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A Experiência da Cidade - LONDRES - 4 Perfis

Por Lúcia Marques

 

Fotografia de Diego FerrariQuantas cidades cabem dentro de Londres? Pela minha experiência há pelo menos 5: a minha e a de mais quatro pessoas que me levaram a conhecer outros caminhos que não os que eu teria trilhado sozinha. E, como numa relação amorosa, a cidade é também o que se encontra de mais inesperado e “atípico”, a sua imagem (também discursiva) é flutuante.

Por isso interessei-me pela visão de quem também flutua pela cidade mas não por razões turísticas ou como um empresário de negócios. Mais do que a deslocação fortuita a um lugar, procurei a imagem da cidade para quem nela vive, trabalha, projecta. Cativou-me uma imagem a partir de dentro, mas em condições muito especiais…

Assim surgiu a ideia de entrevistar a artista-curadora , o pintor , o fotógrafo e o curador , tomando a entrevista no sentido de quem entrevê, de quem observa “por entre”, pois quisémos ver Londres através das (imagens das) palavras.

As entre-vistas resultam de conversas por email onde apenas a primeira pergunta é comum aos quatro perfis. Parte-se de uma mesma cidade para descobrir outras tantas…

Como não viajar?!


Nota: Os textos têm o suporte de notas biliográficas e links importantes.

PAULA ROUSH - artista-curadora
LUCIA MARQUES: Porquê Londres?


A EXPERIÊNCIA DA CIDADE - LONDRES (4 PERFIS)
Mediação: Lúcia Marques
Paula Roush, artista-curadora - Londres

LM: Porquê Londres?

PAULA ROUSH (PR): Eu acredito que o verdadeiro propósito da nossa vida é procurar a felicidade. Quer vivamos nesta cidade ou naquela, todos nós procuramos ser felizes no lugar onde moramos, todos nós procuramos estar bem connosco e com os outros que vemos no dia a dia... Por isso penso que a resposta é: Londres, porque sou feliz aqui. Não quer dizer que não pudesse ser feliz noutra cidade ou mesmo numa povoação rural, mas posso garantir que aqui me sinto verdadeiramente feliz.
Para além deste sentimento de felicidade, também bastante importante para compreender a questão da escolha de Londres é a noção de des-localização. E isto é bastante paradoxal. Se por um lado uma cidade global como Londres funciona como uma nova cidadela, onde poder e capital estão centralizados, onde pessoas de todo o mundo ocorrem para participar nessa fantástica "network" de mercado - seja o mercado de bolsa ou o mercado cultural e artístico -, a subjectividade do sujeito contemporâneo está cada vez mais desmaterialisada e "impermanente".
Por exemplo, o meu trabalho desenrola-se tanto em Londres como internacionalmente e nesse sentido torna-se talvez irrelevante o facto de eu estar sediada em Londres. Esta é uma das vantagens do "trabalho imaterial" (como o definiria Antonio Negri), visto que sem estar agarrado a uma base fixa de produção, pode circular através da internet, e num momento estar a ser produzido em Londres e num momento posterior estar a ser distribuído na Islândia ou no Rio de Janeiro. Contudo, o "trabalho imaterial" também tem aspectos problemáticos, o que o aproxima de outras formas de produção no sentido em que está a ser constantemente apropriado e explorado pelo sistema capitalista, o mesmo sistema que permite que eu, mulher europeia branca, possa escolher viver num país que não é aquele onde nasci mas que, simultâneamente, restringe esse direito a outros trabalhadores, impondo barreiras que fazem com que ainda muitos morram ou sejam emprisionados como resultado dessa tentativa de buscar felicidade numa cidade como Londres.

LM: Então de que modo é que uma cidade tão global como Londres condiciona o teu trabalho como artista e curadora? Ou achas que o poderias fazer em qualquer outra plataforma urbana?

PR: O global em Londres traduz-se, numa primeira instância, num aspecto muito visível que é a sua dimensão física e a relação com uma cidade tão grande e necessariamente mediada por uma série de utensílios, como mapas e outros sistemas de posicionamento. Desde os mais analógicos como o tradicional London A-Z, onde as ruas da cidade estão indexadas por ordem alfabética, e que podes transportar no teu bolso, até tecnologias de localização remota que te permitem uilizar gps (global positioning system) e a rede de internet, e que são muito mais rizomáticas, para planear a tua viagem, até antes de saíres de casa (como é exemplo o sistema recentemente desenvolvido pela Câmara de Londres). Estas hibridizações do local com o global são exemplos de modos de relacionamento com a cidade, que fazem parte do nosso dia-a-dia aqui, e que me levaram a estar definitivamente muito mais consciente da centralidade da mediação cartográfica - desde os mapas mentais até aos mapas maquínicos - na relação da pessoa com o espaço, nomeadamente o espaco urbano.
O encontro com outros artistas que também usam cartografias nos seus trabalhos foi outra influência, visto que a herança situacionista e das ideias de "derive" ou "drift", assim como da procura de sistemas mais pessoais e mesmo irracionais de mapear a cidade por oposição à racionalidade tecnocrática, é muito forte em Londres e no Reino Unido.
Na minha prática artística há sempre uma relação com o território, até porque a questão da localização é central para as práticas artísticas contemporâneas, a qual poderias traduzir - em termos deleuzianos - como uma indagação acerca da des-territorialização e re-territorialização enquanto formas de pensamento e de produção.
É claro que dentro da história da produção artística se podem já constatar diferentes etapas em que esta preocupação tem revelado ênfases diversos. Nesse aspecto, penso que a questão da site-specificity - e a tendência do artista para questionar o local de produção sob diversos ângulos - económico, político, discursivo -, é neste momento alargada, expandida, com a adição de práticas artísticas mais nómadas, baseadas em intervenções tácticas e numa tentativa de infiltrar a própria lógica de mercado que é trans-territorial. A direcção de pesquisa mais interessante para mim é sempre aquela que explora estas linhas de fuga, portanto nos meus projectos existe sempre uma dupla vertente de atenção ao território, mas esta localização contém em si o vírus nómada.

