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Edmond Jabès - os lugares jabesianos

Por Caio Meira

 

Edmond JabèsEdmond Jabès nasceu no Cairo em 1912 e morreu em Paris em 1991. Em 1957, viu-se obrigado a deixar o Egipto, país onde vivera desde sempre, devido às suas origens judias. Em 1967, optou pela nacionalidade francesa. A questão do lugar na obra do poeta egípcio Edmond Jabès

A questão do lugar na obra do poeta egípcio Edmond Jabès

São muitos os lugares na poética jabesiana. Tratando-se de um poeta cuja parte mais importante da obra foi escrita no estrangeiro, na condição de estrangeiro, exilado do país e da língua natal, a questão do lugar — a partir de que lugar se fala e se escreve, de que lugar se vem ou a que lugar se vai — mais do que permeia sua escrita: em Edmond Jabès, escrever responde sempre às questões da origem e do destino, e não como pontos fixos ou determinados a partir dos quais o poeta ganha alguma referência, mas como (avançando pela idéia de Marjorie Perloff)indeterminantes, núcleos móveis onipresentes na própria geração de sua poética. Sobretudo se consideramos que o exílio jabesiano não é de modo algum uma conseqüência em sua obra e também em sua vida. Basta pensar, por exemplo, na escolha primeira de uma língua diferente da materna para exercer sua arte. Aliás, a palavra “escolha” não reflete o que está envolvido na gênese de sua escrita. Escrever em francês (e não em árabe) não foi uma escolha. De alguma maneira, uma língua estrangeira, a francesa, já se impunha dentro da complexidade nascente em sua escrita. É nesse sentido que o exílio, tomado em sua dimensão mais ampla, ocupa uma posição originária: esse exílio originário dá a medida da singularidade de uma obra que se constituiu, desde seu princípio, como uma poética do estrangeiro, na qual toda questão surge a partir de um lugar e todo lugar é um privilégio da questão poética.
A partir disso, que lugares são esses lugares indeterminantes? Um lugar não é, antes de tudo, um espaço determinado, uma referência geográfica fixa? Para todo os efeitos, qualquer lugar na poética jabesiana será sempre o lugar de um estrangeiro. Afinal, o que poderia estar em jogo na fala ou na palavra de um estrangeiro senão um lugar? De modo geral, a característica maior do estrangeiro é justamente vir de um outro lugar; trata-se, mais simplesmente, de alguém de fora. Esse lugar, deixado ou almejado, esquecido ou evocado, idealizado ou temido, é denunciado em sua fala, seja por seu sotaque, seja por referências histórico-geográficas, culturais ou pessoais, seja por determinado tipo de sabedoria ou ignorância que lhe é peculiar, seja, ainda, pelo embaraço natural ao se exprimir. A palavra do estrangeiro, assim como qualquer palavra estrangeira, aponta para o exterior, para uma estraneidade. O estrangeiro, por não pertencer ao lugar em que está presente — e por, como conseqüência, carrega uma ausência mesmo quando presente, ausentando-se de sua presença —, denuncia essa estraneidade no movimento espontâneo de sua fala. Sua palavra cria um espaço de alteridade e passa a ocupar um lugar diferente dos demais lugares, o lugar de uma diferença. Esse lugar é também o lugar de uma ausência, um lugar vazio: vazio por ser incompleto, inconstante ou indeterminado.
Examinando mais de perto os lugares na escrita jabesiana, temos o Egito, a cidade do Cairo, o bairro onde viveu, o deserto, o mar, as ruas e o metrô de Paris etc. Do ponto de vista da poética, porém, qualquer lugar deve ser, primordialmente, uma morada, como bem indica o título escolhido para a reunião de poemas que vão de 1943 a 1957, Je bâtis ma demeure, isto é, Construí minha morada. Nesse primeiro momento da obra de Edmond Jabès, a questão do lugar da habitação e da escrita já ganha destaque. Veja-se, por exemplo, o poema intitulado A canção do estrangeiro:

Estou à procura
de um homem que não conheço,
que nunca foi tão eu mesmo
quanto desde que comecei a procurá-lo.
Teria ele meus olhos, minhas mãos
e todos esses pensamentos semelhantes
aos destroços deste tempo?
Estação de mil naufrágios,
o mar deixa de ser mar,
para tornar água gelada dos túmulos.
Mas, mais longe, quem sabe mais longe?
Uma menina canta a contragosto,
enquanto a noite reina sobre as árvores,
pastora em meio a seus carneiros.
Venham arrebatar do grão de sal a sede
que nenhuma bebida poderá mitigar.
Com as pedras, um mundo se devora
para ser, como eu, de parte alguma.

