Duas mulheres: uma, escritora, poeta, filósofa; a outra, fotógrafa e designer compuseram um livro em conjunto - "Sílabas de Água", Ed. Ver o Verso
Ana Marques Gastão entrevistou-as: Palavras e imagens numa dança do desejo
*Ana Marques Gastão
"Sílabas de Água" , com poemas de Maria João Cantinho e imagens de Ana Calhau, é o primeiro livro de uma nova colecção de poesia da editora Ver o Verso. Trata-se de Palavras sem Idioma, dirigida pelo professor e ensaísta Rui Magalhães.
Maria João Cantinho (n. 1963), poeta, contista, ensaísta e crítica, é formada em Filosofia, sendo a sua tese de mestrado, "O Anjo Melancólico" (Angelus Novus, 2002), centrada na obra de Walter Benjamin . Professora do ensino secundário, colabora em diversas publicações, entre as quais o jornal de poesia Hablar/Falar de Poesia e a revista Storm (online). Recebeu uma menção honrosa no Prémio Revelação de Poesia, da Associação Fernando Pessoa, com "Abrirás a Noite com um Sulco".
Ana Calhau (n. 1967), designer e fotógrafa, licenciou-se em design de comunicação. Concluiu o mestrado em Comunicação com uma tese sobre o Branco. Agenciada da Who, pertenceu à equipa da Proto Design e da Criativa Design. Participou em diversas exposições. Publicou, com Eduardo Prado Coelho, "DIA POR AMA" (Texto Editora, 2004), poemas e ilustrações.
Maria João Cantinho
Ana Marques Gastão - Mundo e sílabas são palavras que nos seus poemas, acompanhados pelas imagens de Ana Calhau, remetem para a improbabilidade do ser, a alegria e fugacidade do amor, a perda e o estilhaçamento. Este livro surge como uma dança da escrita?
Maria João Cantinho – Uma dança com a escrita e com a vida, com o que ela tem de mais improvável e mais radical. Uma dança com as imagens, também, numa procura inquieta da beleza. Afinal a beleza dir-se-ia o que está sempre à beira da perda, tanto no amor como na alegria. Há um outro aspecto relacionado com o desejo de recapitular o que já não pode ser vivido. É uma celebração da luz que se extingue, uma celebração do desejo, que se procura tão tranquila como a água que corre, nesse sentido múltiplo da metáfora.
AMG - Reproduzindo o gesto de Orfeu que ao olhar Eurídice a perde, o poema surge voltado para “a intimidade do seu eterno nascimento”. Nesse movimento, de que fala Blanchot, escreve?
MJC – Gosto muito de Blanchot e a minha ideia de escrita parece confinar-se com o que ele nos deixou nos seus ensaios magníficos. Creio que Sílabas de Água confirma esse gesto de “olhar para trás” e de petrificação da vida. Nessa alegoria concentra-se a vida íntima e o fulgor do instante, despertado pelo olhar do leitor que o perpetua. Sim, o poema é, não só o olhar que desperta a vida íntima do acontecimento, pelo reconhecimento da rememoração, mas também o que permite a eternidade presente desse acontecimento. Nesse sentido, a escrita contém sempre uma dimensão salvífica.
AMG - A mulher-árvore pode fazer reflectir sobre a contingência, o tempo e a sua passagem?
MJC – Há um movimento duplo que está contido nesse poema: reconhecer a fugacidade, a passagem do tempo, mas também a ideia de uma eternidade. A mulher permanece, prisioneira da sua condição, refém da eternidade, olhando o desaguar da vida, impassível. É um poema estranho, até para mim. Há uma impotência no seu olhar e, não obstante, uma aparente tranquilidade e sabedoria, que lhe advém dessa observação impotente.
AMG - Há, em Sílabas de Água, uma suspensão do real que instaura um onirismo, esse “saber-sonhado” tão benjaminiano...