LM: É nesse sentido que os teus projectos mais recentes têm incluído uma estratégia de out-sourcing?

Outsourcing foi, especificamente, um projecto que desenvolvi para o Institute of International Visual Arts (inIVA) em Londres e em que me interessou criar um espaço de reflexão sobre métodos de produção contemporâneos e relações entre práticas artísticas, curatoriais e activistas, assim como a relação entre corporatizacao dos espaços públicos e práticas quotidianas de resistência civil. Investi os honorários de produção da exposição em especialistas de diferentes disciplinas, cujas contribuições consistiram em micro-projectos, explorando os processos de produção a diferentes escalas, desde a muito local - relativa à própria área onde a galeria está localizada - até à escala mais global, relativa aos circuitos de produção e corporatização internacional.
Voltando à distinção referida anteriormente entre produção material e imaterial, os meus colaboradores - artistas, programadores, activistas, comissários - forneceram variadas entradas para um discurso acerca da produção de conhecimento, produção audio-visual, produção de espaço e produção de dados, assim como tácticas de contra-produção e resistência. Por exemplo, o arquivo audio-visual, mostrava uma colecção de textos e filmes sobre a história da produção e a produção de história, e um projecto virtual mapeava a relação entre as 100 marcas globais - que também são os maiores sponsors culturais - e o número de boicotes organizados contra estas. Outro dos projectos usava como ponto de partida o Geffrye Museum, um museu local dedicado ao design de interiores e que serviu como um dos eixos em torno dos quais questões de raça, arquivo, coleccionismo, colonialismo e utopias de design modernista puderam ser discutidas.
Nesse sentido out/sourcing pode ser estudado a vários níveis. Por um lado, enquanto método de produção artística, o termo remetendo para um método de trabalhar “sourcing” (extraíndo) da realidade política e cultural exterior à galeria; e por outro, referia-se à contaminação de modos de trabalho e à adopção de métodos de outsourcing - semelhantes aos da produção material, mas agora no domínio da produção de pensamento contemporâneo, observando-se uma tendência nas indústrias culturais muito semelhante àquela que encontramos nas corporações transnacionais que se estão a esvaziar, levando a produção para fora das suas instalações e consequente fragilização do estatuto trabalhadores culturais/intelectuais .
Para além do projecto out/sourcing propriamente dito, poder-se-á dizer que utilizo métodos de outsourcing frequentemente no meu trabalho e isso precisamente porque me permite trabalhar em comissões (encomendas) que são transdisciplinares e simultaneamente explorar formas de produção artística que me parecem adequadas às situações contemporâneas. A figura do artista a trabalhar isolado no estúdio, na criação de uma peça única parece-me neste momento bastante mitológica e em nada relacionada com a minha formação que nunca foi a de uma academia de arte. É muito mais fácil para mim pensar no laptop ou mesmo na cidade como os meus estúdios e nos meus colaboradores como os primeiros interlocutores numa conversa que se vai alargando à medida que os projectos se vão completando.

LM: E para fechar precisamente nessa ideia de cidade, diz-me muito sumariamente se achas que em Lisboa poderias desenvolver essa mesma estratégia radial, considerando também o que irás apresentar na Gulbenkian...

Reflexões críticas sobre as cidades e as identidades contemporâneas, particularmente no eixo euro-americano, tendem a ressaltar o modo como todas elas se estão rapidamente a transformar em ‘décors’ ou ambientes temáticos, em que tanto os museus como os centros comerciais e os átrios das multinacionais partilham da presença de arte, segurança e entretenimento. O que eu vou apresentar na exposição “Meeting Point” é precisamente o arquivo de uma instalação performativa que apresentei em Londres no contexto de um mega-projecto de arte pública - daquele tipo que se tornou um formato tão popular internacionalmente… Para a ocasião, criei uma agência de segurança fictícia com agentes fardadas e treinadas para vigiarem marcos da história feminista radical da área, numa espécie de guia para turistas do dia–a-dia, adoptando a rotina de trabalho da Tate Modern à das ruas de Londres. O interesse em relação à Gulbenkian e a outras instituições artísticas é a visível presença dos mesmos guardas que agora se vêm por toda a Lisboa, com uniformes SOV a exercerem controlos precisos na nossa relação com o ambiente e os trabalhos artísticos. A presença dos meus uniformes e vestigios da perfomance de trabalho é acompanhada por instruções precisas dirigidas aos guardas da Gulbenkian, o que poderá levantar questões acerca da natureza do trabalho e do não-trabalho, e estabelecer elos entre modelos paralelos de produção do espaço.
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[LINKS]
- Ainda em exposição: "ponto de encontro - meeting point(s)", Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

