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A Ótica do Guarda-Livros e a Fazenda de Dona Nonoca

Por André Francisco Pilon

 

Imagem: Suling Wang - "Untitled", 2004

Dona Nonoca, pouco familiarizada com questões de terra, herdara uma fazenda do avô, encontrando grandes dificuldades para administrá-la, criada que foi em grande cidade.

A gleba estava relegada ao Deus-dará, plantava-se pouco, pouco se colhia, a criação não ia bem, as galinhas, empoleiradas umas sobre as outras, minguavam, doentes de fazer dó; ovo que é bom quase nada e da horta nem se falava. Dona Nonoca dispunha-se mesmo a vender a gleba ao primeiro que aparecesse, para saldar as dívidas do inventario.
Até que um dia alguém lhe segredou: Dona Nonoca, a senhora é solteira, não tem ninguém por si, o que lhe faz falta é um bom guarda-livros, que controle receita e despesa e dê um jeito nessa gente preguiçosa que vive às suas custas, enquanto a senhora padece. Dona Nonoca não achava bem assim, pensou e repensou, até que um dia, por instâncias de terceiros, resolveu por anúncio em jornal: "Precisa-se de guarda-livros honesto e competente, para gerir pequena fazenda. Salário a combinar. Cama e comida no emprego. Participação nos lucros".
Parecia muito convidativo, pensava Dona Nonoca, que estava mesmo disposta a jogar sua última cartada: ou vai ou racha. Não tardou muito e apareceu "seu" Eusebio, sujeito bem apessoado, falante mesmo, logo pondo defeito aqui e ali, esclarecedor: "É por isso que a fazenda não vai para a frente. Amanhã mesmo cuido disso. Mesmo que tenha que fazer empréstimo em banco. Não se preocupe mais com isso, a senhora vai ver".
E Dona Nonoca viu: no dia seguinte, entre a azáfama das assinaturas de contratos e promissórias, o pessoal antigo (que, desde o tempo do avô, cuidava das coisas), foi sumariamente dispensado; seu Eusebio dizia que era preciso gente nova, de sua confiança. Cortava-se aqui, enxugava-se lá, as galinhas foram erradicadas (para quê ovo caipira?), investiu-se em herbicidas e praguicidas e toda uma parafernália agrícola, enfim era precisa modernizar. A parte melhor das terras (onde havia mata virgem), acabou sendo vendida para saldar compromissos assumidos e equilibrar as contas.
Dona Nonoca, coitada, ficou apenas com o pouco de terra restante, comprometido pela erosão e vossorocas, onde nada medrava, a não ser um capim ralo, que até a criação rejeitava. Em nome da contenção das despesas, uma sobrinha que vivia na fazenda foi para uma cidade próxima, em busca de trabalho, passando a morar em pensão, não podendo continuar seus estudos. Mas Dona Nonoca parecia, em parte, satisfeita e dizia às amigas: "Nada mais de credores à porta, as contas estão em dia".
O pessoal antigo sofreu, é claro, foi para a periferia das cidades circunvizinhas e até mesmo da Capital. Muitas da crianças do povoado, às quais Dona Nonoca dispensava especial atenção, agora estavam ao Deus dará, tinham abandonado a escola e buscavam sustento para suas famílias em atividades errantes em centros urbanos, abordando os motoristas nos cruzamentos de tráfego, para vender doces, limpar os vidros dos carros e ganhar alguns trocados com os diferentes malabarismos que aprendiam nas ruas.
Dona Nonoca visitava um, visitava outro, queixava-se de que não tinha trato com a gente nova, pessoal da confiança de "seu" Eusébio (o guarda-livros). Mas a vida é assim mesmo, o homem põe e Deus dispõe. Teria havido outra solução? indagava aos mais chegados. Não, não parecia que houvesse, afinal "seu" Eusébio sabia o que fazia, tinha seus estudos econômicos, era bem conceituado nos círculos financeiros e entre os políticos locais. As pessoas a ouviam e procuravam não contrariá-la, ela parecia conformada, para que aborrecê-la ainda mais?
