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Desleixo

Por Ana Nobre de Gusmão

 


O meu pai abria a porta do meu quarto todos os dias e espreitava lá para dentro a abanar a cabeça – Ai, Inês, Inês, desleixada por fora, desleixada por dentro – acusava desgostado – Tu não eras assim, filha, fez-te mal o tempo que passaste em casa da tua mãe.
Às vezes eu não respondia, outras deixava cair os braços ao longo do corpo num gesto de fingida impotência - O quarto é pequeno e eu tenho tanta tralha.
- É desfazeres-te de tudo aquilo de não precisas – sugeria ele a cravar em mim os olhos cinzentos – Não vês como eu vivo?
Eu olhava para ele e encolhia os ombros, como se o assunto me ultrapassasse ou fosse irresolúvel.
– Desleixada por fora, desleixada por dentro – repetia ele antes de fechar a porta
sem ter sequer chegado a entrar, sem ter perguntado como tinha sido o meu dia, como tinham corrido as aulas, se estava melhor das dores de barriga
sem uma carícia, um beijo, um olhar meigo.
Nesse tempo, e como era habitual após a fugaz mas intensa incursão do meu pai no meu território, trancava-me na casa de banho, tirava a lâmina de barbear de dentro do armário por cima do lavatório, despia-me, sentava-me na borda da banheira e em gestos rápidos e determinados fazia uma incisão na coxa, depois outra e outra ainda. Aplacada a raiva, a frustração e a culpa com a mutilação do meu corpo, deitava-me dentro da banheira, abria a torneira do duche e deixava-me ficar debaixo de água até ouvir as pancadas secas na porta e a voz severa do meu pai – Despacha-te, Inês, o jantar está pronto.
– Sabes o que o Freud dizia das pessoas que tomam muitos banhos – perguntava ele mal eu me sentava à mesa, a fitar-me com frieza – Tomam muito banho porque se sentem sujas por dentro.
Eu assentia, cerimoniosa e carrancuda, e o jantar decorria como uma linha recta, previsível no percurso, composto, sem sobressaltos. Não sabia ao certo se era amada e não sabia ao certo se amava, mas sabia que estava em segurança e que não precisava de me esconder nem de fugir.
O meu pai era um homem duro, reprimido, mas incapaz de maldade. A austeridade tornara-o reservado em tudo, desde a expressão de sentimentos ou demonstração de afectos, ao modo como vivia. O minimalismo que professava como um asceta, mas sem o sentido da penitência, assentava-lhe que nem uma luva. Como ele, nada lá em casa era supérfluo, vulgar, desnecessário
excepto eu e o meu quarto.
Entrar na nossa sala era como entrar na sala de um museu de design. Cada peça de mobiliário era um depoimento. Não havia revistas ou jornais empilhados na mesa Noguchi, não havia almofadas espalhadas no sofá Le Corbusier ou na otomana Eams, não havia cortinas nem cortinados nas janelas, e o único bibelot era uma jarra Alvaro Aalto onde eu nunca vi uma flor
tudo perfeito, mas com uma total ausência de alma.
Quando voltei para casa do meu pai passei por uma fase em que o meu devaneio recorrente consistia em imaginá-lo a abrir a porta do meu quarto e a boca a escancarar-se-lhe de espanto. “Inês”, exclamava incrédulo, “O que é que aconteceu? Como é possível que o teu quarto esteja assim tão depurado, tão despojado?” E eu responder-lhe-ia, no tom condescendente de quem finalmente entendeu tudo, “Limpei-me por dentro, pai, e o resto aconteceu naturalmente.”
Se não sabia o que significava ser desleixada e suja por dentro, não tinha no entanto a menor dúvida de que o era. Mas como é que o meu pai sabia? Como poderia ele saber o que só eu e o meu padrasto sabíamos?
Ver-se-ia nos meus olhos, como se vê a icterícia? Nas linhas das palmas das mãos? Estariam os meus órgãos podres, rotos, desorganizados ou empilhados ao acaso? Intrigada, apalpava-me na mira de detectar algo estranho, o intestino virado do avesso, o coração fora de sítio, os rins de pernas para o ar, o estômago no lugar dos pulmões. Haveria algum odor peculiar que me traísse? É verdade que do meu corpo exalavam maus cheiros
o hálito por vezes fétido quando acordava, o cheirete a cebola proveniente das axilas, ou o pivete sempre que descalçava os ténis
e os gases, os arrotos e os puns, as fezes
mas, repetia a mim própria sem cessar, se esses cheiros eram comuns a toda a gente, porque é que não se considerava a humanidade inteira
e não apenas eu
desleixada ou suja por dentro?
