Laurent Filipe: Filho de mãe suíça e pai português vê nessa conjugação a resposta ao seu nome de tendências francófonas. Criança viajada, acaba por vir parar a Lisboa no pós-25 de Abril, onde faz também a sua própria revolução. Em vez do cravo, fica o trompete como símbolo. A decisão de ser músico acontece e de novo volta a viajar aos 18 anos. Os EUA apresentam-se como destino. Entre aulas, workshops, concertos, prémios, gravações, colaborações faz-se nómada. De mochila às costas faz os seus dias entre cidades. Lisboa é uma delas.
catarina MedinaDescobriu o trompete aos 12 anos. Como foi?
Laurent FilipeEu andava no Liceu Francês e fazia umas escapadelas entre as aulas, ia para casa de uns amigos, filhos do arquitecto Parrinha, que tinha uma colecção de instrumentos velhos: um clarinete, um trompete, instrumentos de precursão, guitarra, entre vários discos de jazz. Todos nós experimentamos tocar o trompete, mas eu devo ter sido o único que insistiu. É um instrumento difícil e as pessoas normalmente nem se sentem muito atraídas por ele, porque tentam tirar som do instrumento e não conseguem. Eu consegui.
C.M. Quando teve o seu primeiro trompete?
L.F. Tinha aí uns 14 anos. Ainda andei quase dois anitos a dar naquela coisa ferrugenta do arquitecto Parrinha. Depois a minha mãe trouxe-me o meu primeiro trompete da Suiça. Negociei um segundo trompete que veio dos EUA, na antiga Santos Beirão, que era ao fundo da Rua do Carmo, e eu estava muito orgulhoso dele. Fui um autodidacta. Comecei a tocar profissionalmente tinha 15 anos. A minha mãe preocupava-se muito que eu não acabasse o Liceu, mas lá me comprometi com os meus pais a terminar aquilo, partindo do princípio, que aos 18 anos, iria para os EUA ter uma aprendizagem formalizada.
C.M. Qual foi o primeiro tema que aprendeu a tocar?
L.F. Eu aprendi a tocar com discos. Um dos primeiros temas que eu apreendi foi o Moanin’, do Art Blakey. Tocava por cima dos discos. Ouvia o John Coltrane, o Louis Armstrong. Os discos chegavam às discotecas na sexta-feira e quando as aulas acabavam lá ia eu ouvir as últimas novidades à Valentim de Carvalho, na Rua Nova do Almada.
C.M.Que dificuldades teve na aprendizagem do Jazz?
L.F.O problema era a falta de material didáctico e tudo o que chegava cá era logo absorvido e trocado. Acabei por aprender de ouvido. Um professor, muito importante nesse aspecto, foi o Zé Eduardo Conceição e Silva. Foi a primeira pessoa a criar uma espécie de material do ensino do Jazz e a passar isso à malta.
C.M.Quando percebeu que queria ser trompetista?
L.F.Isso foi muito claro. Nunca tive a menor dúvida. Aos 15 anos já sabia o que queria ser.
C.M.O sétimo volume da colecção “Let’s Jazz” do Jornal Público - publicado no dia 7 de Julho - é dedicado ao trompete no jazz e tem um texto inédito de Laurent Filipe. Como surgiu esta participação?
L.F.A iniciativa é meritória, mal paga obviamente. A proposta poderia ter sido muito mais alargada. Propuseram-me fazer a história do trompete, e como tal deveria ter muitos mais nomes. Escolhi os mais emblemáticos, e do ponto de vista académico os mais interessantes. Escolhi músicos que tiveram uma influência na evolução do instrumento, mas que também marcaram uma determinada etapa da música.
C.M.Como foi conhecer o Chet Baker?
L.F.Foi interessante. Na altura, felizmente, também conheci vários músicos. Conheci o Dizzy Gillespie, o Dexter Gordon, o Jay McShann. Conheci-o circunstancialmente em Kansas City, num espectáculo seu, porque uma grande amiga dele, era minha amiga também, que sabia do meu interesse, mais pela obra dele, do que pelo homem e enfim fomos apresentados, tocamos um pouco e trocámos uma ideias. Falámos de escultura, de pintura, e de viagens.
