Arquivo


Margarida Correia - Entrevista com a artista, em Nova Iorque

Por Lúcia Marques

 

A curadora e crítica de Arte Lúcia Marques continua, com esta peça, o seu trabalho revelador da obra e da personalidade de artistas portugueses que habitam fora de Portugal e que contribuem, significativamente, para uma dinâmica específica nas novas correntes artísticas.

MARGARIDA CORREIA
Página na net: http://mfaphoto.schoolofvisualarts.edu/thesis2004

LÚCIA MARQUES: Qual é a tua ligação a Nova Iorque neste momento?

MARGARIDA CORREIA: Neste momento a minha ligação com a cidade é uma relação de cumplicidade. Finalmente sinto-me perfeitamente integrada, tomei o gosto à adrenalina no ar e às pessoas, que estão sempre a chegar ou de partida, curiosas e receptivas.

LM: Quando vieste, o que é que procuravas encontrar?

MC: Já tinha estado em Nova Iorque de férias cerca de 7 anos antes de vir para cá viver (há dois anos atrás). Na altura adorei a cidade e senti que gostaria de regressar por um período de tempo mais longo. Vir para cá estudar pareceu-me uma boa estratégia, e foi... gostei da diversidade, do movimento, do desafio. Nunca tinha vivido fora de Portugal e procurava essa experiência, numa cultura completamente diferente. Quando vim não procurava nada em particular, mas todas as coisas que uma mudança destas envolve.

LM: Quais foram as principais diferenças que encontraste relativamente à escola para onde vieste e a todo o ambiente artístico em que te foste inserindo?

MC: Uma grande diversidade, de trabalhos, de personalidades, de objectivos e de estratégias. A principal diferença que notei em relação à escola foi o desenvolvimento de um sentido crítico. Num curto espaço de tempo somos expostos a uma grande variedade de opiniões e críticas, ao mesmo tempo que temos de nos expressar em relação aos trabalhos dos colegas. A ginástica mental deixou-me mais perspicaz e consciente do que me interessa. Estar integrada neste ambiente permitiu-me fazer parte de uma comunidade, que é fundamental agora que terminei os estudos.

LM: Quais são as tuas perspectivas agora?

MC: Agora que a escola está para trás, tenho de inventar uma maneira de me aguentar por aqui, é muito mais prático...há mais oportunidades, mas também há muita gente, muitos artistas...todos à procura do mesmo. Tenho mais um ano para ficar por cá e quero aproveitar bem...

LM: O que é que te parece essencial para te conseguires afirmar num meio tão competitivo?

MC: Definir bem objectivos e ser muito persistente.

LM: E que projectos tens em marcha neste momento?

MC: Depois da apresentação do projecto do Mestrado, actualmente em exposição na Visual Arts Gallery (http://mfaphoto.schoolofvisualarts.edu/thesis2004/), estou a fazer mais uma série de imagens a partir do mesmo conceito. Comecei por fotografar pessoas da minha geração, que possuem um objecto de uso pessoal sem valor material significativo, que pertenceu a uma geração anterior e que tenham uma fotografia antiga do mesmo objecto a ser utilizado pelo dono original. O resultado final são trípticos com um retrato do sujeito no presente a utilizar o objecto, uma reprodução da fotografia do antepassado com o mesmo item, e por último o objecto sozinho. Estou a preparar um grupo de imagens para uma exposição individual num futuro próximo. LM: Parece-me curioso tratar-se de uma espécie de registo da passagem de testemunho de um objecto afectado — envolto de afecto — por essa reutilização no tempo e no espaço... Achas que esse rastreio do percurso do próprio objecto pode ter a ver com a tua deslocação relativamente recente para Nova Iorque?
MC: Sim, acho que tem a ver com o facto de estar integrada num contexto diferente, embora seja algo que sempre me interessou. A distância a tudo o que me era familiar fez-me questionar determinados valores e a importância dada a certas relações. A carga afectiva dos objectos varia bastante, alguns têm associações mais fortes (como o vestido de noiva) mas outros, como a roupa interior, não tinham inicialmente qualquer valor afectivo para o seu dono e pelo facto de terem sido guardados e serem de algum modo delegados a uma geração seguinte, tornaram-se portadores de um valor acrescido, que provavelmente até pareceria estranho aos seus donos. Tendo começado por fazer alguns retratos em Portugal, encontrei em Nova Iorque (devido à mistura de nacionalidades) uma grande diversidade de sujeitos e experiências. LM: Este trabalho esboçou caminhos para projectos futuros?...É bastante diferente do que desenvolveste recentemente, mas ainda por publicar, a partir da tua experiência no Japão...
MC: O projecto do Japão foi muito particular. Estive em Osaka, Kioto e Tokio alguns meses antes de vir para NY.
Fotografei Maikos (jovens aprendizes de Geishas) a prepararem–se nos seus ambientes tradicionais, e em alguns eventos sociais.
Quando decidem ser Maiko as raparigas vão-se integrar numa casa e família que possui uma história e tradição, um “espólio” de roupas e objectos transmitido pelas suas antecessoras, cheios de códigos e simbologias; no mesmo ambiente seguem uma série de rituais de preparação e transformação, a maquilhagem, os penteados, a maneira como se vestem, como se movimentam, como agem …
No meu último trabalho a reutilização dos objectos no espaço e no tempo está directamente ligada à história pessoal dos retratados.

