“O Segundo Sexo” foi publicado há cinquenta e cinco anos. Nesta obra, Simone de Beauvoir fazia uma “chamada às armas” contra a discriminação a que as mulheres continuam a ser sujeitas. Aí escreveu “Ninguém nasce mulher mas sim torna-se mulher.”
Simone de Beauvoir nasceu a 9 de Janeiro de 1908 no seio de uma família burguesa parisiense. Cedo decidiu dar um rumo muito particular à sua vida, escolhendo um destino que incluísse “o risco de pensar e de construir a sua própria obra”. Por essa razão, não se deixou ficar pelos estudos liceais e ingressou na Sorbonne onde, em 1929 conheceu Jean-Paul Sartre com quem iniciou uma relação profunda que durou todo o resto das suas vidas. Depois de uma passagem pelo ensino, (1931-1943), dedicou-se totalmente à escrita. Durante a Segunda Grande Guerra permaneceu em França e escreveu longamente a Sartre, que cumpria o serviço militar nas trincheiras e chegou a ser feito prisioneiro. A correspondência entre ambos, iniciada em 1930 e mantida ao longo das suas vidas, revela uma faceta muito particular da relação entre o “papa do existencialismo e a mãe do feminismo”. Simone mostra-se uma amante devotada, ansiosa pelas cartas de Sartre, a quem chama “o ser da minha própria vida”. Com ele e para ele fala das leituras e dos pensamentos, dos filmes e dos lugares e também dos seus amantes e amores de uma forma absolutamente franca, directa e honesta. Quando, em 1947, conheceu o americano Nelson Algren e iniciou um tórrido romance que se prolongou até 1964, com altos e baixos devastadores, ela falou a Sartre dos problemas de um relacionamento com uma pessoa de temperamento difícil, que era “uma vítima da neurose do insucesso”. As “Lettres à Nelson Algren”, publicadas em 1997 pela filha adoptiva de Simone, Sylvie Le Bon de Beauvoir, mostram uma mulher apaixonada que descobre as alegrias do sexo, com alguém totalmente distinto de si própria, um estrangeiro em todos os sentidos, ao contrário de Sartre, um ente familiar que era “um outro que era ela própria”. A sua relação com Algren foi também uma experiência complexa e difícil, depois do entusiasmo inicial. O americano era de temperamento tortuoso e nunca perdoou a Simone não ter querido deixar Paris e Sartre para ir viver com ele para os Estados Unidos, e para se casarem. Quando Simone publicou “Os Mandarins”, um “roman à clé” no qual a sua relação com Algreen é mostrada em todos os detalhes, ele ficou furioso e provocou a primeira de várias rupturas entre ambos. (A definitiva deu-se quando da publicação nos Estados Unidos do relato autobiográfico “A Força das Coisas”) É interessante constatar como Simone, que se considerava liberta sexualmente (mas que afirmava que as palavras eram mais eróticas do que o contacto físico), confessou que teve o seu primeiro orgasmo com Algren. Esta mulher que voltara costas a uma existência burguesa, que afirmava detestar fazer a “ménage” e que ascendera, por mérito próprio, a uma posição de prestígio entre a comunidade intelectual, escrevia ao amante, oferecendo-se para lhe lavar os pratos, limpar a casa e cozinhar para ele.
Ao longo dos anos, tanto Simone como Sartre tiveram aventuras e romances mas conservaram a relação entre ambos fortemente alicerçada em algo que poderá ser difícil de compreender. Quando a correspondência entre ambos foi publicada em França, vozes indignadas de feministas da linha dura levantaram-se em protesto contra o que acharam ser uma imagem perfeita de deliberado auto apagamento de Simone perante Sartre, acusando-a de hipocrisia por defender a libertação das mulheres, ao mesmo tempo que atribuía a si própria um papel subserviente perante um homem. É verdade que a relação entre ambos foi demasiado peculiar para ser compreendida à luz de estereótipos. O amor estava alicerçado no pensamento e a cumplicidade era o motor do seu entendimento. Conheciam-se profundamente, podiam ironizar à vontade em relação a si próprios e tinham um pacto: o seu relacionamento nunca se basearia num hábito. Juraram um ao outro “amor essencial”, guardando no entanto a prerrogativa de levarem a cabo “relações amorosas de contingência”. Numa entrevista perguntaram uma vez a Simone se ela se comparava a Sartre e ela respondeu a rir: “Ele estava sempre a pensar e era tremendamente obstinado. Com ele, eu podia partilhar tudo. Mas comparar-me a ele para quê ? Se o fizesse, como seriam mornas as minhas febres!”.