MJC – A minha escrita contém, sem que eu perceba porquê, uma dimensão marcadamente onírica, embora não se confunda com qualquer espécie de surrealismo. É antes um plano onde sonho e realidade se cruzam, numa atmosfera nocturna e de um silêncio que se deseja absoluto, para que o canto do mundo, tão secreto, possa ser ouvido. O real, disperso, cheio de distracções e solicitações, não nos deixa ouvir esse canto. As imagens lindíssimas da Ana também acentuam esse onirismo, essa suspensão do real. Não são imagens do real, mas interiorizadas, nocturnas. Ela acompanha esse “saber sonhado”.
AMG - Por onde passa o traço melancólico do seu livro. Vai do perigo da queda, à morte, ao êxtase delirante?
MJC – A melancolia nasce do reconhecimento de que tudo se encontra votado à morte. De que tudo vive nesse limiar do perigo. O êxtase delirante ou o comprazimento do melancólico é o de lutar por compreender a vida íntima disso que já se sabe perdido, de ver nas cinzas o que foi a vida plena, o fogo do ser, para parafrasear Walter Benjamin. A minha escrita não poderia deixar de ser melancólica, nesse sentido amplo. “Escrever a exacta travessia da noite” ou as “mãos” que estiveram tão próximas do improvável. E o poema, do mesmo modo que assinala a perda, celebra a vida que houve e é nessa antinomia que dança a melancolia do poema e de todo o livro.
AMG - Sílabas de Água é um livro onde ecoa o canto das mulheres. O pensar é sexuado, a escrita dir-se-ia sexuada?
MJC – Não tenho preconceitos em relação a isso. Claro que a escrita, o pensamento e a sensibilidade são sexuadas. E ainda bem! Sílabas de Água não pode deixar de ser feminino porque reflecte a minha condição no mundo: mulher, escritora, com uma sensibilidade e um olhar peculiares. Há muitos poemas onde o feminino é assumido como voz, mas isso não significa menos universalidade. Recusa, por exemplo, um dos poemas mais fortes e que as mulheres dizem gostar, apela para uma resistência da mulher contra o que a impede de ser aquilo que é e a torna grande, livre e plena. E isso é universal. Em Sílabas “ecoa o canto das mulheres”. Sendo uma escrita sexuada, não se restrinje especificamente à condição feminina.
AMG - Até que ponto o seu lado ensaístico e poético se tocam?
MJC – O ser humano é polifacetado. Sente, pensa, imagina. A minha poesia é um outro lado da ensaísta, quando não cingida às regras da escrita ensaística, ainda que, mesmo assim, não ache essas regras tão rígidas. Existe, em mim, uma pulsão incontrolável para a escrita, que extravasa a escrita ensaística que se torna insuportável se não a exerço. No ensaio, essa inquietação não existe nem tão pouco existe o livre jogo da imaginação que confere esse onirismo à minha escrita. O lado ensaístico, ainda que igualmente inquieto, é muito mais luminoso que o poético.
Ana Calhau
Ana Marques Gastão - Há um diálogo de ilusão e alusão entre as palavras de Maria João Cantinho e as suas imagens. O seu trabalho passa muito mais pela sugestão velada do que por aquilo que agudamente se descortina?
Ana Calhau - Sem dúvida. Esse diálogo é propositadamente velado e enigmático e por isso prefiro apelidar o meu trabalho de “imagens” em vez de “ilustrações”. Na realidade trata-se, não de criar paisagens físicas que ilustrem de forma concreta as palavras da Maria João, mas sim de as prolongar, de criar como que um segundo ambiente que, não interferindo violentamente com o primeiro, possa ser lugar de respiração, de prolongamento ou de corte absoluto. A lucidez cortante ou a suave opacidade dos poemas sugeriram-me zonas de sombra, processos menos visíveis e mais hipnotizantes. Foi o caminho da luz à sombra que mais me interessou.
AMG - Há sempre uma zona de impossibilidade intransponível entre o textual e o visual. Nunca houve a preocupação de legendar, mas de acompanhar, desocultando?