LM: Mas a partir da cultura ocidental…

MC: Sim, e não está directamente relacionada com uma tradição, mas a uma certa casualidade na escolha. São objectos que acabam por resistir ao tempo e são “sobrevalorizados”. Mas as suas histórias têm um carácter muito pessoal, de passagem, percursos, mudanças, memórias.

LM: Lembrando que expuseste recentemente parte desse trabalho na School of Visual Arts (SVA) pergunto que recepção tens tido dessas obras?

MC: A exposição na galeria da SVA foi muito positiva. A escola inaugurou no início do ano um novo espaço de Galeria e Museu estrategicamente localizado em Chelsea (anteriormente situado no Soho, zona gradualmente abandonada pelos artistas e galerias). Esta integração no circuito galerístico da cidade trouxe uma maior visibilidade aos artistas. Existe um grande interesse e receptividade no meio a novos valores. Esta proximidade veio facilitar a circulação. As oportunidades surgem muito rapidamente e para um curto prazo. Os artistas vão e vem, e há sempre mais.
A exposição foi o culminar de dois anos de trabalho e de uma nova fase em Nova Iorque. Em outubro vou participar numa colectiva ainda no espaço da SVA, na Affortable Art Fair e numa colectiva no Weatherspoon Museum. Não tem sido possível fazer planos com grande antecedência, mas vou continuar a produzir trabalho e a agarrar as oportunidades que vão surgindo. Estou a iniciar uma nova fase na cidade, agora mais dura (de sobrevivência), mas muito estimulante!

LM: E relativamente a Portugal? Tens tentado acompanhar o que se vai passando no meio artístico nacional, até na perspectiva de possíveis contactos para mostrares o teu trabalho também por cá?

MC: Tento acompanhar o que se passa o tanto quanto possível. Através de informações que vou recebendo por amigos e notícias na net. Quando estou em Portugal, vejo as exposições disponíveis, e procuro visitar os espaços novos que têm surgido especificamente vocacionados para a fotografia. Gosto de ir ao Porto até ao Centro Português de Fotografia porque tem sido uma referência importante, e em Lisboa ao Arquivo Fotográfico. Na minha última visita fiz alguns contactos com o objectivo de apresentar o meu último projecto durante o próximo ano, um dos meus principais objectivos a curto prazo. Um dos aspectos importantes neste trabalho é a variedade e a riqueza das imagens de arquivo (as fotografias antigas reproduzidas). Tendo sido iniciado em Portugal, é possível identificar claramente o universo e a origem dessas imagens (anos 60/70), e depois continuado em NY, o leque de referências torna-se bastante mais diversificado. Desenvolve-se um paralelo de realidades entre culturas e sociedades. Foi algo que tive a oportunidade de experimentar ao viver em Nova Iorque e que aqui é explorado num contexto fotográfico, como uma referência ao passado.

LM: Consideras a tua actividade especificamente fotográfica ou dirias que tens uma intervenção mais abrangente, no domínio das artes plásticas ou visuais?

MC: Eu considero que trabalho na área das Artes Plásticas, a minha formação foi em pintura (FBAUL) e só mais tarde me dediquei a fotografia. Por essa razão não senti inicialmente esta divisão na minha aproximação ao meio. E penso que tenho uma abordagem diferente da que se sempre tivesse feito fotografia.
O meu último projecto a nível conceptual aborda questões ligadas à fotografia em particular, interligando géneros específicos com uma tradição, como o retrato, o still life, e a fotografia de arquivo de carácter histórico.
A fotografia é um meio com características e códigos próprios, mas que a certo ponto na história se intercepta com as artes plásticas e presentemente cada vez mais as fronteiras se dissolvem e é difícil fazer uma divisão.

LM: E entre as cidades de Nova Iorque e Lisboa, sentes alguma divisão relativamente ao teu futuro profissional? Queria saber se pensas numa solução que concilie as possibilidades de ambas as cidades.

MC: Sinto uma divisão em vários aspectos. Já passei o tempo suficiente na cidade para me sentir em casa e começar a questionar como é que me vou adaptar ao ritmo de Lisboa; adoro a rapidez e o desafio, a variedade da oferta e estar constantemente a conhecer pessoas novas. Por outro lado tenho vontade de regressar e ter uma base mais tranquila para me concentrar no meu trabalho. Nova Iorque não tem sido uma cidade fácil, os artistas estão sob demasiada pressão tornando-se complicado o equilíbrio entre a sobrevivência e o trabalho artístico. A nível profissional consegui fazer contactos, criar amizades fortes, mas não é de um momento para o outro que se atinge o reconhecimento. Nesse aspecto acho que criei raízes muito importantes para o futuro. Se a minha opção for a de voltar a Lisboa, isto não significa o fim de um capítulo da minha vida. As relações que consegui permitem ter vários projectos na cidade que podem ser perfeitamente geridos à distância. Nesse aspecto acho que é possível conciliar as duas cidades. #






[VOLTAR]