MAIS PROJECTOS EM:
micro-radio project for radio broadcast project “radio!radio!”, The Trade Apartment, London
http://www.low-fi.org.uk/radioradio.org.uk/
- “perfectly placed”, The South London Gallery
http://www.southlondongallery.org/docs/exh/exhibition.jsp?id=100&view=future- “sos:ok”, a solo project Space( in collaboration with the students from the Birkbeck Colege) at The Coleman Project
http://www.msdm.org.uk/coleman.html

msdm - The curators of El sueño colectivo and artist Paula Roush in conversation at INIVA, 12 November, 2002
http://www.iniva.org/season/soft/article_df04

PUBLICAÇÕES:
paula roush (2004) ‘Proposition to occupy: para-architectural strategies as nomadic space production in the european terrain vague’, artist’s project for the catalogue on the conference curated by
Gregor Podnarand Natasa Petresin.
-“Public vs Private”, Kunsthalle Fridericianum/Kassel, republicart/Vienna
http://www.galerija.skuc-drustvo.si/2004/conference/

paula roush (2004) ‘Scared of reality? Simulation Exercise as a Performative Act.’, text for the book ‘Occasions” published by curatorial group B+B on the occasion of the exhibition “Trading Places”, Pump House Gallery London
http://welcome.to/b.b

bibliography
Hattie Spires (2004) Space and the Fold of Hybrid Topologies: Can the Deleuzian concept of the Fold aid an investigation of the boundaries of physical space, their transformations and implications?, Goldsmiths College Research published in may
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BRUNO PACHECO no seu Atelier, Londres

LM: Porquê Londres?

BRUNO PACHECO (BP): Bem, a razão que me trouxe para Londres foi ir estudar para o Goldsmiths. Era o único curso de artes plásticas que não fazia distinções entre escultura, pintura, etc. Todos os outros "colleges" estavam divididos em departamentos, aquelas tretas..., hoje em dia continua a ser assim na maioria dos cursos de artes plásticas (como é que é nas Belas-Artes hoje em dia?) ... Berlim ainda era uma promessa nessa altura, à parte da minha infeliz impossibilidade de perceber o dialecto local. Paris estava fora de hipótese por muitas razões que não se depreendem em nada do calor humano e hospitalidade com que os franceses são conhecidos ao receberem os forasteiros. Londres era a opção: conhecia a língua e a combinação dos meus estudos de "método francês", aliados a uma formação inglesa, seriam um bom complemento. Aliás esta decisão foi tomada pouco depois da notícia, da grande notícia, que França e Inglaterra, estavam unidas fisicamente pelo maravilhoso túnel do Canal da Mancha. Isto foi sem dúvida um sinal positivo, que me traquilizou na minha futura integração numa cultura anglo-saxónica. Depois de acabar o curso, como sou preguiçoso, a ideia de ter que mudar de atelier, mais enviar a tralha toda de volta para uma outra cidade estava fora de questão, "granda trabalheira"! Imagina enviar as minhas chávenas de Limoges "across europe"... de certeza que alguma se iria partir! Mudar "jammais"!...

LM: Como foi a tua integração na cidade quando chegaste?... Sentiste muitas diferenças relativamente a Lisboa?

BP: A integração foi boa, sair de lisboa de certa forma foi um alívio naquela altura. E claro que não teve o espírito aventureiro e romântico de ir defender a honra de uma dama portuguesa nas terras de sua majestade, como os tão famosos onze ou doze de inglaterra ( whatever the number was!)... É pena nao ter havido um duelo com toda solenidade que se deve dar a um evento desta importância... Dessa forma a integração foi ligeiramente burocrática e com toda a "politicaly correcteness" que se espera nos tempos que correm.
É claro que nestas situações a integração é normalmente fácil porque se está inserido numa instituição and there is a battaillon of people willing to help you.. e maior parte das pessoas estão na mesmas condições que tu. É óbvio que nao se pode começar a ser saudosista em relação à bica com pastelinho de nata...
A segunda parte da integração é quando acabas os estudos e queres ficar a viver - por estranho que pareça! - nessa mesma cidade. Aí é que se vê na realidade se todo o teu círculo de relações que criaste até então era real ou se apenas se tratava de uma aspirina para apaziguar as inquietações do espírito provocadas pela grande metrópole. No meu caso foi positivo, Thank God, mas isso nem sempre acontece e nesse caso You are Fucked.

LM: E em que é que Londres, enquanto cidade com uma identidade própria, p.e., em termos de oferta cultural, influenciou o teu trabalho como pintor? Achas que o teu trabalho reflecte visivelmente a cidade onde tem vindo a ser desenvolvido?


