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Inês de Castro: a Construção de um Mito

Por Helena Vasconcelos

 

Imagem : "The Kiss", Gustav Klimt

Vivemos num tempo da imagem, numa época de fabricação de mitos, que, amiúde, se fazem e desfazem da noite para o dia. Alguns parecem estar para durar: Marylin Monroe, Sylvia Plath, as irmãs Brontë – mulheres cuja memória ficou inscrita no imaginário colectivo, como Julieta, Isolda, Heloísa; e como Helena de Tróia que certamente teria sido esquecida, não fossem os versos de Homero.

Seguramente como Inês de Castro que inspirou os maiores artistas, e cuja história, cantada, dramatizada, gravada em pedra, comove até hoje. Talvez porque ela é única, ao conjugar forças tremendas: as do amor erótico e do amor cortês, as da política e da ternura, as das razões do coração e as do Estado. Entre Pedro e Inês, tudo começou como um belo conto de fadas para terminar num banho de sangue: amor e morte, sempre juntos, para a eternidade.
Diz-se que Inês era extraordinariamente bela, alegre, loira e de olhos verdes, invulgarmente graciosa e que Pedro se apaixonou mal a viu. O sentimento parece ter sido recíproco. Faziam um par digno dos melhores romances de cavalaria e representavam um ideal romântico a que a corte portuguesa, ainda imbuída dos sentimentos guerreiros do espírito medieval mais conservador, não estava habituada. É verdade que já tinha havido um rei poeta, D. Dinis – dado aos amores e à infidelidade – e uma Rainha Santa, D. Isabel, que muito fizera para transformar um reino, cansado de batalhas e de intrigas, num lugar de maior elevação espiritual. Vale a pena lembrar que as margens do Mondego são um traço de ligação entre estas duas mulheres: Isabel que mandou vir de Salamanca as clarissas e as instalou num parco convento à beira-rio e Inês de Castro que aí viveu, supõe-se que nos Paços de Santa Clara, bem perto do túmulo da Rainha Santa. É interessante fazer notar que D. Pedro colocou aí a amada, quando a sua avó tinha estabelecido que só os príncipes e suas mulheres legítimas poderiam ser acolhidos por aquelas paredes. Este facto é relevante para a questão que muito se tem debatido: D. Pedro casou, ou não, com Inês? Escreve Agustina Bessa Luís nas “Adivinhas de Pedro e Inês”:” ao instalar-se lá com Inês e os filhos, Pedro estava a confessar publicamente a legalidade do seu estado”.
É cada vez mais certo, ainda que não provado, que o casamento entre ambos se tenha efectuado no Convento de S. Francisco, em 1352. Ou em Bragança, em 1353. Ou algures, no meio de uma das múltiplas viagens de Pedro, que não parava em nenhum lado.
Mas voltemos a Inês: supõe-se que tenha nascido em 1325, em Monforte, província de Vigo. Era filha bastarda de Pedro Fernandez de Castro, poderoso senhor galego e de Aldonza Soares de Valladares, uma portuguesa. Estava-se na época das grandes lutas: de independência de Portugal em relação aos reinos vizinhos, e de cristãos contra mouros.
Em 1340, D. Afonso IV de Portugal participou na batalha do Salado, ao lado de Afonso XI de Castela, vencendo os mouros e assegurando a soberania do seu território. O entendimento entre os dois soberanos passava, também, por um casamento de Estado: D. Constança, poderosa dama castelhana, veio desposar o príncipe herdeiro da coroa portuguesa, esse D.Pedro, terrível e popular, grande amante da caça e de folguedos que, mais tarde, desenvolveu um feroz apetite de vingança. Se as datas estão correctas, Inês teria quinze anos quando viajou para Portugal, no séquito de Dona Constança, que chegava precedida de maus augúrios: tinha sido preterida por Afonso XI de Castela a favor de Maria de Portugal e era mais velha do que Pedro. Este, insatisfeito e obcecado – já tivera uma má experiência com Branca de Castela a quem repudiara por esta ser enfermiça e, ao que se diz, débil mental - dirigiu toda a sua energia para Inês, “colo de garça”, que personificava o ideal juvenil do amor/paixão. Por ela, Pedro dulcificou-se, abandonou gestos mais brutais, tornou-se elegante e delicado, como muito bem faz notar Agustina. Na corte e no reino – tudo se sabe e os amantes não são discretos – instala-se um ambiente erótico. É praticamente impossível que Constança não se tenha apercebido das intenções amorosas do marido e talvez por isso tenha escolhido Inês para madrinha do infante D. Luis – que morreu ainda no berço – criando um laço de parentesco que, de acordo com os costumes, afastava Inês de Pedro. O rei, ciente do desenrolar da paixão do filho e preocupado com a influência da família Castro, mandou retirar Inês de corte e desterrou-a para Albuquerque, entregando-a aos cuidados de uma tia; mas Pedro não esqueceu Inês e talvez a imposição do pai tenha até contribuído para lhe exacerbar a paixão. O que se sabe é que Dona Constança morreu de repente – de peste ou de tuberculose – deixando o campo livre aos amantes. Poderiam ter vivido felizes para sempre mas a história não quis que fosse esse o desenlace. Morta Constança, Pedro correu a resgatar a sua amada, instalando-a primeiro, bem perto dele, entre a Lourinhã e Moledo. É preciso não esquecer que Pedro cumpriu o seu dever como “esposo” e que, de Constança, teve uma filha, D. Maria, e o futuro rei D. Fernando. Por esse lado, a dinastia estava assegurada, não por muito tempo, como se sabe. E não deixa de ser irónico que a famosa dinastia de Avis tenha sido iniciada por D. João, que também era filho de D. Pedro e de Teresa Lourenço, também galega, como Inês. Dos filhos desta, nenhum chegou a subir ao trono.

