita até mais não (que parece mostrar quão fácil é lidar com a estupidez, fragilidade e emotividade das multidões!) deu cabo da argumentação de Brutus. E seguiu caminho: para ser senhor do mundo e da Cleópatra que gostava mais dele que sei lá... (MULHERES!!!!! )
Claro que a história não acaba aqui. Nunca acaba.
Tudo correu bem até que lhe apareceu um mais esperto pela frente que o casou com a irmã e lhe "fez a cama". Mas o que fez o pérfido Octávio Augusto – uma figura grandiosa, tanto nesta peça como em “António e Cleópatra” - ficará para outra ocasião.
H.V.
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