Com as coisas nesse pé, nada mais se comprou, nem tampouco se vendeu. Seu Eusebio achava mesmo que não compensava investir mais no que sobrara da fazenda, terrinha de nada, infértil. O que chamava a atenção era, contudo, o progresso do guarda-livros: carro importado, "segurança" para acompanhá-lo e impor respeito, mansão feita por arquiteto da Capital, mordomo e várias secretárias para atender quem o procurava. "Mas como o senhor consegue tanta coisa?" indagava Dona Nonoca.
A resposta era sempre a mesma: “equilíbrio entre receita e despesa, nada mais do que isso, Dona Nonoca”. Mas os empréstimos que o senhor faz? “Veja bem a senhora, eu sou simultaneamente devedor e credor, não vou cobrar de mim mesmo, o sistema me dá garantias”. Dona Nonoca admirava-se, mas preferia calar a boca, por considerar-se incompetente nesses assuntos, até que um dia a verdadeira estória veio à tona: uma parente afastada, que morava na Capital e que não via há muito tempo, indagou: "Nonoca, você sabe quem comprou a melhor parte de sua fazenda?"
Dona Nonoca sabia que era pessoa apresentada pelo "seu" Eusebio. "Ora, Nonoca, trata-se de primo-irmão dele, testa de ferro de uma "holding" que ele mesmo controla". Dona Nonoca ouviu mas não perguntou o que era uma "holding", afinal sabia que ultimamente estava meio surda e, por outro lado, não queria passar por ignorante (além do mais, por que buscar confusões em águas em que não navegava?) Apenas suspirou e, resignada, disse que o que estava feito estava feito, não tinha mais contas pendentes, a não ser com Deus, quem sabe e isso era o que importava.
E aqui terminaria a estória de Dona Nonoca, hoje já falecida e esquecida. Quem quiser que conte outra. O leitor provavelmente contaria outra, em que Dona Nonoca teria prosperado, quem sabe. Mas como essa estória está para ser escrita, sugiro algumas alterações: Dona Nonoca não contrata nenhum guarda-livros, mas se reúne com os credores e o pessoal da fazenda, em busca de soluções compatíveis com o bem-estar e a prosperidade de todos. Conversa vai, conversa vem e eis que empregados, credores, pessoas da comunidade e até políticos se interessaram pela questão. E acabou dando certo.
A sobrinha de Dona Nonoca não precisou buscar trabalho fora, tornou-se “agente comunitária"; as crianças voltaram a freqüentar a escola local, participando de projetos solidários e cooperativos, que abrangiam desde os mais jovens até os mais idosos, visando a promoção da saúde, educação, cultura e qualidade de vida. Mercê da educação artística e musical, as pessoas não ficaram mais a mercê das novelas televisivas e dos programas de entretenimento de massa; nas reuniões comunitárias resgatavam tradições e o folclore, instrumentos e danças típicas. Os mais jovens também aderiram, torcendo o nariz ao milionário mercado sonoro das corporações de negócios.
A população, antes tão vulnerável à propaganda, resgatava sua auto-estima, assumindo o seu próprio projeto de vida;. a rádio local incluiu programas e novelas com roteiros que expressavam a vida e o trabalho de todos. Hortas comunitárias, com produtos orgânicos, disseminavam-se pela região, as aves voltaram aos terreiros, saudáveis e felizes, as “raposas” do consumo não encontraram mais guarida em incautos galinheiros. Ninguém mais se envergonhava de criar galinhas ou de beber limonada caseira, os ovos eram consumidos e não mais vendidos para comprar refrigerantes.
Políticos passaram a sondar Dona Nonoca: não estaria ela interessada em candidatar-se como vereadora? Ou quem sabe mesmo, deputada federal? Mas Dona Nonoca servia o cafèzinho (orgânico) e os despachava em seguida. O que ela fazia não dependia de qualquer projeto de lei ou programa de governo. Dona Nonoca achava que os problemas contemporâneos assemelhavam-se a bolhas em um caldeirão efervescente, os verdadeiros agravos estavam em seu bojo, alimentados pelas opções políticas e econômicas vigentes.