Nesse poema (escrito ainda sob forte influência surrealista, sobretudo a de Max Jacob), o estrangeiro não é apenas quem tem outra nacionalidade, quem vem de outro país, ou mesmo de outra religião, mas alguém a procura de um desconhecido (si mesmo), alguém que vive me meio a destroços e que, de fato, é de lugar nenhum. Ser estrangeiro, nesse caso, ultrapassa qualquer contingência sociocultural e ganha um contexto de intimidade: estrangeiro já é o eu a procura de um si mesmo desconhecido e que tem como fundamento o fato de ser de origem indeterminada, isto é, ter como origem o que não pode ser determinado, o desconhecido. Trata-se, por isso, de um eu ausente de si mesmo; em outras palavras, o lugar de sua presença é também um lugar de ausência, de silêncio, de desconhecimento, de indeterminação. Não é sem razão que um dos mais belos poemas de Construí minha morada se chame Ausência de lugar. A preferência, porém, por lugares distantes, solitários, por viagens, por travessias (do mar ou do deserto), isto é, por lugares ausentes, permeia todo o livro.
Outra ligação crucial anunciada em Construí minha morada — e que vai se tornar cada vez mais intensa a partir de O Livro das Questões — é a relação entre o estrangeiro e o escritor, ou o poeta. No poema em prosa intitulado O estrangeiro (1956), essa relação, mais do que sugerida, é declarada:

Ele vivia de desejo e de tinta. Detestava as frases gastas, os clichês tanto quanto as reuniões — as familiares, em particular as que deixaram vermelhos os olhos de sua infância —, os livros de ouro e jornais. Ignorava-se a sua origem; o que causava, da parte dos curiosos, intermináveis especulações a seu respeito: a saber, se era um estrangeiro — ainda que seu sotaque nunca o tivesse denunciado — ou um cidadão da região — nesse caso, pelo menos um parente seu seria conhecido. Alguns diziam que ele se desinteressava pela condição das palavras, que era um incurável egoísta; outros, ao contrário, sustentavam que se ele se mantinha distante de seus semelhantes era porque estava infeliz. Atribuíam a ele algumas ligações, mas todas com viajantes misteriosas que chegavam um dia e que depois não eram mais vistas. Os filósofos se confessavam impotentes para associá-lo a seus tratados. Ele surgia da pena, de surpresa, como se fosse atraído pelo rosto ou pela voz de um vocábulo cujo poder de sedução, até então, ninguém tinha suspeitado, para se tornar um dos enigmas da poesia.

