Tavares, José Luís, "Agreste Matéria Mundo", Ed. Campo das Letras, Porto, 2005.
O poeta é um sismógrafo que detecta, regista as mínimas oscilações; vê aquilo que ninguém mais pode ver, não que seja um iluminado em sentido órfico, mas porque há nele uma clarividência amarga e triste, e uma secreta intimidade com as coisas e os seres.
"Agreste Matéria Mundo", o segundo livro de poesia de José Luís Tavares, confirma a qualidade literária e a densidade de um poeta seguramente reconhecido, aquando do seu primeiro livro Paraíso Apagado por um Trovão, pelo prestigiado prémio da lusofonia “Mário António”. E encontramo-nos, inequivocamente, diante de uma voz pujante e de grande originalidade, que não teme o diálogo com os grandes mestres da poesia, exibindo, assim, um admirável domínio formal.
Estranho é que tal obra passe despercebida ao olhar da crítica vigente, demasiado ocupada com o seu umbigo. Apetece dizer um lugar comum: o de que a poesia é universal. E que a verdadeira vocação crítica é a de reconhecer a amplitude da voz, diagnosticando-lhe igualmente a diferença da tonalidade, e não apenas focando a sua atenção na familiaridade poética.
Paraíso Apagado por um Trovão, o primeiro livro deste poeta jovem que nasceu em Cabo Verde em 1967, celebrava, pela rememoração poética, a vivência da infância, evocando os seus vestígios auráticos. Já nesse livro, o domínio poético, é preciso não esquecer que se tratava de um primeiro livro, era surpreendente, tanto pela sua depuração como pela recusa dos clichés poéticos. Senhor de uma linguagem invulgar, José Luís Tavares brinca com a música e com as palavras, destila uma voz caudalosa, que irrompe através de uma imagética fortíssima.
Neste livro Agreste Matéria Mundo, a que António Cabrita chamou uma “prova de fôlego com 220 páginas”, os vestígios são outros, outro é o modo como estabelece a relação com o objecto poético. À partida, o título sugere-nos o inóspito território, pensa-se na secura da terra, a “secura” simbólica da existência humana, também. Abre-se o livro e damos de caras com a epígrafe de Adorno: “A esperança habita sobretudo nos que não encontram consolação”. Não é só um pessoano desassossego que aqui nos afronta, em a “Deserção das Musas”, mas uma descida mais visceral:
“Glória?!Deus?! – Tangíveis signos/
da voragem; espectros que a insónia/
corrói e, agora, cabisbaixos, disputam/
o vazio que antes o sentido iludira.”(17)
Atestar o desamparo e a ausência do sentido, do Absoluto e da Verdade. Veja-se o poema “O tempo, esse verdugo” (p.99):
“Ensinou-nos Sócrates, o ironista,/
os malefícios da verdade. Como nos/
ensina a dor a espada do viking,/
o machado sumério, ou o arado de Caim.”
Atente-se, ainda, no irónico poema “Adágio”, p.122,
“A verdade/
-mania de filósofo senil/
ou poeta emborrachado.”
Denúncia dos idealismos, apresentação de um mal-estar essencial constituem o magma desta obra, conferindo-lhe a luz de um sol negro que brilha sobre as encostas da melancolia. Relembro aqui o ensaio de Schiller sobre a diferença entre a poesia ingénua e a poesia sentimental. A poesia ingénua é aquela que postula uma relação harmoniosa com a natureza e forma com ela uma unidade originária. Pelo contrário, a poesia sentimental, a dos modernos, advém da consciência de uma unidade perdida e só se pode colocar numa posição de aspiração a essa unidade originária. A poesia de José Luís Tavares insere-se nessa segunda categoria, a da “poesia sentimental”. Daí que ela surja como auto-consciência, distância e reflexão, desencanto.
Um certo cinismo, talvez, que lhe advém dessa clarividência amarga e triste, e da secreta intimidade com as coisas e os seres. Mas um cinismo que é amenizado pela ironia (e também neste aspecto José Luís Tavares nunca descamba na paródia fácil) e podemos dizer, assim, que a ironia é para o poeta a sua consolação metafísica.
Não lhe é alheio o uso de uma linguagem conceptual, já que a formação de José Luís Tavares é a filosofia, mas se a usa, privilegiando o uso de vocábulos difíceis e acasalando-o com a trivialidade da experiência e mesmo, cruzando com a linguagem rasteira, não se deixa arrastar para o exercício estilístico e retórico, literário. Há, nos seus poemas, uma modulação de um canto que está atento ao rumor do mundo e do pormenor mínimo. Atento também às vozes poéticas de Rilke, de Ruy Belo, de João Cabral Melo Neto, Manoel de Barros, com as quais dialoga constantemente num exercício metapoético.
José Luís não tem medo de assumir as suas influências poéticas, exibindo essa incorporação alheia em modo de homenagem generosa e atenta. Porque, nessa incorporação, José Luís Tavares já transformou o seu alimento em linguagem própria e voz original. E essa é a marca da poesia, a sua concentração essencial na criação de uma voz poética singular e irredutível.
“Só podemos ver aquilo que vemos”, diz o autor num poema intitulado “Variação sobre um Dito” (p.89), abrindo com uma epígrafe de Cioran, bem reveladora: “não se vê impunemente nas trevas; não se extrai delas ensinamento sem perigo”. É bem esta dimensão do perigo da linguagem e da experiência que se oculta em Agreste Matéria Mundo. A poesia de José Luís Tavares está neste “rente à experiência”, tomando-a no seu negrume essencial. O esvaziamento existencial e da linguagem, a recondução a um dizer que quer fazer “gaguejar” a língua, fazê-la “balbuciar”, reconduzindo a poesia ao perigo de soçobrar nessa desarticulação. “Só podemos ver aquilo que vemos” exprime uma pobreza essencial e que é a condição humana, tomada no seu sentido rilkeano. O que nos é dado a ver é a experiência possível, não o ideal, o incompreensível, as “trevas”. Por isso, a recusa do lirismo ingénuo é o princípio operatório desta poética, sendo o perigo constante. O poeta diz-nos assim, na última estrofe desse poema:
“Eu, aprendiz da ciência da vertigem,/
é pelo leve vínculo da cegueira/
que desço aos pressagiados abismos.”
Por isso, com José Luís Tavares aprendemos que a vida é uma irreversível despedida, e que a poesia, mais do que vão lamento, é a sua celebração derradeira, numa “luz concebida para a morte”.
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