BP: Bem essa é daquelas perguntas tipo viagem de circumnavegação: tem por fim partir de um ponto para chegar a esse mesmo ponto, enfim... Mas o que interessa é ir a olhar pela janela durante a viagem. Na minha condição de "exílio voluntário", -... nada a ver com as pessoas que tiveram a lutar pela liberdade dos outros.... - é óbvio que a cidade me influencia. A nível pessoal não se consegue ser indiferente em relação ao que se passa à tua volta, mesmo quando se tenta arduamente. Agora se isso influencia directamente o meu trabalho de uma forma directa... não sei, e também não sei se quero saber. É claro que o contacto diário com o trabalho de outros artistas, vivos ou mortos , influencia-te , .. principalmente os mortos ... , porque isso passa a ser, em parte, uma das muitas realidades que tu constróis constantemente.
Agora, voltando ao princípio, é claro que eu sou influenciado, mas essa influência, não vem só da minha experiência e interacção com a cidade mas também da reacção que isso cria com toda uma 'identidade' criada à priori, que constantemente se confronta com um novo universo de coisas, e que me obriga a redefinir essa mesma realidade constantemente. Julgo que, de uma forma superficial, o meu trabalho não evidencia esses aspectos, mas creio que este conflito de realidades ou interesses é evocado nos meus trabalhos. Mas isso tanto aconteria em Lisboa como em qualquer parte do mundo. Eu não tenho qualquer interesse em fazer um trabalho que faça comentários ou tenha um discurso retórico ou moral em relação a uma determinada coisa. Isso é a forma mais chata e imbecil de se fazer algo.

LM: Procurava saber se o que torna Londres uma cidade única relativamente a outras cidades - nomeadamente europeias - foi a razão que te levou a ficar por aí, e se a sua especificidade urbana é trazida para o teu trabalho. Mas se me dizes que é indiferente... fala-me então do que realmente interessa no teu trabalho, começando pelo facto de te assumires como pintor quando recorres a outras técnicas e práticas artísticas, como o vídeo...

BP: Eu não disse que era indiferente, o que eu disse é que todos os locais te influenciam de uma determinada forma. Agora essa influência não tem que se traduzir de uma forma literal num trabalho.
Agora passando ao facto de eu me assumir como pintor, bem eu assumo-me como o Bruno, nalguns casos Bruno Pacheco, agora há momentos em que tens dizer ou assumir aquilo que fazes para a uma determinada audiência, nesse caso o menos mal é ser pintor. De facto a minha práctica desenvolve-se sobretudo em torno da pintura. Os trabalho artísticos que mais me interessam são na maioria dos casos pintura. Agora isso não quer dizer que eu faça da pintura um fetiche. Interessa-me questionar determinadas formas e processos de representação. A pintura é base, agora muitas vezes faço uso do vídeo ou da fotografia, muitas vezes para evidenciar aspectos da pintura ou de algumas ideias sugeridas pelo processo de pensar a pintura.
O que acontece na maioria dos casos é que na pintura pode se potencializar ou evidenciar determinados aspectos de uma coisa, o vídeo ou a fotografia potencializam outros. Nomeadamente no vídeo, o acto performativo é um aspecto que me interessa bastante. Documenta-se e descreve-se a si próprio simultaneamente, às vezes como um desenho.
Noutras situações, trabalhares com materiais diferentes daqueles com que trabalhas usualmente pode-se tornar bastante interessante, não só porque te dá acesso a novo vocabulário como também te faz repensar nos outros meios que tu usas na tua prática continuamente.

LM: E quais as tuas expectativas relativamente a antigas capitais culturais como Lisboa, Porto e Coimbra? Isto pensando numa possível rede de difusão portuguesa do trabalho que te encontras a desenvolver em Londres...

BP: Bem se considerarmos a "Expectativa" como uma desilusão, uma vez que desilusão implica uma ilusão à priori... Nesse aspecto é bom: passa-se a poder ter várias desilusões, bem mais gratificante do que uma só. Mas essa desilusão tanto se aplica aqui em Londres como em Berlim, Lisboa ou qualquer parte do mundo.
Passando à realidade portuguesa, é claro que tenho todo o interesse em desenvolver ou difundir o meu trabalho em Portugal. Para mim é bastante importante que o meu trabalho seja visto nesses locais. Mas Portugal não é um país que me seja indiferente, tratam-se de coisas emocionais, que é bastante difícil de descrever... tu queres que as coisas façam sentido nesse local. Eu não vivo em Portugal há já alguns anos, mas isso não faz com que eu esteja divorciado da sociedade portuguesa. Pelo contrário, cada vez mais percebo o que é que me torna diferente.

LM: Por acaso referia-me mesmo a uma projecção num futuro próximo, pensando até, por exemplo, na chamada de atenção que o Miguel Wandschneider fez recentemente relativamente ao teu trabalho, incluindo-te nas apresentações do "Slow Motion" na Fundação Calouste Gulbenkian...