Sabe-se que entre 1346 e 1352 Pedro e Inês viveram juntos, discretamente, e que nasceram três filhos. Mas a crescente influência dos Castros incomodava a corte, o rei e até o povo, que amava o príncipe mas nada queria com Castela. As lutas de sucessão, as ameaças de guerra civil, as contendas entre nobres poderosos teriam, inevitavelmente, de encontrar uma vítima sacrificial. A peste negra que assolava o reino e o receio de que os filhos de Inês pudessem fazer perigar a sucessão de D. Fernando, contribuíram para um clima de instabilidade que ajudou ao convencimento do rei D. Afonso, por parte dos seus conselheiros, Pedro Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco, de que era necessário eliminar Inês. No dia 7 de Janeiro de 1355, os carrascos levaram a cabo os seus sinistros propósitos e assassinam a dama, perante o pavor dos filhos que, segundo consta, assistiram a toda a cena. Na tragédia “Castro” de António Ferreira (1587) a descrição desta cena é terrivelmente dramática: Inês pede clemência a D. Afonso, em nome dos filhos – “esta é a mãe dos teus netos” – e invoca o amor, e só o amor, como causa da sua união com Pedro. Diz Camões: “estavas linda Inês posta em sossego/ dos teus anos colhendo doce fruito/ naquele engano d’alma ledo e cego / que a fortuna não deixa durar muito.” (Canto III dos Lusíadas). A felicidade de Inês – certamente já casada com Pedro – a sua juventude, o amor pelo marido e filhos não poderiam durar num ambiente hostil. A brutalidade deste acto enlouqueceu Pedro e perturbou um reino. Ao subir ao trono, o novo rei de Portugal não hesitou no cumprimento da vingança. Pedro Coelho e Álvaro Gonçalves foram executados com brutalidade, os corações arrancados. Diogo Lopes Pacheco o terceiro carrasco, amigo de infância de Pedro, conseguiu fugir. D. Pedro fez transladar os restos mortais de Inês para Alcobaça e corou-a rainha com grande pompa. Mais tarde, durante o Romantismo, já em pleno século XVIII desenvolveu-se a ideia de que o novo rei obrigou os nobres a beijarem a mão descarnada de Inês morta, como preito de vassalagem à mulher que realmente reinou sempre, no seu coração.
“Até ao fim do mundo”: a epígrafe, gravada nos túmulos finamente cinzelados de D. Pedro e Dona Inês em Alcobaça é o testemunho do desejo desse encontro no dia do Juízo Final que continua hoje tão vivo como naquele dia. Dia após dia até à consumação dos séculos, os dois amantes imortais, para sempre jovens, para sempre apaixonados, para sempre belos, para sempre obcecados um pelo outro, permanecem na imaginação popular e nas palavras e obras dos artistas.

O MITO DE INÊS:
São precisos os poetas para que os mitos se afirmem. Garcia de Resende foi quem primeiro recordou Inês, no “Cancioneiro Geral”, que inspirou Camões. Este, no passo que lhe dedicou nos “Lusíadas”, conta a história, dentro do melhor espírito renascentista, enaltecendo a figura de Inês, a sua inexcedível beleza – e é preciso lembrar que Beleza, nesses tempos, correspondia também à perfeição e elevação moral – e ligando-a a uma iconografia pagã que a situa como uma “ninfa”, sacrificada em nome de razões de Estado. A inscrição da figura de Inês num espaço determinado – Coimbra, o Mondego, a Quinta das Lágrimas – e o facto de D. Pedro a ter coroado rainha após a sua morte, conferem-lhe uma dimensão dramática e uma autoridade únicas. É verdadeiramente o nosso grande poeta que coloca Inês no panteão régio, o lugar onde ela vive como um ser excepcional, belo, erótico, selvagem, desejado por D. Pedro, pelo Rei e pela sua Corte, num universo de histórias de “encantar”.
O relato alastrou para além fronteiras com a ajuda dos espanhóis. Foi decisiva a publicação de “Historia General de España” (1601) de Juan de Mariana , rapidamente traduzido para inglês. Os franceses, através de Houdar de la Motte – “Inês de Castro”, (1723), Victor Hugo – “Inês de Castro” ( 1853 ) e Henri de Montherland – “La Reine Morte” (1942) traduzida para alemão, inglês e castelhano - foram muito afectados pelo fenómeno. Só em italiano foram identificados cento e vinte seis composições musicais e para ballet. Em pleno século XX (e XXI) encontramo-la em poemas de Natália Correia, Fiama Hasse Pais Brandão, António Ramos Rosa, Ruy Belo, João Miguel Fernandes Jorge e Nuno Júdice e na prosa de Agustina Beça Luís, António Cândido e João Aguiar.

Há 650 anos, morreu Inês. O tempo passou mas a sua imagem, permanece.

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