Ando a traçar árvores de Natal, pelas paredes da casa e em cada verde a minha memória acende a imagem de um menino com 10 anos que pesava 9 quilos. Em cada bola colorida os olhos do mesmo menino cintilam perto do fim e quando vou às prateleiras das lojas, apalpar um brinquedo para adicionar aos outros mil que saltam nos dedos dos meus filhos, lá está, outra vez, o menino e muitos outros meninos iguais a ele e o pavor das mãos aflitas das mães, no desejo já enfermo de os aquecerem. Vi- os todos na televisão: mães e filhos e frio e fome.
Então, eu que entro em euforia e rubor em todos os Natais, este ano não tenho grande acção; não brilho ao som pálido das luzes; não tenho força para bater palmas; o ritmo das melodias, quebra-se-me ao primeiro aplauso e eu não sei onde sustentar alegremente a doce ilusão dum calor real que habite lá, longe, muito longe e perto, onde a humanidade se degrada na ferocidade de um mundo todo errado.
E não me apetece abrir a carteira, comprar o décimo par de calças (que cor!!! eles já têm vermelhas, verde não diz com as samarras, ganga têm muitas. Azuis também... Que cor??) e outra vez não me apetece abrir a carteira, atacam-me as dores de cabeça, quase intuitivas, aperto os dentes, com força, com muita força, regresso a casa sem sacos para esconder até à noite mágica, que eu tanto vivi na infância, quando entrava em colapso ao lado de um sapato cheio de bonecas embrulhadas em papéis já na altura (foi há tantos anos!) bem bonitos; telefones plásticos de estilo muito avançado; casacos quentes e saias plissadas que me deixavam à mostra as pernas gordas; gorros de lã, feitos ao serão, às escondidas, pelas mãos da minha mãe e mais muitas coisas que de tantas se me apagaram na memória.
Mas este ano, o que não consigo afastar de mim é aquela imagem do menino que não estava nas palhinhas. O outro. Um que certamente não vai entrar nas orações enigmáticas da missa do galo.
E tenho a certeza que só assim, com palavras, sem o habitual excesso de prendas, os meus filhos vão, mais tarde, lembrar este Natal.
( É claro que a minha garagem está apinhada de embrulhos)
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