Arquivo


Um século de Sartre

Por Helena Vasconcelos

 

Imagem: Jean-Paul Sartre por Cartier-Bresson

Jean-Paul Charles Aymard Sartre nasceu a 21 de Junho de 1905, em Paris, na rue Mignard, nº 13. O pai, Jean-Baptiste Sartre, um jovem oficial da Marinha, estava já muito doente com febres que contraíra na Cochinchina e morreu quando o filho tinha pouco mais de um ano. A mãe, Anne Marie Schweitzer era filha de Charles Schweitzer e prima do famoso Nobel da Paz, o médico e teólogo Albert Schweitzer.

Com a morte do marido, Anne Marie mudou-se com o filho para Meudon, para casa dos pais, tendo a educação de Jean-Paul ficado a cargo do avô. Mais tarde o filósofo comentou o facto de nunca ter conhecido o pai, nos seguintes termos: “Foi um mal, um bem? Não sei; mas subscrevo de bom grado o veredicto de um eminente psicanalista: não tenho Super-ego”. O que ele queria dizer era que, de acordo com as suas palavras, se tornou muito cedo um ser absolutamente livre, senhor das suas escolhas e opções. Apesar da infância não ter sido feliz, uma vez que o avô lhe impunha uma disciplina férrea que o afastou da convivência com pessoas fora do restrito círculo familiar, foi esta conjuntura que o preparou para ser o grande pensador que marcou indelevelmente o século XX. Criança solitária, dedicou-se desde muito cedo à leitura e á escrita, como explicou mais tarde: “...por ter descoberto o mundo através da linguagem, tomei durante muito tempo a linguagem pelo mundo. Existir era possuir uma marca registrada, uma porta nas tábuas infinitas do Verbo; escrever era gravar nela seres novos e essa foi a minha mais tenaz ilusão, a de colher as coisas vivas nas armadilhas das frases...”.
Em 1917, a mãe de Sartre voltou a casar com Joseph Mancy, um engenheiro naval colocado em La Rochelle. Sartre recorda que nunca foi feliz nessa cidade, onde o isolamento lhe pesava e onde diz ter aprendido o “significado da solidão e da violência”. Para ele, o padrasto era um intruso que o obrigava a estudar geometria e outras ciências que não o interessavam. Sentia-se abafado pelas expectativas do avô, pelo amor maternal, pela disciplina que o padrasto lhe impunha, condenado a uma estrutura familiar que o horrorizava. O que lhe valia era a escrita. Mais tarde, em 1964, escreveu As Palavras, onde analisou o significado psicológico e existencial de sua infância.
Aos dez anos ofereceram-lhe uma máquina de escrever e ele não mais parou de “gravar” as suas ideias, servidas por uma extraordinária imaginação e uma cultura cada vez mais alicerçada na leitura. O avô não apoiava a sua determinação em se tornar escritor e desejava que ele estudasse para ser professor uma vez que “a literatura não enchia a barriga de ninguém”. Mas Poulou, como era chamado, depois de ter frequentado o liceu, ingressou em 1924 na École Normale Supérieure, onde se destacou, pelo seu brilhantismo, junto dos seus condiscípulos, entre os quais figuravam Raymond Aron e Paul Nizan. Foi aí, também, que conheceu a futura companheira de toda a vida, a escritora Simone de Beauvoir, que lhe afirmou, desde o início, que “tomaria conta dele”. Foi um momento decisivo. Sartre tinha consciência, desde os dez anos de idade, da sua “fealdade”: era baixo e tinha os olhos tortos, enquanto que Simone era uma mulher intelectualmente à sua altura e fisicamente atraente. Beauvoir, a quem Sartre chamava ternamente Castor, uma das mais importantes fundadoras de um feminismo “filosófico”, nasceu em Paris em 1908, no seio de uma família tão burguesa como a de Sartre. Mas, tal como ele, decidiu desde muito cedo, escolher o rumo da sua vida que incluía “o risco de pensar e de construir a própria obra”; e, tal como ele, terminou os estudos de Filosofia, deu aulas entre 1931 e 1943 e depois da II Grande Guerra dedicou-se inteiramente à escrita. Por seu turno, Sartre ensinou em Le Havre e no Lycée Pasteur, em Paris, para além de ter passado algum tempo em Berlim, a estudar, com uma bolsa do governo francês, os ensinamentos de Edmund Husserl e de Martin Heidegger. Foi aí que começou a redigir Melancolia, um romance que, mais tarde, deu origem a A Náusea (publicado em 1938). De volta à França, publicou, em 1936, A Imaginação e A Transcendência do Ego, trabalhos fortemente marcados pela fenomenologia. Em 1939 foi a vez do aparecimento dos contos incluídos na colectânea O Muro, e do ensaio Esboço de uma Teoria das Emoções.
A II Grande Guerra foi decisiva. Sartre cumpriu o serviço militar nas trincheiras e chegou a ser feito prisioneiro em 1940 – escapou-se de um campo de concentração em Trier, na Alemanha – enquanto Simone lhe escrevia longas cartas. Desde 1930 que mantinham uma troca de correspondência regular – que se manteria ao longo das suas vidas – onde expunham as suas ideias, contavam pormenores do dia a dia e, no conjunto, apoiavam-se um ao outro com uma lealdade indestrutível. A mulher que, em 1949, publicou “O Segundo Sexo”, uma obra incontornável dos estudos femininos, e o brilhante escritor e pensador revelam nessas cartas uma cumplicidade e entendimento extraordinários. Simone mostra-se uma amante devotada, ansiosa por notícias de Sartre, a quem chama “o ser da minha própria vida”. Com ele e para ele fala de leituras e de pensamentos, de filmes e de