BP: Sim, o "Slow Motion"... Bem, por engraçado que pareça, o meu trabalho em vídeo tem tido muito mais visiblidade que o meu trabalho em pintura... curioso. Mas em Maio vais poder ver o meu trabalho em pintura na [Galeria] "Lisboa 20"...
...Passando ao "Slow Montion", isso foi um projecto ímpar em Portugal, ou mesmo em qualquer país "civilizado". Vai contra todas as regras de economia de meios (no sentido mais abrangente que possa ter) com que o "art World" tão ilustremente se rege . Realmente foi um prazer participar nesse projecto, tenho pena de não o ter podido acompanhar mais de perto, mas as distâncias não o permitiram. Trabalhar com o Miguel foi óptimo, mas estas coisas levam tempo, o Miguel convidou-me para o projecto para aí em final de 1999, um ano depois de eu ter apresentado uma vídeo-instalação na Módulo. Mas foi interessante porque durante os dois anos e meio que passaram entre o convite e a actual exposição, nós tivemos sempre um contacto muito próximo. Ele teve possiblidade de ver o trabalho desenvolver, tomar consciência do que eu estava realmente a fazer, como eu também de ir acompanhando o projecto de perto sempre que podia. De certa forma esse projecto criou ou potencializou uma plataforma para a discussão de um meio que até então era visto e discutido de uma forma tão pouco esclarecida. ... que ingénuo eu ... mas o que interessa é a viagem.
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[LINKS]
- Mais informações sobre a sua primeira exposição individual na “Galeria Lisboa20-Arte Contemporânea”, Lisboa (inaugura a 8 de Maio de 2004): www.lisboa20.pt


PAULO CATRICA - fotógrafo, Londres

LM: Porquê Londres?

PAULO CATRICA (PC): Fui treinado anglófilo, com a língua, os livros, e os filmes, com a música - no final dos setenta e no princípio dos oitenta. Londres é talvez a cidade mais cosmopolita da Europa, descentrada geográficamente, feia, acolhedora e fascinante. Foi a primeira escolha... outros motivos poderiam justificar ter sido Paris, não me importaria que fosse New York. Mas Londres está mais perto é mais "cosy".

LM: Quais foram as principais diferenças que encontraste
relativamente à cidade que então deixaste?

PC: Eu vivi no Sul de Londres, perto do Goldsmith's College. O final dos anos noventa foram de transição, Deptford era das zonas mais pobres, deprimidas e deprimentes do Sul de Londres. Por piada dizíamos que vivíamos perto de Greenwich, era menos mau. Hoje a coisa mudou, a cidade está mais limpa, a zona 2, de uma coroa de 6, sofreu um processo de regeneração, nem sempre bem, em termos genéricos para melhor. A Tate Modern fixou definitivamente a ideia da megacidade cultural, agora mais contemporânea e em sã coexistência com o Grande Museu do séc.XIX. Interessante é sem dúvida assistir a este conjunto de mudanças nos últimos seis anos, talvez não seja alheia a gestão municipal de Ken Livingstone ou mesmo o ar de graça dos primeiros anos de governo de Blair...?
… Hoje voltei a ter uma relação mais próxima com Londres, onde estou no mínimo uma semana por mês, por motivos familiares. Vivemos um ano no Norte e agora no Centro. Continuo sempre a viajar para conhecer partes da cidade que me chegam pelos livros ou pelos mapas. É infinita esta viagem. Parece sempre arrumada e igual, com a monocromia do tijolinho vermelho, porém se olharmos
com um pouco mais de atenção, se tivermos tempo para a olhar com um pouco mais de atenção...

LM: ...Encontramos outras cidades dentro da cidade... Achei a tua resposta tão curiosa pois eu perguntava relativamente à cidade onde vivias em Portugal...

PC: As minhas cidades vividas são Lisboa e Londres - o Porto em
"part-time". Falo em estar o tempo suficiente, mais do só reconhecer. De Londres a escala e a ideia da impossibilidade do todo, o que criou a necessidade de novos mecanismos de orientação, essenciais para o meu trabalho. Sentimo-nos parte de um pulsar constatnte. Em Lisboa navega-se á vista, tudo é ali ao fundo ou a um par de quilómetros. Depois a luz analitica de Londres, fantástica para fotografar, mas um pouco opressiva, ao invés, a imensidão da luz de Lisboa, aquela que nos predispõe bem logo
de manhã. Confesso que em Londres a minha vida foi sempre mais pausada e contínua, a cidade está e é organizada, trabalhar, estudar...a coisa vai naturalmente acontecendo. Lisboa é a imprevisibilidade, tudo pode eventualmente acontecer, ou não.

LM: Nos teus trabalhos fotográficos encontramos recorrentemente uma abordagem algo tipológica dos lugares, dos equipamentos urbanos que os caracterizam (e estou-me a lembrar, por exemplo, da série sobre os Liceus...), com uma desertificação humana que chega a causar estranheza, pois encontramos apenas marcas, sinais, da sua presença... Podemos falar no privilégio de um olhar arquitectónico na tua visão da(s) cidade(s)?

PC: Atrai-me pensar nos lugares como organismos quase vivos, emitindo sinais da sua existência e resistência ao tempo. Ou como se o mundo tivesse sido abandonado ou deixado para trás o que me permitiu a mim fotografar sem me cruzar com pessoas!
De facto a arquitectura é um dos pontos centrais de referência mas não com a justificação formal da fotografia do objecto. Aí tenho mais dúvidas do meu desempenho. Prefiro sempre pensar na ideia da coisa em contexto, seja o lugar vivido e o seu passado, vistos hoje. Gosto particularmente do modo como as cidades crescem ao sabor de decisões maiores e de acidentes menores. Umas contidas pelo traço dos seus planos urbanístiscos, onde parece que tudo faz sentido, outras, quase sempre as do Sul, caóticas, degradadas, sofridas e fantásticamente vividas. Gosto de todas, umas e outras.