AC - De certa forma penso que aquilo que é impossível só o é porque assim o decretamos (para além do “eu posso”), mas entendo a intransponibilidade de que fala. Neste trabalho, tentei não a interdição à leitura palavra/imagem, mas a criação de uma certa distância entre ambas. Tem a ver com aquela história de estarmos tão perto que não conseguimos ver. Por essa mesma razão quis estabelecer alguma distância e suscitar a sensibilidade do desejo e a multiplicidade dos olhares. Desocultar seria ultrapassá-lo, não o quis. A mera legendagem das palavras significaria desonestidade para com a poesia quando ela é, para além de tudo o mais, uma linguagem da inteligência.
AMG - Há um laço conceptual que, em Sílabas de Água, se cria, formando uma realidade outra?
AC - Existe uma outra realidade que é contaminada por uma série de pequenas realidades: a minha aproximação pessoal à forma como a Maria João escreve, à velocidade que por vezes impõe e à crueza a que nos obriga tornou-se num laço conceptual. A Maria João não guarda as palavras no espírito, como dizia a Marguerite Duras, trá-las na boca. Isto não é um conceito que nos una mas é algo em que somos, de forma quase animal, semelhantes. Tudo o resto aconteceu naturalmente e deu origem a esta terceira realidade que são as Sílabas.
AMG - Palavra e imagem convergem, não num processo mimético, mas numa simbologia. Que as conduziu nesta escrita a quatro mãos?
AC - Que pergunta tão difícil… elas de facto convergem e acabam por criar uma simbologia, mas penso que não existiu um encaminhar visível nesse processo. Tem a ver com a consciência de ambas da possibilidade de desmultiplicação de realidades. Um símbolo é sempre uma realidade que existe como representação de uma outra, isso está patente. O facto de a Maria João ter confiado plenamente no meu trabalho, deu-me total liberdade. Quis, entretanto, criar uma distância entre mim e a palavra para que a imagem pudesse nascer sem grandes artifícios. As quatro mãos fundiram-se em duas, no livro e na intersecção de dois trabalhos: palavra e imagem.
AMG - A feminilidade das autoras é estruturante neste livro?
AC - Não penso que seja estruturante, mas está presente e ficou vincada, não numa patética fragilidade a que se costuma associar a feminilidade, mas na forma como determinados conteúdos surgem: gritados e não ignorados, acontecendo de dentro para fora e de forma urgente. Nas palavras como nas imagens: não existe medo de gritar palavras, tal como não existe receio de criar determinado tipo de imagens. A dor é a parte mais feminina deste livro.
AMG - Considera o seu trabalho, nesta obra, uma forma de escrita?
AC - Não, talvez porque também escrevo. É óbvio que, em termos quase pedagógicos, existem ligações taxativas: a imagem é uma forma de comunicação e por isso uma forma de “escrever” para os olhos de um qualquer receptor mas, não considero, nem neste nem em nenhum dos meus trabalhos de ilustração que o lado visual seja uma forma de escrita. A escrita é uma necessidade violenta de tentar expressar o que não se sabe dizer ou até sentir. A imagem também, mas a imagem não sabe o que escrever, não chega sequer a pensar numa frase ou numa palavra porque não tem possibilidades de as chegar a ter. Em Sílabas de Água, as imagens são pensamentos obscuros - não falam nem escrevem.
AMG - Associa a palavra desejo com a sua obra, quer na área da fotografia, quer do design?
AC - Plenamente. O desejo é o que está antes de. É, como dizia Blanchot “a distância tornada sensível”. Sensibilizar, induzir, tocar essa distância é sempre o mote. Mas há diferenças. Eu faço fotografias como quem pinta ou desenha, manipulo-as e tento apanhar aquela zona em que “não há nada para ver”, porque está cheia, como todo o vazio está cheio, e isso interessa-me. Algumas das imagens que faço são fotografias, outras são partes delas, outras ainda têm traços desenhados por cima. São variações que se revelam no caminho. Nesse caminho toca-se o desejo.
*Ana Marques Gastão é poeta, crítica literária e jornalista cultural do Diário de Notícias. É autora, entre outros, de Terra sem Mãe (2000), Nocturnos (2002) e Nós/Nudos sobre pinturas de Paula Rego (2004). Edições da Gótica.
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