C.M.Como foi sair de Lisboa e chegar aos EUA com 18 anos?
L.F.Aqui não se passava nada, eu estava mortinho por me ir embora. A chegada aos EUA foi fantástica. Foi ao encontro das expectativas que eu tinha. Nós aqui absorvíamos os elementos da cultura norte-americana, através do cinema, da televisão, da música. Mas depois, chegar lá e ter esse impacto directo foi marcante. A primeira coisa que me surpreendeu quando cheguei a Nova Iorque foi a dimensão das coisas. A lógica, tudo era claro, tudo se compreendia. Eu vinha de uma país onde ainda hoje eu não compreendo as coisas. É um país minúsculo e eu passo a vida à procura de sinais, onde é que está a estrada y. Ali não. É um país feito para comunicar. Os sinais estão em letras garrafais. O nosso prosaísmo não se aplica àquela realidade.
C.M.O Laurent é também professor. Qual o seu objectivo?
L.F.O tentar elevar o nível de conhecimento na tentativa de chegar ao que existe de melhor. É isso que eu tento transmitir aos meus alunos e tiro disso prazer quando eles respondem ao meu desafio.
C.M.Foi também professor da Jacinta. Como é que isso aconteceu?
L.F.Eu tinha visto a Jacinta num programa chamado "Chuva de Estrelas". E via o programa, de vez em quando, porque ficava surpreendido com os talentos que apareciam. Dava aulas em casa porque estava pouco por Portugal. Entretanto a Jacinta telefonou-me porque queria preparar-se para ir para os EUA fazer o Mestrado. Eu disse para ela vir lá a casa, tinha bastante material. Ela veio, teve umas aulas de preparação, para poder fazer os exames de admissão. E enfim com todo o mérito dela, com todo o seu esforço, enfim com alguma coisa que eu lhe terei transmitido. Ela não só foi admitida na Manhattan School of Music, como conseguiu uma bolsa para fazer o Mestrado. Essa foi a primeira vitória. Quando ela terminou os estudos, nós entretanto estávamos em contacto e eu tive a oportunidade através do Ruben Carvalho de apresentar um concerto no âmbito de um festival chamado “A cidade e os portos”. Procurava-se uma relação o Jazz e o Fado. E fomos parar ao Blues. E claro à sua imperatriz, Bessie Smith. Convidei a Jacinta para o projecto. Fizemos o espectáculo no CCB, aquilo correu muito bem. O público entusiasmou-se de tal forma que começou a pedir uma gravação. Fomos para o estúdio e foi o êxito que se sabe.
C.M.Prefere o trabalho de estúdio ou o contacto com o público?
L.F.Gosto das duas coisas, mas o trabalho de estúdio é mais interessante na parte de construção. Uma vez que está feito já não me interessa.
C.M. Focando o lado mais pessoal, qual a origem deste nome francófono?
L.F.A minha mãe é suíça. O meu pai é português. Tinha de dar esta mistura. Nasci em São Paulo onde o meu pai estava a montar uma peça de teatro. Depois viemos para a Europa, para Espanha. Depois fui para a Suiça, voltei para Espanha e finalmente para Lisboa, nos anos 70.
C.M. Qual foi a orimeira imagem que guarda de Lisboa?
L.F.Uma cidade muito mais desafogada, bafienta nalgumas coisas, mas onde havia um espaço e um dimensão mais serena. Onde as pessoas ainda se podiam movimentar. Não existia tanta agressão e enfim era um cidade que, sendo pequena, estava mais dimensionada para a quantidade de pessoas que tinha na altura.
C.M.Actualmente, que imagem tem?
L.F.É uma cidade decadente. Lisboa é uma cidade mal estruturada urbanisticamente. É feita por gente que não percebe de urbanismo. Não existem espaços verdes em quantidade suficiente. Tem uma construção absolutamente selvagem. As coisas não flúem aqui. É uma cidade desengonçada. E que está a rebentar pelas costuras.
C.M.E qual é, para si, o lado bom de Lisboa?
L.F.Gosto de Lisboa como turista. Gosto das partes típicas. Da zona do Castelo, de Alfama, que estão agora a recuperar. De Belém. De ver Lisboa do lado de lá, meto-me no barco de vez em quando e vou até Cacilhas. Gosto do bairro de Campo de Ourique. Guardo a boa imagem de Lisboa à noite, muito tarde, quando já está tudo sossegado. E ao fim da manhã de um Domingo.