É natural e absolutamente humano que, apesar de tudo, tenha existido pontualmente alguma dor e amargura, inevitáveis mesmo entre as pessoas mais racionais. Devido a certos “desabafos” de Simone foi ventilada a hipótese, por parte de biógrafos e ensaístas, de que Sartre teria sido um homem despótico que a atormentava com atitudes manipuladoras e lhe provocava ciúmes com as suas aventuras; outros houve que mostraram Beauvoir como uma virago ninfomaníaca, calculista e fria. Uns defendem que Sartre é que foi o verdadeiro filósofo e intelectual e que Simone se limitou a seguir-lhe os passos; outros, pelo contrário, acham que ela é que foi a força motriz para as bases do pensamento existencialista. Ambas estas leituras são redutoras e induzem em erro. Sartre e Beauvoir passaram anos e anos a trocar ideias, a estudar detalhadamente a obra um do outro e a influenciar-se mutuamente. Os acidentes e incidentes que lhes povoaram a vida foram objecto de discussão e análise em comum. Constituíram um desses casais extraordinários que se podem contar pelos dedos, na história da humanidade.
Simone de Beauvoir foi a enterrar no dia 15 de Abril de 1986, exactamente seis anos depois de Sartre, mesmo dia, mesma hora, mesmo local. Num dos dedos levava o anel que Nelson Algreen lhe tinha dado, muitos anos antes.
“O SEGUNDO SEXO”
“O Segundo Sexo” é uma obra seminal que estabeleceu de imediato uma plataforma de discussão acesa sobre a condição feminina e o(s) feminismo(s). Apesar das várias polémicas que sempre suscitou, tem servido de referência para a maior parte dos ensaios, debates e discussões posteriores. Camille Paglia afirmou que ao lê-la, aos dezasseis anos, mudou toda a sua vida: “Teve um grande impacto sobre mim; a minha independência intelectual data dessa momento. O “Segundo Sexo” continua a ser a obra suprema do feminismo moderno”. Quanto a Katte Millett baseou “Sexual Politics” na obra de Simone e a australiana Germaine Greer foi nela que se inspirou, principalmente no tratamento do tema do envelhecimento feminino e suas consequências. É possível encontrar notas sobre de Beauvoir em quase todos os estudos femininos
Quando surgiu, em 1949, “O Segundo Sexo” causou tanta admiração quanto estranheza. Era uma obra vasta, dividida em dois volumes, bem documentada e alicerçada na lógica e no conhecimento e muito pouco “feminina”. (Às mulheres estavam reservado géneros como o romance ou a novela). Tendo como missão pôr a nu a condição feminina, explorava áreas ligadas à situação da mulher no mundo, englobando história, filosofia, economia, biologia, etc., bem como alguns “case studies” e algumas experiências particulares. Simone queria demonstrar que a própria noção de feminilidade era uma ficção inventada pelos homens na qual as mulheres consentiam, fosse por estarem pouco treinadas nos rigores do pensamento lógico ou porque calculavam ganhar algo com a sua passividade, perante as fantasias masculinas. No entanto, ao fazê-lo cairiam na armadilha de se auto limitarem. Os homens chamaram a si os terrores e triunfos da transcendência, oferecendo às mulheres segurança e tentando-as com as teorias da aceitação e da dependência, mentindo-lhes ao dizer que tais são características inatas do seu carácter. Ao fugir a este determinismo, Simone abriu as portas a todas as mulheres no sentido de formarem o seu próprio ser e escolherem o seu próprio destino, libertando-se de todas as ideias pré-concebidas e dos mitos pré-estabelecidos que lhe dão pouca ou nenhuma hipótese de escolha. Assim, a mulher, qualquer mulher, deve criar a sua própria via, mesmo que seja a de cumprir um papel tradicional, se for esse o escolhido por ela e só por ela.
