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Machado de Assis e seus (poucos) leitores

Por Adelto Gonçalves

 

OS LEITORES DE MACHADO DE ASSIS: O ROMANCE MACHADIANO E O PÚBLICO DE LITERATURA NO SÉCULO 19, de Hélio de Seixas Guimarães. São Paulo, Edusp/Nankin Editorial, 510 págs, 2004, R$ 42,00. E-mail: edusp@edu.usp.br

Para quem escreveu Machado de Assis (1839-1908) em sua época? Para bem pouca gente, se levarmos em conta que, na passagem do século XIX para o XX, os alfabetizados correspondiam a apenas 18% da população brasileira, dos quais apenas 2% eram capazes de comprar e ler livros. Então, a quem se dirigiam os narradores machadianos em sua obessão de diálogo com um hipotético leitor? Quem eram seus poucos leitores contemporâneos e quais seus gostos e hábitos de leitura? Quais as reações às obras no momento de sua publicação?
Foi para responder a essas e outras questões que Hélio de Seixas Guimarães, professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, escreveu Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no século 19 (São Paulo, Edusp/Nankin Editorial, 2004), sua tese de doutoramento apresentada em 2001 ao Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Guimarães dividiu seu trabalho em três partes. Na primeira, procurou estabelecer os destinatários empíricos da obra machadiana, analisando documentos para recuperar o contexto intelectual e cultural da época. Depois, tratou do leitor como construção ficcional de Machado de Assis, analisando textos ficcionais, embora também se valesse de textos não-ficcionais, como resenhas dos romances machadianos publicadas à época de seu aparecimento. Já a terceira parte constitui um anexo com as citadas resenhas.
É de lembrar que a crítica, tradicionalmente, dividiu a obra de Machado de Assis em duas fases — a primeira, com romances quase didáticos e pedagógicos, que vai até Iaiá Garcia (1878); e a segunda a partir de Memórias póstumas de Brás Cubas (1880) em que o autor adota uma postura mais direta e agressiva em relação ao leitor. Como lembra Guimarães na introdução, várias explicações para essa virada já foram elaboradas, desde a hipótese biográfica proposta por Lúcia Miguel-Pereira, que viu na ascensão social do mulato Machado de Assis na sociedade escravagista do século XIX, em torno de 1880, a razão pela qual o autor se sentiu seguro para criticar a classe à qual acabara de chegar, até a de Roberto Schwarz, que viu na atitude machadiana um adeus à ilusão de que a abolição da escravidão traria também o fim das iniqüidades sociais. Como se sabe, muitas dessas inqüidades sociais persistem até hoje, mais de um século depois.
Sem contestar nenhuma dessas explicações, Guimarães procura mostrar que a decepção de Machado de Assis com a classe dirigente e com o país abrangeria também a sua relação com os leitores. “Uma das mudanças mais notáveis de Iaiá Garcia para Memórias póstumas”, diz Guimarães, “tem a ver com o tratamento dispensado pelos narradores aos leitores e com o nível de exigência de leitura e interpretação a que estes, os leitores, são submetidos pelos romances da chamada segunda fase”.
O autor lembra que Memórias póstumas de Brás Cubas inaugura um modo de elocução para o romance brasileiro, colocando-se “a léguas de distância do tom submisso”, por exemplo, de Joaquim Manuel de Macedo em O moço loiro, de 1845, que ainda se dirigia “às senhoras brazileiras”. Essa diferença fica explícita na maneira como Machado se dirige a um leitor que não sabe quantificar: “O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco”.
Para Guimarães, o romance machadiano em seu conjunto, em razão da exigüidade de público-leitor, dramatiza a inviabilidade de um romance popular, no molde europeu, modelo perseguido pelo escritor nos seus primeiros livros. Ou seja, o autor teria chegado à desoladora conclusão de que o que escrevia pouca eficácia poderia alcançar em razão do limitado círculo de leitores a que o livro estava destinado.
Mas, segundo o crítico, ao transformar a frustração de expectativas em matéria de sua produção ficcional, Machado de Assis não estava apenas colocando sua obra em pé de igualdade com a melhor produção de sua época como ainda antecipava questões que só seriam incorporadas aos estudos literários muitos anos depois.
Diz o crítico que, a partir de Memórias póstumas de Brás Cubas, o que houve na carreira de Machado de Assis foi uma reorientação de seu projeto, já que uma dupla percepção, por parte do romancista, teria produzido essa correção de rota: a de que o melodrama e a ficção popular inglesa e francesa, nos quais os escritores brasileiros da época se espelhavam, não prestavam para descrever a sociedade brasileira da segunda metade do século 19; e que, obviamente, não havia no Brasil um público numeroso para sustentar uma ficção popular, tal o dramático número de analfabetos na população. Sem contar que o Brasil era essencialmente um país rural: os centros urbanos eram ainda muito reduzidos em comparação com as metrópoles européias.
Ao pesquisar textos escritos sobre a obra de Machado de Assis “no calor da hora”, ou seja, no momento em que seus livros saíam a público, Guimarães também detectou um grande interesse do escritor pela recepção de sua obra, “o que se expressa de maneira mais visível na forma de advertências, prefácios e notas ao leitor, e também na crítica a outros escritores e na correspondência com amigos e com o editor B.L Garnier”.
Ocupando 40% do livro, as resenhas recolhidas pelo professor em jornais da época e livros mais antigos servem também para dar uma visão do que pensavam da obra de Machado de Assis os seus contemporâneos, ao mesmo tempo em que deixam entrever o que discutia e lia a elite pensante da sociedade carioca oitocentista. Por tudo isso, este livro constitui uma grande contribuição aos estudos sobre a obra de Machado de Assis e, portanto, merece ficar ao lado de outras tantas assinadas por machadianos da estirpe de Agripino Grieco, Roberto Schwarz, John Gledson, Raymundo Faoro, Helen Caldwell, Massaud Moisés, Josué Montello, Alfredo Bosi e Sidney Challoub.
Se há algum reparo a fazer a esta obra é apenas com relação a um descuido numa nota à pág. 190 que se refere à motivação patriótica que teria levado Machado de Assis a atribuir o nome de Brás Cubas a seu protagonista como uma homenagem ao velho Brás Cubas do século 16, “fundador da cidade paulista de São Vicente”. A bem da verdade, quem fundou São Vicente foi Martim Afonso de Souza, sendo Brás Cubas considerado o fundador da vizinha cidade de Santos.
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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

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