C.M.Onde sai, em Lisboa?
L.F.Eu gosto de ir a casa dos amigos mas, infelizmente, muitos foram viver para fora de Lisboa. E as pessoas como estão tão cansadas da cidade, já não voltam. Mas vou a sítios como a Barraca, o Hot Clube, ao Speakeasy, ao teatro. Quando há espectáculos vou ao CCB. O último espectáculo que vi foi no Fórum Lisboa, o concerto da Rosa Passos, fantástico, o som.
C.M.Acaba por passar pouco tempo em Lisboa...
L.F.Passo o tempo necessário. Só venho aqui para estar com os amigos. Eu não trabalho aqui. As minhas actividades em Lisboa não me prendem a estar aqui. Felizmente tenho sempre essa visão de alguém que está aqui e ao mesmo tempo fora.
C.M. Considera-se um nómada?
L.F.Tenho tudo em triplicado. Uma casa aqui, outro no Porto e uma quinta. E vou muito a Madrid. Simplifiquei as coisas. Ando sempre com uma mochila. O mínimo de coisas necessárias. E algumas tenho de as ter em triplicado. Sei que existem coisas base, um fato, o trompete, a escova de dentes.
C.M. Quais foram as viagens que mais o marcaram?
L.F.Já viajei muito. Estive na Índia o ano passado e devo lá voltar para o ano. Tenho um projecto com a Fundação Oriente para ir fazer um trabalho com miúdos de rua durante três meses.
C.M.Que livrarias e lojas de discos frequenta na cidade?
L.F.Quanto às lojas de discos estamos limitados, temos de ir à Fnac, a maior parte das vezes. Existe uma loja muito agradável que vende livros e discos, que todos conhecemos, que é a Ler Devagar. Gosto da Barata na Avenida de Roma.
C.M.A que restaurantes vai?
L.F.Ui! São poucos, porque são poucos os restaurantes onde sabem cozinhar. Gosto de tasquinhas. Onde ainda sabem fazer um caldo verde. O Maravilhas, por exemplo, ali em Alcântara. Ou a Esquina da Fé, na Rua da Fé.
C.M. lembra-se de algum disco que o remeta para Lisboa?
L.F.O disco mais emblemático de Lisboa é “O Homem na Cidade” do Carlos do Carmo. Porque é a poesia do Ary dos Santos. É fado, mas um fado mais evoluído, inteligente e estimulante.
C.M.Gosta de cinema?
Gosto imenso de cinema. Sempre que posso vou ver coisas novas. Vi agora a “Queda” e é impressionantemente bom. Ainda ontem o concerto que fiz em Castelo Branco é sobre cinema, onde trabalhei com um VJ. E, com o meu quarteto, fazemos a adaptação de alguns dos meus filmes favoritos. Os do Visconti, do Fellini, do Tornatore, ou os mais emblemáticos, Chinatown, Breakfast at Tiffany's, Driving Miss Daisy. É um espectáculo interactivo. Nós estamos em palco a tocar e há uma pessoa que está a manipular imagens dos filmes, respondendo assim à nossa forma de tocar.
C.M. Quais são os seus projectos de futuro?
L.F.Divido a minha actividade entre a parte pedagógica, que é o alicerce de satisfação pessoal e económico. A outra actividade passa por iniciativas de maior risco, ideias minhas e colaborações. Mas selecciono sempre os projectos, tento ser coerente com o meu percurso. Estou nisto há 30 anos e consegui fazer disto um modo de vida, ninguém enriquece, mas o conseguir não entrar na indigência e manter a cabeça saudável penso já ser positivo.
Agora vou gravar um disco com o Duo Ibéria, que traduz as nossas influências das viagens pela China e pela Índia que conta com o apoio da Fundação Oriente. Já gravei a minha homenagem ao Chet Baker que vou enviar para os EUA, ver se consigo meter aquilo numa editora mais graúda. E estou a desenvolver um projecto ligado à poesia para fazer umas itenerâncias.
- 3 de Julho de 2005
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