Mas numa sociedade ainda sob o choque das profundas alterações provocadas pela Guerra, a posição das mulheres tinha-se fortalecido pela ausência dos homens, mortos, desaparecidos ou ausentes. Mas Simone lançava um alerta dizendo: “…a Idade de Ouro da mulher não passa de um mito… A sociedade sempre foi masculina e o poder político sempre esteve nas mãos dos homens.”. “A humanidade é masculina” observou ela “…e um homem não teria a ideia de escrever um livro sobre a situação peculiar de ser macho…e nunca se preocupa em afirmar a sua identidade como um ser de um determinado género; o facto de ser um homem é óbvio.” É importante colocar como ponto de partida para o estudo de “O Segundo Sexo” e do resto da obra de Simone de Beauvoir, o facto que ela, apesar de reconhecer que os homens oprimem as mulheres, não deixa de lhes apreciar as capacidades. .
Germaine Greer, a feminista de origem australiana que se celebrizou, quase trinta anos depois de “O Segundo Sexo” com a sua obra “The Female Eunnuch”, diz achar que de Beauvoir sempre partiu de uma argumentação centrada nos homens e nunca lhe perdoou ter afirmado, em “A Força das Circunstâncias”, que o maior sucesso da sua vida fora a relação que conseguira manter com Jean-Paul Sartre.
Mas, curiosamente, nos seus livros, Greer cita frequentemente de Beauvoir, utilizando as suas opiniões sobre a maior parte dos assuntos, principalmente no que diz respeito ao envelhecimento e ao declínio da sexualidade. Simone de Beauvoir chamou a atenção para o facto de que o tempo se acelera naturalmente na meia-idade. Disse-o com irritação. Ao contrário de Greer, por exemplo, ela não conseguia tirar partido das alterações que detectava no rosto e no corpo, à medida que o tempo passava. Apesar de se afirmar principalmente como “uma intelectual”, tinha um cuidado enorme com a aparência e apreciava o facto de os homens a olharem com aprovação, outro sinal , para as feministas puras, de que ela era uma espécie de “traidora”. Mas a verdade é que Simone de Beauvoir conhecia bem os homens e mostrava compreensão para o facto de os homens viverem para o sexo, sentindo-se atraídos, à medida que envelhecem à medida que envelhecem por mulheres cada vez mais jovens. O género feminino tem, pelo contrário, uma consciência muito mais aguda da decadência do próprio corpo. Apesar de as mulheres não terem os problemas masculinos óbvios, como a falta de erecção, com a idade tendem a desinteressar-se pelo sexo. Segundo ela tudo isto também tem a ver com a posição social e económica que a mulher ocupa na sociedade e afirma claramente que uma mulher rica tem muito mais possibilidades de arranjar um amante jovem.
ALGUNS CONCEITOS DE “O SEGUNDO SEXO”
“É certo que o papel sexual da mulher é, em grande parte passivo; viver imediatamente essa situação passiva não é tão masoquista como a actividade do macho é sádica; a mulher pode transcender as carícias, a comoção, a penetração para o seu próprio prazer…; ela pode também procurar a união com o amante e entregar-se-lhe, o que significa uma superação de si e não uma abdicação.”
“O casamento incita o homem a um imperialismo caprichoso; a tentação de dominar é a mais universal, a mais irresistível que existe; entregar o filho à mãe, entregar a mulher ao marido é cultivar a tirania na terra.”
“Uma ligação, ao estabilizar-se, acaba por assumir frequentemente um carácter familiar e conjugal; nela se reencontram o tédio, o ciúme, a prudência, o ardil, todos os vícios do casamento. E a mulher sonha com outro homem que a tire dessa rotina”
Bibliografia: “O Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir, vols. 1 e 2 , Edição Bertrand, Lisboa,
“Lettres à Nelson Algren”, de Simone de Beauvoir, Ed. Gallimard, 1997
“Simone de Beauvoir and Jean-Paul Sartre. The Remaking of a 20th Century Legend” de Kate and Edward Fullbrook, Basic Books, 1994
O filme de Valérie Stroh evoca a actividade daquela que se dizia “dotada para a felicidade”.
Em Paris, Christine Delphy e Sylvie Chaperon organizaram, em 1999, um seminário com a intenção expressa de difundir os estudos sociais e filosóficos desta autora, bem como informações sobre a sua actividade em prol das mulheres, o seu envolvimento na campanha pró-aborto do início dos anos oitenta e o seu empenhamento na criação da Liga dos Direitos da Mulher.
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