Imagem Sem Título, 1994-95
Helena Almeida é, desde há muito, reconhecida no circuito internacional das Artes Plásticas. Mas foi a partir da exposição antológica no Centro Cultural de Belém, em 2004, (Lisboa)que foi possível reconhecer como um todo, o trabalho desta artista ímpar. Agora, está na Bienal de Veneza deste ano, como representante oficial de Portugal. A escolha, da curadora Isabel Carlos, não constitui surpresa, uma vez que Helena Almeida tem um trabalho de reconhecida importância, em todo o mundo. Há cerca de trinta anos que esta mulher, elegante e discreta, se dedica a explorar, através das suas fotografias, desenhos, filmes e vídeos, questões essenciais da Arte e da vida: de que matéria somos feitos? Como habitamos o nosso espaço? Como se relaciona o corpo com o universo que o rodeia? Qual a essência de um gesto? Quais os nossos limites? O que é que procuramos? Como é que, através da arte, é possível uma fuga, uma libertação?
Não é fácil chegar ao âmago das imagens de Helena Almeida, embora se crie uma empatia com elas. São, naturalmente, “belas” mas há algo misterioso e inquietante que cumpre a função de obra de arte. A artista que utiliza o seu próprio corpo – ou partes dele – para nos transmitir algo, não é totalmente clara. Formalmente, o efeito é espectacular. Mas é importante olhar com atenção e curiosidade.
O trabalho de Helena Almeida é extremamente original e, por isso, as referências e influências não são óbvias. Ela emerge na cena artística dos finais dos anos setenta, ao mesmo tempo que Marina Abramovic (n. 1946 em Belgrado), por exemplo. É possível encontrar pontos tangenciais entre o trabalho destas duas artistas mas Abramovic tem utilizado uma violência explícita e masoquista nas suas “performances” e na então chamada “body-art”, que está ausente em Helena Almeida. Mas tão pouco a utilização do próprio corpo a aproxima de artistas como Robert Mapplethorpe ou Cindy Sherman, que têm usado o auto-retrato como meio de expressão.
Nota: Esta entrevista aconteceu no intervalo das filmagens que o Canal Arte está a levar a cabo, sobre Helena Almeida, a sua personalidade e obra e foi publicada na revista ELLE portuguesa.
Helena Vasconcelos – Está na Bienal de Veneza, este ano. Como é constituído o trabalho destinado a esta exposição e como é que se insere, em termos gerais, na sua obra?
Helena Almeida - A exposição que levei à Bienal de Veneza tem o título geral “Intus” posto pela comissária Isabel Carlos. O trabalho é constituído por 12 peças inéditas, executadas em 2005 e vêm no seguimento do meu trabalho anterior, sobretudo do vídeo “A experiência do lugar”II, de 2004, que esteve exposto na BesPhoto, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Trata-se de uma proposta muito seca e simples e com isso espero ter aumentado a sua intensidade e densidade. Também vai estar presente o mesmo vídeo que já referi.
H.V.- Desde os famosos “Desenhos Habitados” dos anos 70 – que são uma marca, uma espécie de “manifesto” do seu percurso artístico – o que é que mudou?
H.A. Tenho feito um longo percurso, é um longo processo de trabalho. Actualmente já não se trata de pôr em questão a pintura ou o desenho. Agora estou sozinha com o meu corpo posicionado no meu atelier. Será que tudo mudou?
H.V. – A exposição no CCB, em 2004, foi absolutamente marcante. O título que escolheu – “Pés no Chão, Cabeça no Céu” – poderá funcionar como um testemunho que desvenda simultaneamente a sua condição de mulher, de mãe, de “ser no mundo” e a sua aspiração de transcendência de artista?
H.A. De facto o título da exposição “Pés no Chão, Cabeça no Céu” é da autoria do Delfim Sardo que foi o comissário dessa exposição. É um título lindo justamente porque, como diz, abrange essa dualidade de mãe e mulher – de pés no chão e de sonhadora – de cabeça no céu.
H.V. - É possível dizer que, para si, a passagem do desenho à fotografia – e vice-versa – foi um processo espontâneo, natural, quase orgânico?
H.A. Passei para a fotografia através do desenho. Foi o desenho dos fios (colagens de fios de crina) que me obrigou à necessidade de ser fotografada. Queria pegar no fio com os dedos, para demonstrar que a linha no papel se tinha tornado sólida, se tinha libertado do papel, podia ser sentida com os dedos, entrava por nós, pelas nossas casas, e só através das fotos isso podia ser exprimido e representado.
H.V. – A Helena é reivindicada pelos chamados estudos femininos como uma mulher-artista. Sente-se confortável com essa proposição? Será porque existe, no seu trabalho, uma espécie de elegância, uma sofisticação misteriosa, um equilíbrio entre a pureza das formas e uma violência discreta?
H.A. Não sei. Eu vejo-me, e vejo os outros colegas meus, sem género feminino ou masculino, ou melhor, vejo-os com uma sensibilidade hermafrodita. Nos homens encontro a mesma sofisticação, mistério, violência, pureza. Quando olho para trabalhos sem conhecer o artista, raramente deduzo, ou me interessa, se é homem ou mulher.