LM: Essa relação contemplativa que as imagens das "tuas" cidades sugerem alterou-se significativamente nos trabalhos que mostraste recentemente em Coimbra. Em que é que essa mudança espelha a tua relação com a ideia de “Cidade”?

PC: O portfólio de Coimbra mostrado no CAV permitiu uma nova leitura para o meu trabalho, com a inclusão da côr e a produção de provas de exposição de grandes dimensões. O assunto e o modo como o entendi... interessava-me olhar a nova arquitectura de serviços e cruzar fotografias de exteriores com outras de interiores. Sempre em paisagem e contexto.
Confesso que trabalhei nas primeiras semanas com negativos gémeos, fotografei o mesmo assunto com côr e com preto & branco, e depois reavaliei a eficácia de umas e de outras fotografias face ao que eu pretendia. O preto & branco criava um discurso “out of bounds”, a forma e o desenho da arquitectura sobrepunham-se ao assunto, uma espécie de material de arquivo com pouca massa crítica, nem sequer contemplativo conseguia ser. A relação de proximidade que criei com o Miguel Amado, foi decisiva para este desenlace. Ou seja, ganhei balanço para o salto. Mais, a minha proposta para a produção das provas, que foram impressas no laboratório com que trabalho em Inglaterra, foi aceite pelo CAV.
Nos últimos anos tenho vindo a usar a côr sem a mostrar, agora senti que todo o processo tinha amadurecido, o assunto, abordagem e meios convergiam. Hoje, creio, tenho uma liberdade no modo como encaro novos trabalhos, que nos primeiros anos talvez fosse difícil de ensaiar. Precisei primeiro de criar um corpo consistente de trabalho e de afirmar um conjunto de intenções enquadradadas pelo assunto. A relação contemplativa que ensaiei e que tanto prazer me dá pode ganhar uma outra proximidade ao "real" com novas leituras ou outros mecanismos expositivos... Tenho a pretensão de continuar a olhar e a trabalhar o mesmo assunto, a "necessidade da paisagem" ou de uma imagem da paisagem!

LM: E quais as tuas perspectivas de trabalho em ambas as cidades onde vives a maior parte do teu tempo? Existem muitas diferenças entre Lisboa e Londres?...

PC: Sim, muitas diferenças.
Em Lisboa, depois de alguns anos, sinto que o meu trabalho começa a ter alguma visibilidade o que me permite ensaiar as minhas propostas com outra liberdade. Durante os últimos sete anos trabalhei muito no Norte, onde tenho tido algum reconhecimento e onde criei muitas afinidades, em particular num circuito ligado a alguns jovens arquitectos. Em Lisboa é tudo um pouco mais disperso e é dificil ter algum retorno ou proximidade. Em Londres os círculos são ainda maiores, a tarefa é ainda mais difícil. Mas Londres tem um lado reflexivo, a possibilidade de estudar, de ver, de reavaliar o trabalho, e mesmo de testar novas abordagens. É uma vida mais pausada e mais rentável em termos de trabalho. No Sul da Europa a Paisagem “per si” não é ainda assunto relevante, o que pode ser um desafio estimulante.
Estou a trabalhar num grande projecto em Lisboa, onde pela primeira e última vez, pelo menos nos tempos que correm, assino o comissariado da exposição. Terrível e fantástico. Em Londres, a coisa faz sentido, o tempo permite repensar a atitude e
permitirá, estou certo, encontrar novos meios para mostrar o trabalho..

LM: E queres desvendar um pouco desse projecto a realizar em Lisboa?...

PC: Este projecto de Lisboa é um trabalho único que não conto repetir. A ideia de fotografar paisagem e futebol surge em cada um dos portfólios que trabalhei, desde o meu projecto de tese de mestrado, depois na Série da Siemens de 1997 nas Periferias ou mesmo na Série"You are Here". Os campos e os estádios sempre me fascinaram, como locais extremamente emotivos, enquanto cenário de um jogo, ou locais com uma capacidade evocativa fantástica mesmo despidos de propósito, de jogadores ou de público. Interessou-me primeiro a ideia de ver o estádio em contexto, perceber a relação deste com a cidade, ou ainda de ver no estádio o que nunca se vê no ecrán de televisão. A coisa foi ganhando forma e pensei que outros contributos poderiam ter sentido mum projecto que tivesse como objecto de apropriação o Futebol.
Assim convidei o António Júlio Duarte e o Pedr o Letria, para em conjunto apresentarmos um projecto sobre Futebol ao Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa. Na fase de contactos exploratórios surgiu a ideia de convidar o Nuno Domingos a coordenar um equipa de investigadores das Ciências Sociais, para desenvolver um conjunto de estudos de caso sobre o Futebol. De facto o Futebol tendo uma importância disparatada em termos nacionais não se constitui em objecto de reflexão... Assim, deve inaugurar em Maio na Cordoaria Nacional o projecto que temos vindo atrabalhar nestes últimos dez meses, e que mostra um conjunto de fotografias históricas e um outro de fotografias contemporâneas tratando o Futebol na Grande Lisboa.
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[LINKS]

-Mais informações sobre a exposição “Uma Cidade de Futebol: Espaços e Emoções” em www.olissipo.weblog.com.pt e também em www.cm-lisboa.pt


MIGUEL AMADO , curador e Paulo Catrica, Londres

LM: Porquê Londres?

