Arquivo


Kavafis, o pathos visceral de Alexandria

Por Luis Graça

 

Imagem: David Hockney, "In an Old Box - The Cavafy Suite", 1967

“When he left, I found, in front of his chair
a bloody rag, part of the dressing
a rag to be thrown straight into the garbage
and I put it to my lips
and I kept it there a long while
the blood of love against my lips”


“The bandaged shoulder” (1919)

“Tradutor, traidor”. É o que se diz. E muito bem. Toda a tradução, por mais sublime que seja, é uma traição. Encarando a língua grega como tal, ou seja, para mim é verdadeiramente grego, não me posso pronunciar sobre a traição grego-português.

Assim, declaro-me à partida incapaz de usufruir verdadeiramente da poesia de Kavafis, que considero mais adaptável à língua inglesa do que à portuguesa. Experimentei Kavafis em italiano e espanhol e o inglês liga melhor com Kavafis.

Quem é Konstantinos Petrou Kavafis? Apenas mais um poeta que canta o amor e busca inspiração nos clássicos greco-romanos. Numa luta incessante entre dois extremos, o Eros e o Pathos, sob o manto diáfano de Alexandria.

Tal como Oscar Wilde, Walt Whitman ou Rimbaud, profundamente enamorados do corpo masculino. Os poemas de Kavafis são um tanto à medida das “Leaves of grass” de Whitman. Cantam os viris afectos.
Kavafis canta o corpo masculino do langor e da pureza imaculada, ao mesmo tempo o corpo da luxúria. O corpo desejado, quase sempre inalcançável, o corpo que se perpetua no sonho e nas memórias. Como se habitasse uma Cantiga de Amigo ou uma gesta de cavalaria.












Em “Túmulo de Iassés” (p.63), está bem patente a paixão da carne associada a um Destino funesto, como é timbre das tragédias gregas. A grandeza e o esplendor de braço dado com a tragédia.
Mas em “As coisas perigosas” (p.43) os prazeres da carne redimem-se no ascetismo e o espírito triunfará.
Em “Fui” (p.51) podemos dizer: “Aqui há Wilde”. Atente-se: “(...) fui para dentro da noite iluminada/ E bebi dos vinhos fortes, tal/como bebem os denodados do prazer”.
E toda esta luz, que contraria um lado sombrio muito forte e bocagiano em Kavafis, refulge num poema que transpira bagos de Sophia de Mello Breyner Andressen. Em “Mar da Manhã” (p.49) a luz invade-nos a alma:
“ (...) De um mar da manhã e de um céu sem nuvens/roxas cores brilhantes e margem amarela; tudo/ belo e grande iluminado (...)”.

Kavafis é dialéctica pura. E até poderia citar o filósofo grego: “Um homem não pode tomar banho duas vezes no mesmo rio”. E se ama a beleza como qualidade maior do intrinsecamente Humano, despreza e teme com horror a velhice. Confronta os seus fantasmas da “velhice miserável” com o tempo deleitável da beleza, força e eloquência (“Um velho”, p.73).

Cidadão da cidade das ideias, está afinal em pé no primeiro degrau da paixão carnal. E a glória é o prazer físico, num eterno jogo de pingue-pongue entre um SMS aos deuses e um recado manchado de piri-piri gravado de raspão no voice-mail dos Apolos adolescentes. Que sabem a Mediterrâneo e têm corpos de onde cai, em pétalas, o sal do Desejo.

Kavafis é o “menino da mamã” com tesão de fogo, que frequentava, como um vampiro escondido na neblina, os bordéis bissexuais do bairro Attarine, enquanto um criado fiel cobria a retaguarda, não fosse a progenitora irromper pelo antro de devassidão.











Kavafis é o escritor que oferece os poemas aos amigos e se considera independente por não ter best-sellers na manga. Mas se os seus poemas sobem ao Olimpo das ideias, Kavafis sabe ter os pés assentes na terra e estriba-se numa cobardia pragmática para poder viver um emprego “9 às 5” que não o empurre para um exílio em Capri.
Pois não é ele o poeta dos “versos assaz audaciosos”, que faz “circular muito às escondidas, claro” ?

Kavafis é o menino que viveu sete anos em Liverpool (1873-1879), entre os 9 e os 16, que sonha com as noites cosmopolitas de Londres, abraçando o smog para fugir ao tédio castrador e à pequenez cosmopolita de Alexandria. Uma Alexandria que se lhe colou à pele como uma alergia de quatro estações.

É o poeta que sabia poisar nos cafés da Rua Misalla mas falhou a estátua de bronze na “Brazileira” ou a mesinha composta no “Martinho da Arcada”, com vista para o “flagrante delitro”.

O poeta perfeccionista das rimas ou dos versos livres, que suga a Antiguidade Clássica no rasto de Alexandre e se deixa órfão do Islão e do Ocidente, para desgosto de Yourcenar.

O poeta da luta constante entre Amor e Sombras:
“(...) assim no enleio/hei-de ter visões/para que venham do Amor/para que venham as Sombras”. (“Para que venham”, p.101).
O poeta que eterniza o lamento de um estranho e dual coro grego de uma só pessoa: o homem e o seu alter-ego poético; o cidadão alexandrino e o literato.
O poeta que se lamenta por ter embarcado a sua vida numa ética que lhe atormenta “a beleza das atracções perversas”.

“(...) Não é improvável/que esta sua vida/em escândalo nefasto/o vá levar (...)”. Está na página 119, em “O 25º ano da sua vida”.









Na sua desgraça, o poeta consegue encontrar, mesmo assim, a recompensa das memórias e alimenta-se delas como se constituíssem um leite materno de todas as seguranças.
“ (...) a única coisa que me salva (...)/ é ter sido meu por dois anos Tamides /o jovem mais delicioso (...)”. Em “Dentro dos Tascos”, página 121.

A Alexandria licenciosa cobrou tributo na subderme de Kavafis, mas sem lhe permitir entregar-se desbragadamente ao prazer e “sair do armário”.

Kavafis é o poeta do Tempo e da sua reflexão. O Tempo é o carrasco cruel, que tritura a juventude e corrói a Beleza, despojando de sentido um ideal do Homem.

O carrasco que destrói o “belo, sentimental, a atractiva beleza de um sonho” (“Cesárion”, p.57), o “adolescente alto e perfeitamente belo, alegria da incorruptabilidade nos olhos, cabelos negros perfumados” (“Um Deus deles”, p.59), o “estético rapaz, com o seu sangue jovem e quante” (“Passagem”, p.67).

E se o Tempo aplana a estrada para a Morte, nada mais natural que a poesia de Kavafis se contorça em exercícios de estilo nos túmulos. De Lanes, Iassés, Lissias, Eurion ou Endimion.

A poesia de Kavafis é, pois, ainda e sempre uma despedida. Um eterno retorno aos deuses do amor e da morte, como em “Dias de 1903”, na página 71:

“Não voltei a encontrá-los --- esses tão depressa perdidos...
esses olhos poéticos, esse pálido
rosto...no anoitecer da rua...

Não os encontrei mais ---aos adquiridos inteiramente por acaso,
que tão facilmente deixei;
e que depois com ansiedade queria.
esses olhos poéticos, esse pálido rosto,
aqueles lábios não os encontrei mais”.

Luís Graça, 9/6/2005

[VOLTAR]