H.V. – A perturbação criada pelos seus trabalhos terá a ver com a constante tensão que coloca entre o público e o privado, o interior e o exterior, o conteúdo e a forma, o volume e o traço, a cor e a sua ausência, a presença e a fuga, o real e o sonho, a sensualidade e a espiritualidade, a carnalidade e a transcendência?
H.A. Esta pergunta é tão completa e invasora que não sei o que dizer! Talvez que essa perturbação se deva a que as pessoas, com as suas emoções se possam identificar com os meus trabalhos; talvez porque coloco o meu corpo propositadamente neutro, envolto em roupa larga, e sempre (ou quase) sem a minha cabeça.
H.V. – Creio que existe uma componente renascentista – neoclássica – em muitas das suas obras. Os torsos, os membros, o derramar de formas – a cor ou o negro a invadirem o espaço com uma carnalidade própria – dão uma ideia “monumental” ao corpo humano. Concorda?
H.A. Concordo em absoluto! Por exemplo, em muitos dos meus trabalhos dos anos 70, em que eu apareço a segurar o fio e a caneta, olhando para o espectador, a pose lembra a dum auto-retrato de um pintor renascentista, com os seus utensílios na mão.
H.V. – Numa entrevista disse que o processo artístico é uma forma de “sair de si própria” e que “em todo o caso já conseguiu escapar-se pela ponta dos dedos”. Quer dizer que a arte, para si, é um perpétuo questionamento em relação à sua pessoa e ao mundo, às suas experiências e à vivência dos outros?
H.A. Sim, quis dizer isso mesmo. A arte para mim continua cheia de mistério e todo o questionamento que dantes me parecia grandioso, agora parece-me mais ingénuo. Actualmente, trata-se essencialmente de exprimir as minhas limitações com a maior intensidade que me for possível.
H.V. - O conceito de “sedução” está presente em muitas das suas obras – para além de dar título a uma série. Qual é a sua opinião sobre o tema? É algo que faz parte do processo artístico? O artista é um sedutor, seduz tão completamente… ou… existe uma componente irónica, um certo “piscar de olho” ao “voyeur” – ou “voyeuse” – que existe em todos nós?
H.A. Acho que sim. Creio que todo o artista tem uma componente de sedutor, mas muito ambígua, com muito sarcasmo à mistura, é como se dissesse: aceitem-me assim, como eu quero que não me aceitem.
H.V. – O seu trabalho está relacionado com outras disciplinas, envolve-as e integra-as, fornecendo novas pistas. Existe um diálogo constante com a arquitectura, a dança e a poética, por exemplo. É uma relação propositada?. É importante para si?
H.A. Acertou em três das disciplinas que mais me interessam: dança (teatro-dança), arquitectura e poesia. São de facto muito importantes. Faltam, no entanto, a música e o cinema que, para mim, são vitais.
H.V. – A fotografia fornece-lhe um suporte perfeito com o seu contraste de negro e branco, os complicados matizes de luz e sombra, as infinitas colorações de cinzento. Que eu me lembre, só permite que sejam o azul e o vermelho a invadirem esse universo? Porquê?
H.A. De facto só usei essas duas cores. A razão é porque foi absolutamente necessário. Tinha de as introduzir e só podiam ser essas – o azul relacionado com o espaço, o vermelho com o peso e o luxo. Não precisei de outras, pelo menos até agora.
H.V. – A Helena Almeida é reconhecida em todo o mundo como uma artista extremamente original que manteve o rumo da sua pesquisa à margem de “modas”. Será porque existe em si uma convicção profunda, que aplica na execução constante do seu trabalho?
H.A. Acho que existe em mim uma convicção profunda do que gosto de fazer e, talvez por isso, tenha um projecto de trabalho tão meu e tenha consciência que, de facto, ele é original. Quer se goste dele ou não, vem de dentro de mim.
Nota: a 51ª Mostra da Bienal de Veneza acontece entre 12 de Junho e 6 de Novembro de 2005. Pela primeira vez, em 110 anos de história, a direcção artística da exposição internacional – para além das representações de cada País –será repartida por duas pessoas: as espanholas Maria Corral e Rosa Martinez. Estão apresentadas obras que cobrem um espaço de tempo bastante alargado, dos anos 70 do século XX, até hoje.
Helena Almeida nasceu em 1934, em Lisboa, onde vive e trabalha.
Estudou Pintura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Começou a expor na década de 1960, realizando a sua primeira exposição individual em 1967, em Lisboa. Desde então, tem exposto em diversas galerias e museus, destacando-se o Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, Lisboa (1987); Fundação Serralves, Porto (1995); Casa da América, Madrid (1997); CGAC; Santiago de Compostela (2000); Drawing Center, Nova Iorque (2004); Centro Cultural de Belém, Lisboa (2004). Participou em diversas Bienais, de S. Paulo (1979) a Sidney (2004), passando por Veneza (1982), Istambul (1997) e Santa Fé (1999), entre outras. Está representada num grande número de colecções particulares e públicas, portuguesas e estrangeiras. (
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