MIGUEL AMADO (MA): Porque esta é a única cidade do mundo onde há um mestrado em Comissariado de Exposições de Arte Contemporânea que eu gostaria de frequentar, o do Royal College of Art. Como fui admitido no curso, fui viver para lá em Outubro de 2001. A razão pela qual continuo a viver em Londres, pelo menos a maior parte do tempo, prende-se com razões pessoais e com opções profissionais. Por um lado, a Rossana, a minha mulher, está a trabalhar em Londres, como investigadora científica num dos "colleges" da Universidade de Londres, e isso leva-me a querer estar junto dela. Por outro lado, gostaria de desenvolver uma carreira internacional, e nada melhor para isso do que estar sediado num dos centros artísticos mundiais; além de que, em Londres, se mantém o espírito aberto fruto do contacto permanente com o que de melhor se produz em termos de artes visuais.

LM: E como foi a tua integração na cidade? Sentiste-te muito deslocado ou achas que é uma cidade acolhedora para um estrangeiro?

MA: A integração foi fácil na medida em que, por um lado, frequentava uma escola
e estava diariamente com os colegas de turma ou outros alunos e, por outro
lado, a Rossana foi também viver para Londres. Contudo, devo dizer que, caso
estivesse sozinho ou em contexto extra-escolar, as coisas não teriam sido
tão simples. A cidade é fascinante por tudo o que proporciona em termos
culturais (a Tate Modern e todas as outras galerias, o teatro e os
concertos, os jornais, mas também o cruzamento de pessoas das mais diversas
origens, os mercados, a comida indiana, os lugares charmosos como o Soho ou
o East End, etc...), mas a adaptação ao estilo de vida inglês é muito
difícil e, até hoje, sinto-me um tanto à margem dos hábitos e costumes
quotidianos. Além de que não suporto o almoço tipo sandes, o deitar cedo e
cedo erguer, a desinibição apenas conseguida com a cerveja, o ambiente dos
pubs, o culto da celebridade, etc, etc...

LM: E como curador (português), achas que tens hipóteses de te afirmares no meio artístico londrino?

MA: Há duas hipóteses: por um lado, desenvolver projectos, propostos por mim, para pequenos espaços expositivos; por outro lado, tentar fazer uma exposição do género “Art from Portugal” numa galeria do sector público. A primeira é a que me agrada mais, pois o desafio seria mais estimulante e menos constrangedor em termos institucionais, embora reconheça que, às vezes, é pela segunda via que este processo começa. Neste momento, há receptividade por parte de algumas entidades de Londres que já contactei, mas ainda nada definido. Vamos ver o que me reserva o futuro…

LM: Quanto a ti, quais são as principais diferenças entre o meio artístico londrino e o lisboeta nos dias de hoje?

MA: Nem sequer sei por onde começar… Mas há pelo menos três que vale a pena salientar. A primeira diferença prende-se com as escalas: em Londres tudo é maior – mais museus e galerias do sector público e comerciais, mais exposições, mais artistas, etc. Daqui decorre uma outra diferença, a do cosmopolitismo de Londres que faz com que haja tantos artistas estrangeiros como britânicos – ou mesmo mais – a apresentar o seu trabalho, o que não acontece em Lisboa (ou no Porto), onde se verifica uma presença maciça de artistas portugueses. A terceira respeita à produção teórica: pensa-se e escreve-se muito mais em Londres.

LM: Uma das situações que mais me impressionou na minha breve passagem pela cidade foi a quantidade de espaços alternativos com uma programação muito diversificada e uma grande inventividade nas estratégias de financiamento das suas actividades, até como forma de reabilitar determinadas áreas urbanas. São espaços acessíveis a jovens curadores como tu ou a abertura é aparente...?

MA: A maioria desses espaços alternativos são galerias comerciais, às quais é difícil aceder no sentido de aí desenvolver projectos. Mas há muitos outros, do sector público (isto é, com financiamentos do Estado ou da autarquia) que estão receptivos a propostas. Contudo, não é fácil estabelecer relações de facto, não porque estejam pouco interessados no que se está a fazer, mas porque a competitividade é muito grande. É que, no que respeita ao lugar ocupado em termos de um trajecto profissional, como eu, há muitos mais…

LM: Muito mais do que em Lisboa certamente... Lembro-me que, numa das nossas conversas a propósito do teu curso em curadoria, referiste o quanto era estranho para os teus colegas a diferença de acesso às instituições portuguesas, comparativamente a Londres (onde a primeira exposição individual ainda acontece, na maior parte dos casos, só depois de várias colectivas, por exemplo)...