Nessa descrição do estrangeiro-escritor surge um dos elos mais fortes da poética de Edmond Jabès. O estrangeiro, causador de controvérsia em virtude da distância que representa, é também um escritor que detesta frases gastas, clichês e palavras usadas no do dia-a-dia. Ele prefere, ao contrário, os vocábulos insuspeitados, os que são capazes de surpresa e sedução, os que, em vez de darem respostas prontas, levam ao enigma. No contexto desse poema, todo o questionamento insuflado pela presença do estrangeiro-escritor está de alguma forma ligado à origem: em primeiro lugar, trata-se de sua origem desconhecida, indeterminada, isto é, de onde veio, que vozes estão escondidas (e falam) sob sua fala; em segundo lugar, porque ele deseja palavras de outra origem, não as do uso comum, não as assinadas nos livros de ouro, não as impressas nos jornais, mas, como dissemos, os vocábulos originais, que ocultam poderes de sedução, são bruscos e repletos de surpresas. Ao ser atraído pelo rosto ou pela voz oculta de um vocábulo, o escritor se torna um dos enigmas da poesia. Seguindo essa descrição, pode-se perceber o quanto o estrangeiro escritor tem um poder subversivo, pois sua presença é sentida como ameaçadora. E a fonte dessa subversão passa, sobretudo, por questões relativas à origem, sua origem pessoal e a origem das palavras que prefere. Origem, não custa lembrar, é uma noção que não pode ser compreendida sem se levar em conta outra noção, a de lugar.
Qualquer que seja o lugar em questão na poética jabesiana, trata-se de um lugar ausente, indeterminado. O mesmo acontece com o estrangeiro: sua presença, por evocar um lugar ausente, é também uma presença ausente. E se o indeterminado caracteriza tanto o estrangeiro quanto o lugar, que lugar poderia materializar melhor essa presença de uma ausência senão o deserto? Como afirma o próprio poeta acerca de sua escrita, “o deserto está presente da primeira à última página de meus livros [...]; ele deu às minhas palavras um prolongamento, a escuta das coisas que me ultrapassam.” Se são inúmeras as menções ao deserto em todos os livros de Edmond Jabès, trata-se menos de uma referência explícita, embora ela também ocorra, e bem mais de uma presença oculta, quieta, silenciosa, mas intensa. O deserto, lugar da indeterminação por excelência, constitui-se como uma presença material dentro da poética de Edmond Jabès. Material, aqui, é tomado a partir da conceituação que Gaston Bachelard dá ao termo: material, na teoria bachelardiana, é aquilo que antecede o visual — isto é, tudo o que se apresenta como evidente — e que fundamenta qualquer atividade criadora. O deserto, nesse contexto, funciona como um substrato, ou melhor, como o lugar primitivo, original, de toda a criação jabesiana. Mas por que o deserto? De que maneira um lugar geograficamente determinado pode alcançar uma posição privilegiada dentro de uma poética que valoriza a não-pertença a nenhum lugar, o desenraizamento e o nomadismo do estrangeiro? Justamente porque o deserto é o lugar ao qual ninguém pertence, ou seja, o lugar próprio da ausência e do abandono. No deserto, pode-se apenas atravessar, passar, transitar, nunca habitar — no sentido sedentário desse termo. Apenas um nômade pode fazer do deserto uma morada ou uma habitação, e isso porque aceita e assume esse não-lugar como desconhecido, como indeterminado. Em outras palavras, habitar o deserto, fazer dele uma morada — experimentar e conviver com o desconhecido que ali impera — é habitar essa indeterminação que nunca deixa o conhecido subjugar ou reduzir o desconhecido.
O deserto, portanto, ocupa uma posição de lugar original (e ao mesmo tempo de lugar ausente) na obra jabesiana, estando na origem, sendo a origem, de sua fala poética. Assim como o estrangeiro, que é antes de tudo estrangeiro para si, porque desconhece a si e as próprias fronteiras, e também porque habita a fronteira entre o conhecido e o desconhecido, o deserto também é, antes de tudo, uma fronteira:

Não se pode falar do deserto como de uma paisagem, pois ele é, apesar de sua variedade, ausência de paisagem.
Essa ausência lhe confere sua realidade.
Não se pode falar do deserto como de um lugar; pois ele é, também, um não-lugar. O não lugar de um lugar ou o lugar de um não-lugar.
Não se pode falar que o deserto seja uma distância, pois ele é, ao mesmo tempo, distância real e não-distância absoluta por causa de sua ausência de demarcações. Seus limites são os quatro horizontes, sendo o que os liga e o que os separa. Ele é sua própria separação, onde se torna lugar aberto; abertura de lugar.
Não se pode pretender que o deserto seja o vazio, o nada. Também não se pode pretender que ele seja o término, pois ele é, do mesmo modo, o começo.


