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"Meia-Noite ou O Princípio do Mundo" de Richard Zimler

Por Adelto Gonçalves

 

Quem gostou de O Último Cabalista de Lisboa, romance histórico do escritor norte-americano Richard Zimler, não pode deixar de ler Meia-Noite ou O Princípio do Mundo, uma espécie de continuação do livro.

Novo livro de Zimler é um libelo contra a intolerância

Quem gostou de O Último Cabalista de Lisboa, romance histórico do escritor norte-americano Richard Zimler, não pode deixar de ler Meia-Noite ou O Princípio do Mundo, uma espécie de continuação do livro. Como se sabe, O Último Cabalista de Lisboa é uma obra de ficção, embora baseada em fatos reais, localizada nos primeiros anos do século XVI, quando reinava em Portugal dom Manuel I, mais precisamente em abril de 1506, durante as celebrações da Páscoa, quando cerca de dois mil cristãos-novos, os judeus forçados à conversão ao cristianismo em 1497, perderam a vida em motins ou tiveram seus corpos atirados a fogueiras no Rossio.
Os principais personagens pertencem a uma família de cristãos-novos residentes no bairro da Alfama, que, naturalmente, continuaram em segredo a recitar suas orações hebraicas e a praticar seus rituais, sobretudo os do Shabbat e das festas judaicas. O seu patriarca, Abraão Zarco, membro de uma célebre escola cabalista de Lisboa, é um iluminador, ou seja, alguém que faz iluminuras e ornamentos em manuscritos.

Em Meia-Noite ou O Princípio do Mundo, o autor avança três séculos, cria o personagem John Zarco Stewart, descendente do primeiro Zarco, filho de uma judia portuguesa e de um escocês, nascido no Porto, para construir uma história que une três continentes: Europa, África e América.

Herdeiro de uma fé amortalhada em três séculos de secretismo, John Zarco Stewart vive uma infância feliz na cidade do Porto naqueles anos que antecedem a invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão, ao lado de seu amigo Daniel, em meio ao mercado de aves junto ao Convento de S.Bento. Até que descobre pelas palavras de um pregador odioso que era um marrano e começa a sentir medo de que a Inquisição seja restabelecida.

O mundo muda para John Zarco quando o pai retorna de uma viagem à África e traz consigo um africano de metro e meio de altura, Meia-Noite, curandeiro e antigo escravo, o homem que se tornará o seu maior amigo e determinará o curso de seu destino. Quando as tropas francesas invadem Portugal e a violência rompe a frágil paz de John Zarco, é Meia-Noite, com seu misticismo, quem o ajuda a passar para a vida adulta.

Um fato pouco explicado, porém, faz com que o pai de John Zarco viaje repentinamente com Meia-Noite e o venda como escravo, vingando-se porque o africano teria mantido relações sexuais com sua esposa, aproveitando-se de suas ausências. A partir de então, a vida de John Zarco torna-se uma caminhada até o reencontro com Meia-Noite, o que se dá, muitos anos depois, na América.

A exemplo de O Último Cabalista de Lisboa, o novo livro de Zimler deve ser lido também como uma denúncia dos tempos de opressão que vive o mundo hoje. Quando saiu O Último Cabalista de Lisboa, Zimler previu com acerto que haveria uma nova guerra do Iraque só para que a popularidade do presidente norte-americano subisse. Antes da ascensão de Bush, ele já denunciava que setores absolutamente fascistas assumiam fatias cada vez maiores do poder em seu país. Para Zimler, os sinais de xenofobia e intolerância são latentes na vida norte-americana e, pior, crescem todos os dias. Por isso, ele preferiu reconstruir sua vida no Porto, hoje tema maior de sua inspiração.

Zimler não concorda com as posições neofacistas do governo de Israel nem com aqueles que, nos Estados Unidos, acham que o aborto deveria ser ilegal em todos os casos, que as mães solteiras constituem uma ameaça aos valores americanos, que os afro-americanos são intelectualmente inferiores e que os gays e lésbicas são uma abominação à natureza. Por isso, Meia-Noite ou O Princípio do Mundo surge como um libelo contra a intolerância, um chamado à união entre os povos da Europa, da África e da América para a reconstrução de um mundo melhor.

Para escrever Meia-Noite ou O Princípio do Mundo, Zimler teve que ler muitos livros a fim de penetrar e, depois, recriar o mundo do Oitocentos em Portugal e na América – obras sobre roupas, comportamento, etiqueta, comidas, lendas, filosofia, sexualidade, cabala e muitos outros assuntos. Evitou, porém, escrever um pastiche que imitasse a linguagem de época. E o fez muito bem, até porque essas imitações são artificiais e pouco convincentes, além de serem entediantes e só servirem para afastar o leitor e criar um fosso entre ele e a história.

Com a boa tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa, atentamente acompanhada pelo autor, Meia-Noite ou O Princípio do Mundo é um livro raro que expõe a imaginação prodigiosa de Zimler para a reconstituição histórica – desde os coloridos mercados de pássaros exóticos do Porto até as plantações da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, em que autor presta um claro tributo a William Faulkner, especialmente quando coloca Morri, a filha de Meia-Noite, a dar o seu depoimento.

Richard Zimler, 47 anos, judeu de Nova York, vive em Portugal desde 1990. Naturalizado português em 2002, é jornalista, professor da Escola Superior de Jornalismo do Porto e, desde 1996, quando saiu a edição portuguesa de O Ultimo Cabalista de Lisboa, pela Quetzal Editores, um romancista consagrado. Além de Portugal e Brasil, o livro foi publicado em onze países, incluindo Alemanha, França, Itália, Reinio Unido, Estados Unidos, Espanha e Nova Zelândia.

Bacharel em Religiões Comparadas e Música pela Universidade de Duke e mestre em Jornalismo pela Universidade de Stanford, Zimler foi correspondente da United Press em Paris e escreveu mais dois romances: Unholy Ghosts, que saiu em 1997 nos Estados Unidos e na Inglaterra, e The Angelic Darkness, publicado em Portugal e no Brasil com o título Trevas de Luz.

Como contista, Zimler recebeu três prêmios por seus trabalhos publicados em revistas norte-americanas e inglesas. Em 1994, foi o único norte-americano residente fora do país a receber o prestigiado National Endowment for the Arts Fellowship na área de Literatura. É também tradutor para o inglês de escritores e poetas portugueses, como Miguel Torga, Al Berto, Nuno Júdice, Pedro Tamen, Antônio Botto e Clara Pinto Correia, e do angolano Pepetela. Escreve sobre literatura para o San Francisco Chronicle, Los Angles Times e para a revista Os Meus Livros, de Lisboa..



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MEIA-NOITE OU O PRINCÍPIO DO MUNDO, de Richard Zimler. Lisboa, Editora Gótica, 540 págs., 2003. E-mail: gotica@kqnet.pt

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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – O Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).

E-mail: marilizadelto@uol.com.br


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