MA: Esta questão tem dois pontos de vista possíveis, o do comissário e o dos artistas. Para mim, enquanto comissário, é impensável – ou, pelo menos, dificilmente equacionável – conhecer pessoalmente ou mesmo ter reuniões com o Director da Tate, ou o responsável das principais galerias do sector público, ou o coordenador do sector das artes visuais do Arts Council (o equivalente ao Ministério da Cultura). Já em Portugal contacto mais ou menos facilmente com todos estes interlocutores, embora deva salvaguardar que, na maioria dos casos, não faço parte dos círculos mais próximos, sobretudo aqueles que detêm o poder simbólico associado ao desempenho de determinados papéis ou à ocupação de determinados cargos. Aí, de facto, o meu grau de influência ao nível das decisões que se tomam é diminuto – e, já agora, pretendo que assim continue, pois considero que há uma certa ética no que respeita à prática curatorial que ainda está pouco consciencializada e menos ainda posta em prática no meio dos operadores destas áreas. Quanto aos artistas, a realidade é ainda mais complexa. Em Portugal, qualquer exposição individual, quase em todos os contextos, tem uma recensão crítica nos principais jornais e revistas especializadas (quando estas existem). Em Londres, isso não acontece. Só mesmo depois de um percurso regular, que implica a participação em diversas exposições colectivas e individuais, é que um artista alcança uma visibilidade mínima. Um bom exemplo, que permite ilustrar esta situação, é a do novo figurino do Prémio EDP Jovens Artistas, cujo modelo seria a do Beck’s Futures (ou, já agora, do Bloomberg New Contemporaries). Se há semelhanças, estas são menores e menos significativas que as diferenças. As primeiras prendem-se com o facto de se tratar de um projecto patrocinado por empresas dedicado à revelação de novos valores. Quanto às segundas, atente-se na disparidade: Museu de Serralves (e, em 2004, Centro de Exposições do CCB), principal instituição nacional vs ICA ou Barbican Centre, estruturas relevantes, mas não as mais significativas; conjunto de comissários, com um ou mais membros fixos, que escolhem artistas saídos das escolas ou com percurso muito recente vs painel sempre rotativo de artistas, comissários e críticos que escolhem artistas já com um percurso mínimo, praticamente todos já com formação pós-graduada; artistas quase a expor pela primeira vez vs artistas que já expuseram várias vezes, inclusivamente a título individual.

LM: Então pergunto: pensando inclusive no recente mestrado em “Estudos Curatoriais” (derivado da Pós-Graduação em Comissariado de Exposições) pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, e considerando também a diferença de condições e conteúdos face ao que tu fizeste no Royal College, se achas que essa formação específica em Portugal é capaz de preparar um curador que escolha trabalhar a partir de Londres?

MA: Para ser franco (e talvez brutal), não. Do que conheço, bem como do “feed back” que tive de estudantes da edição inaugural, ainda sob a forma de pós-graduação, posso dizer que o curso de Lisboa está a anos luz do de Londres. E isto a todos os níveis: investimento pessoal dos formandos, condições de aprendizagem, qualidade do corpo docente, circulação de informação, parcerias com outras instituições, orçamento, diversidade de actividades lectivas, contacto com a realidade internacional, ambiente universitário exterior, experiência adquirida de facto. Aliás, mesmo para preparar um curador que escolhesse trabalhar a partir de Lisboa, já seria um objectivo difícil de atingir. Basta ver que, do primeiro grupo de alunos, não surgiu, pelo menos para já, qualquer curador novo. Alguns dos que já trabalhavam em exposições assim o continuaram a fazer, beneficiando desse facto para converterem o modo como a sua profissão era reconhecida publicamente – designando-se agora de curadores. Contudo, importa referir que o curso de Lisboa está servido por alguns dos melhores profissionais deste sector e que o esforço desenvolvido foi bastante significativo. De certeza que a massa crítica desta área será cada vez maior e que a prática curatorial em Portugal sairá reforçada com esta experiência.

LM: E num futuro próximo, tens algum projecto pensado para um corredor tipo Lisboa-Londres que nos possas desvendar aqui?...

Neste momento, estou a comissariar um programa de “project room”, dedicado à apresentação de artistas emergentes, para o Centro de Artes Visuais. A par das inaugurações das exposições principais do CAV, pretende-se mostrar sempre dois artistas que trabalhem nos mais diversos media que me pareçam ter algo novo a dizer. Ainda para o CAV, estou a preparar, com o Director do CAV, uma exposição dedicada ao universo do futebol, que inaugurará em Julho deste ano, e uma exposição da Colecção dos Encontros de Fotografia, que comemorará os 25 anos desta instituição que decorrem no próximo ano. Em Londres, estou a escrever uma série de textos para revistas e catálogos, a enviar propostas de exposições para várias entidades e espero ainda fazer uma residência curatorial na Artangel. E há mais coisas, que revelarei numa conversa futura…
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- Mais informações sobre “PROJECT ROOM: MANUEL SANTOS MAIA E RICARDO VALENTIM” através do CAV-Centro de Artes Visuais: infocav@cav.net4b.pt


Paula RouschPaula RoushBruno PachecoPaulo CatricaMiguel Amado

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