A realidade ou o real do deserto está na própria ausência que ele implica, por ser uma paisagem que não é paisagem, por ser um lugar que é ao mesmo tempo um não-lugar, por ser distante e também abolir toda distância, por unir-se justamente através do que separa, por ser um fim e ao mesmo tempo um começo.
É interessante notar que, mesmo do ponto de vista etimológico, a palavra deserto encarna esse lugar ao mesmo tempo ausente e original. Ela se forma a partir do interpositivo latino –ser(t)–, radical do verbo sero, que tem duas acepções principais: na primeira, quer dizer enlaçar, unir, encadear, ligar, travar relações com alguém; na segunda acepção, semear, plantar, instituir, gerar. Com o acréscimo da partícula de–, forma-se o verbo desero, que também tem duas acepções: significa abandonar, desamparar, desertar, negligenciar, estar em falta com alguém; porém, continua, estranhamente, a significar semear, plantar, instituir, gerar! Portanto, a palavra Desertum (deserto em português e désert em francês), derivada do verbo desero, é, ao mesmo tempo, o lugar da separação, do desamparo, do abandono, da falta, da solidão, da desagregação e da aridez, mas, considerando a segunda acepção do verbo desero, preserva o sentido de geração, de origem. Por isso, o deserto, pelo menos do ponto de vista etimológico, reúne dois significados aparentemente paradoxais: o deserto da aridez, lugar em que tudo se desagrega ou se desampara, e o deserto da geração, onde é possível originar, lugar de alguma origem. Essa origem árdua, árida, abandonada e desamparada é a característica do (não-) lugar deserto jabesiano; em outros termos, na escrita de Edmond Jabès, o deserto, lugar e ao mesmo tempo não-lugar, vai gerar sentido justamente a partir da impossibilidade de sentido.
Retornando à característica material do deserto, deve-se enfatizar que, por ser material, isto é, por materializar o deserto como causa e origem, observa-se que se trata, para Jabès, bem mais do que uma metáfora. Como assinala Rosy Pinhas-Delpuech, a tradição ocidental consagrou ao deserto um papel de parábola, de metáfora ou de símbolo, transformando-o num lugar de danação, de castigo ou de tentação –– nunca um fim ou um começo — e por isso apenas nômades e eremitas se arriscam a freqüentá-lo. E a escrita de Jabès é uma das que se erguem para mudar essa leitura simbólica do deserto, instituindo-o como ponto de partida real, como lugar original não apenas de um povo — o povo hebreu, que ali sofreu por quarenta anos, passando por tentações, castigos e danações antes de receber o Livro e, por assim dizer, formalizar a aliança com o Criador —, mas a de uma obra poética.
Na poética jabesiana, a relação do homem com o deserto é em tudo semelhante à do homem com a palavra ou com a linguagem: o homem habita esse deserto-linguagem, pois tanto no deserto quanto na linguagem há uma não-pertença como fundamento, o que se traduz, de fato, num atravessamento mútuo. Um só pode passar pelo outro, um só pode atravessar o outro — homem atravessando o deserto e deserto atravessando o homem; homem atravessando a linguagem e a linguagem atravessando o homem —, mas sempre deslizando, percorrendo, para poder subsistir. Além disso, qualquer língua no deserto é uma língua estrangeira, assim como qualquer homem no deserto também é estrangeiro. A palavra do estrangeiro-escritor está, portanto, impregnada de areia:

Deixei uma terra que não era a minha
por outra à qual também não pertenço.
Refugiei-me num vocábulo de nanquim,
e tenho o livro como espaço;
palavra de lugar nenhum, obscura fala do
deserto.
Não me cobri durante a noite.
Nem mesmo tentei me proteger do sol.
Andei nu.
De onde eu vinha, não fazia mais sentido;
Aonde eu ia não incomodava ninguém.
Vento, digo-lhes, vento.
E um pouco de areia no vento.


Esse poema marca de modo exemplar o quanto, em Jabès, o exílio fundamental e mesmo fundador; em sua obra, toda voz é a voz do estrangeiro — que é, ao mesmo tempo, um escritor. O deserto, lugar original e ao mesmo tempo lugar nenhum, lugar ausente, é a fonte da fala enigmática, que não poder ser outra senão a fala poética. O deserto, lugar de travessia, mas também lugar de exposição, de nudez, coloca o poeta diante do mundo (da noite, do sol). O vento, que vai a todo lugar, força invisível, para o qual não há fronteiras, sempre carrega consigo sua parte do deserto, isto é, sua parte de ausência, de vazio. Por fim, dizer que o deserto não se restringe a ser uma metáfora é ressaltar sua posição original, como fonte, não como produto: não se trata de uma imagem ou de uma conseqüência da poética jabesiana; muito ao contrário, é o lugar por excelência da trama complexa que engendra sua fala.

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