Teriam os pêlos, que me enojavam e davam vómitos e que eu arrancava com uma pinça mal despontavam, alguma coisa a ver com o assunto?
Uma vez perguntei à minha mãe o que significava ser desleixada por dentro – Quem é que te chamou isso – perguntou ela a franzir as sobrancelhas.
E eu disse-lhe e ela fechou com violência a porta do armário – O teu pai é parvo – declarou indignada – És desleixada, Inês, mas o teu desleixo não tem nada a ver com o tipo de desleixo a que ele se refere, como é possível dizer uma coisa destas a uma criança?
E a virar-se para o homem por quem trocara o meu pai e que era meu padrasto – O tipo é doente – sussurrou entredentes – Nem é por mal, aquele carácter maníaco dele é mesmo doença.
Sem tirar os olhos do candeeiro que estava a desmontar, o meu padrasto abanou a cabeça, silencioso.
– Porque é que não voltas para cá – perguntou a minha mãe numa voz suplicante – Podíamos tentar outra vez, querida, não podíamos?
De gesto suspenso, o meu padrasto fixou em mim o olhar astuto e penetrante do lince a observar a presa
olhar de lascívia, de desejo, de assédio.
Apesar da presença da minha mãe e da mesa que se interpunha entre mim e ele recuei dois passos – Não – gritei – Não quero.
- Mas porquê – perguntou ela exasperada – Demo-nos tão bem os três, não demos, Jorge?
O meu padrasto coçou a cabeça com a chave de parafusos – A Inês está na idade do armário – sentenciou a olhar para mim com um ar vagamente ameaçador – É preciso ter cuidado com o que ela diz, sabes como nessas idades há a propensão para a efabulação e para o drama.
E a inspeccionar a chave de parafusos como se estivesse à espera de descobrir corpos estranhos, caspa, piolhos ou lêndeas – Está pronto o almoço?
Depois dele sair a minha mãe conduziu-me até o velho sofá de molas soltas e forro azul esgarçado, sentou-se ao meu lado, prendeu a minha mão entre as suas e fez-me uma vez mais uma prelecção acerca da entrada na adolescência – É uma fase difícil, sobretudo quando não se aceita ter a mãe ao lado para esclarecer e ajudar no que for preciso – concluiu com amargura.
- Como é que se passa de criança a mulherzinha – perguntei esperançada que aí pudesse estar contida, de algum modo, a resposta à questão que me atormentava cada vez mais.
- Então, querida, com a menstruação entraste num novo ciclo da vida – explicou ela – E não há que ter qualquer receio ou vergonha das mudanças que se operam no teu corpo, faz parte do processo normal de crescimento, todos passamos por
- Isso é por fora – cortei impaciente – E por dentro?
- Por dentro – repetiu ela perplexa – Como por dentro?
– Sim, o que é que acontece dentro do nosso corpo – insisti.
A minha mãe olhou para mim com apreensão – Vou marcar-te uma consulta numa psicóloga – disse a afagar-me o rosto – Ela saberá melhor do que eu como responder às
- Esquece, mãe – ordenei irritada – Não me venhas com essa conversa outra vez. Posso tratar dos meus problemas sozinha.
Mas não podia porque com aparecimento da menstruação a questão do meu desleixo interior tornara-se ainda mais premente e angustiante do que nunca. Seria possível que o tal acréscimo de produção de hormonas acarretasse a tal falta de limpeza nas minhas entranhas? Nunca sangue assim viscoso e escuro saíra de dentro mim e o cheiro agridoce que o acompanhava também era novidade.
- Como é o sangue do teu período – perguntei à Tina, a única rapariga que eu conhecia que apregoava aos quatro ventos que já era menstruada.
Ela olhou para mim surpreendida – Como é, como?
Eu encolhi os ombros e insisti – De que cor é?
- É sangue, estúpida – respondeu ela – De que cor querias que fosse?
Tive vergonha de lhe dizer que o sangue do meu período não tinha essa cor de sangue. De repente pareceu-me evidente que os dedos do meu padrasto
sempre sujos do pó das velharias que obsessivamente montava e desmontava
eram a causa do meu desleixo interior, a razão do sangue podre, a evidência que procurava há tanto tempo.
No dia dessa constatação tranquei-me na casa de banho do meu pai, totalmente revestida de azulejos brancos como as paredes de matadouro, abri a torneira Hansgrohe em cujo cromado me via distorcida, enchi a banheira Philippe Starck de água tépida, deitei-me lá dentro e, sem real intenção de matar-me, cortei os pulsos.

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