Quando se falava no neo-liberalismo, ela dizia que todos estavam rezando pela mesma cartilha, resgatava-se um anarquismo às avessas, por que, pelo menos neste, valores básicos e práticas democráticas repeliam a dominação e a espoliação mútua e incentivava-se a cooperação, a produção em escala humana, a descentralização política e econômica, o respeito ao ambiente natural e construído, o que não observava nos atuais grupos que pretendiam a hegemonia por esse mundo afora.
No atual sistema de coisas, graças aos media e à propaganda, mais e mais produtos seriam oferecidos pelo mercado, às custas do ambiente e da sustentabilidade. No estertor das últimas horas, diante do “salve-se quem puder”, nada restaria para os produtores e consumidores egocêntricos senão a desolação. Sim, Dona Nonoca tinha lá sua ilustração, preservava a biblioteca que herdara do avô, com ensaios e obras da literatura mundial: “Dona Nonoca, será que a senhora tem algum livro do Guimarães Rosa?”
Sim, ela tinha Guimarães Rosa, Machado de Assis, Émile Zola, Dostoievski, John dos Passos, Montaigne, Shakespeare, Cervantes e muitos outros. Aqueles que diziam “isso não enche barriga”, logo se curvaram às evidências. Alguns jornalistas que se interessavam por uma melhor qualidade de vida foram à fazenda de Dona Nonoca e publicaram matérias sobre seus projetos, reproduzidos até no exterior. Dona Nonoca passou a ser tida como pessoa de profundo e notório saber, digna de um prêmio Nobel; em seu diário, compartilhado com os mais íntimos, um dia ela escreveu:
“Qualidade de vida, direitos humanos, ambiente físico e social dependem de políticas públicas que privilegiem não apenas aspectos políticos e econômicos, mas fatores culturais e educacionais, a construção de um campo ético comum; de nada servem as prescrições legais na ausência de um universo ético e cultural, deixando de ser aplicáveis em contextos desfavoráveis de vida. Direitos humanos englobam condições para uma vida plena, acesso ao que há de melhor na herança da humanidade, educação, cultura, arte, beleza, criatividade, convívio, tranqüilidade e paz”.
Dona Nonoca valorizava seu “patrimônio humano”, a fim de que a confiança entre os que com ela conviviam não fosse abalada pelos aproveitadores de sempre. Emprestava de bom grado a quem precisasse e era contra a usura, investia nas pessoas, em quem confiava; sem confiança, dizia, nada vai para a frente. Se tivesse alguma laurea acadêmica, diria que a confiança mútua (em nossos dias indelevelmente abalada), era a pedra-de-toque e a principal portadora das relações e direitos humanos.
Dona Nonoca não dispunha de segurança pessoal, nada temia, vivia entre amigos e admiradores incondicionais e sua vida se prolongou por muitos e muitos anos, durante os quais jamais abriu mão da esperança. Por ocasião de sua passagem desta para melhor, a população local dedicou-lhe o seguinte epitáfio: “Aqui jaz Dona Nonoca, virtuosa criatura, amou a Deus e ao próximo e todos a amaram. Repouse em paz”.
E o que aconteceu com “seu” Eusebio? Ora, dispensam-se comentários e quem quiser que conte outra. Esta é a estória de Dona Nonoca, benemérita e reverenciada senhora, que nos lembra os bons tempos em que caráter e compaixão eram apanágio obrigatório das pessoas bem formadas. Talvez muitos não apreciem esta segunda versão da estória de Dona Nonoca e prefiram a primeira, por razões que só eles poderiam justificar...

André Francisco Pilon: Professor Associado do Departamento de Prática de Saúde Pública, da Faculdade de Saúde Pública, da Universidade de São Paulo (atual); Psicólogo Judiciário da Vara da Infância e da Juventude da Comarca de S. Paulo, S.P., Brasil (1965-1980). Diretor-Responsável e articulista da revista Academus - BLISSN 0001-4230 - (1958-1976).
gaiarine@usp.br

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