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Pintura de palavras achada num alfarrabista

Por António T.

 

Imagem: Kasuo Wakabayashi, "Ocre", 1976


"Copiava o homem, na manhã de vento, a memória da casa. Para o rosto era ainda cedo. Estavam fundo, muito trémulos, os traços. Tivera o cuidado de não começar pela cozinha, que era a zona mais escura. E já que reservava para o rosto as tintas mais claras, tentaria um início pelo candeeiro de petróleo, ou pelas brasas do grande ferro de engomar, ou ainda pelo gato, que miava, aflito, saudoso de regaço, no telhado da mansarda. Subiu-lhe então a dor no braço, reacendendo o medo e adiando o desejo do rosto e do desenho. Foi em vez deles, retirante, esboçar mais longe uma igreja cheia de ervas, de onde veria a casa e estaria perto do rio, com salgueiros debruçados, numerosos. Também com um rabisco de gato, na contra-luz da água , a encrespar o dorso, solitário e triste, sequioso de regaço, num telhado de mansarda. Pintou entretanto uma longuíssima fita de estrada e no fundo dessa fita uma torre a perfurar o céu. Estariam no longe dessa estrada as cores breves do sabor das maçãs e um último rubor do sol a lampejar nos vidros das janelas. Voltou-lhe, insidiosa, a dor no braço. Não se deteve, o homem. Espalhou na tela as cores do impossível aroma dos pêssegos, que lhe desciam da memória e inundavam a tela, numa chuva forte, porque traziam consigo um temido cheiro a rosas bravas. Susteve-se-lhe a dor no braço, agora reticente, enquanto preparava as tintas para o cheiro da roupa lavada, para o sabão amarelo e para o chão dessa cor. Enquanto tirava da memória riscas escuras para desenhar as frinchas desse chão. E pontos de suave castanho para os infinitos buracos das tábuas. E pó de oiro para as pequenas crateras que delas brotavam. E outras cores para pintar o rumor dos bichos, as rezas que lhes acompanhavam as lavras no interior das madeiras. Foi então que lhe explodiu fervente a dor no braço e lhe saltou louco o coração. Pareceu-lhe, num ínfimo instante, que passava diáfana, a esgueirar-se pela ombreira da porta, num esfumado fundo papo de rola, a sua sombra, a sombra do rosto, do sorriso e do regaço. E também o gato, que feliz a ele voltava, numa pressa, do telhado da mansarda. Depois, vieram de novo os grãos da chuva, fragorosos, inundar no esboço da tela o seu intento. Tampas de lata rufaram-lhe ainda na memória um certo e curto tempo . Muito leve, em seu vestido leve, evadia-se já o fantasma da pintura. Ficava a manhã de vento. Sem assinatura."

António T, Salgueirinha, Agosto de 2005

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