lugares e também dos seus amantes. Ao longo dos anos, tanto Simone como Sartre tiveram aventuras amorosas mas preservaram a lealdade mútua. Quando a correspondência foi publicada em França, vozes indignadas de feministas da linha dura levantaram-se em protesto contra o que acharam ser a imagem de um deliberado auto apagamento de Simone perante Sartre, acusando-a de hipocrisia por defender a libertação das mulheres, ao mesmo tempo que atribuía a si própria um papel subserviente perante um homem. À luz de estereótipos, é verdade que o casal Sartre-Beauvoir é difícil de ser compreendido. Conheciam-se profundamente, podiam ironizar á vontade em relação a si próprios e tinham um pacto: o seu relacionamento nunca se basearia num hábito. Juraram um ao outro “amor essencial”, guardando a prerrogativa de levarem a cabo “relações amorosas de contingência”.
Entretanto, Sartre consolidou a sua fama e as suas ideias começaram a ter um impacto extraordinário. Baseando-se nas teorias existencialistas de Heidegger e de Karl Jaspers (1883-1969), na fenomenologia de Edmund Husserl (1859-1938) e em Sören Kierkegaard ( o “pai” do existencialismo,1813-1855) lançou-se na sua própria formulação filosófica, que se alicerçava no ateísmo – ele nunca lamentou a “morte de Deus” – e na teoria do “ser-para-si” baseada no exercício da liberdade. Para ele, o ser humano é sempre livre de escolher e é nessa prática contínua que se torna responsável por aquilo que é. Por outras palavras, cada indivíduo não pode apenas “ser” mas tem de exercer a sua liberdade no sentido de “tornar-se” alguém. O “ser-em-si”, limitativo do exercício da liberdade individual e desresponsabilizante, provoca a angústia, a que Sartre chamou náusea existencial. Para Sartre, o “ser-para-si” cria uma autonomia, que dispensa em absoluto a ideia de Deus, inventada pelos humanos para fugirem à responsabilidade. Para ele, era impensável que as pessoas atribuíssem as suas falhas a factores externos como a hereditariedade, o meio ambiente, as pressões sociais, familiares ou políticas e o valor da vida dependeria do sentido que cada um escolhe para si mesmo, recusando a ideia da fatalidade. O humanismo é, portanto, da inteira responsabilidade de cada um de nós e não de qualquer dogma. O que faz o indivíduo é a síntese do “ser-em-si” (o passado) e a perpétua prática do “ser-para-si”, ou seja, a espontaneidade criativa e o exercício do pensamento, projectados no futuro.
Ainda durante a Guerra, Sartre fundou o grupo Socialismo e Liberdade, que trabalhava em estreita colaboração com a Resistência francesa, e escreveu a sua primeira peça teatral As Moscas, cuja acção, baseada numa tragédia grega, servia para exortar os seus compatriotas a lutar contra os alemães. No mesmo ano, publicou um volumoso ensaio filosófico, iniciado em 1939: O Ser e o Nada, obra fundamental da teoria existencialista. Em 1945, com uma nova peça teatral, Entre Quatro Paredes, pôs em cena personagens que vivem os dramas existenciais abordados por Sartre nas obras teóricas. Os romances que escreveu na época, A idade da Razão, Sursis e Com a Morte na Alma, seguem a mesma linha.
Em 1943 Sartre conheceu Albert Camus (1913-1960) que era editor do jornal clandestino Le Combat, o que deu origem a uma amizade que mais tarde se deteriorou e rompeu. Sartre, com a sua inteligência crítica, dura e implacável, de origem burguesa e muito francesa acabou por se incompatibilizar com o intuitivo escritor, de origens humildes, muito ligado à sua Argélia natal. Camus foi impiedosamente atacado por Sartre quando publicou “o Homem Revoltado”, um livro, aliás, aplaudido pela direita e criticado pela esquerda. É oportuno lembrar que ambos foram agraciados com o Prémio Nobel. Camus recebeu-o em 1957 Sartre recusou-o, em 1964. Quando acabou a Guerra, Sartre voltou a Paris e juntou-se aos seus antigos amigos e companheiros. Acalentava há muito a ideia de criar uma revista, pelo o que fundou Les Temps Modernes – uma referência a Charlie Chaplin - juntamente com Simone de Beauvoir, Merleau-Ponty (1908-1961), Michel Leiris, Jean Paulhan, Raymond Aron (1905-1983) e outros intelectuais. Na revista analisavam-se os problemas da época, evitando o sectarismo. Picasso desenhou uma capa – que foi recusada – e um maquetista da Gallimard acabou por criar as célebres letras vermelhas e negras sobre um fundo branco que se tornaram uma imagem de marca. Foram tempos felizes. Ao grupo juntava-se Boris Vian, Raymond Quéneau e Arthur Koestler e a redacção em peso fechava os números no Flore ou no bar Port-Royal, na companhia de Jean Genet. Sartre tinha publicado “O Ser e o Nada” em 1941 e fora alvo de críticas á sua filosofia. Com o início da Guerra Fria as suas posições extremaram-se, colocando-se em rota de colisão com Camus que opunha a Sartre, filiado em 1952 no Partido Comunista – do qual se demarcou, em 1956, no seguimento da invasão soviética da Hungria, em 1956 – as suas ideias anti-totalitaristas que englobavam uma crítica severa ao regime na União Soviética. Como resposta, Sartre escreveu O Existencialismo é um Humanismo, (1946) onde demonstrava o significado ético do existencialismo. No mesmo ano, publicou também duas peças, Mortos sem Sepultura e A Prostituta Respeitosa bem como o ensaio Reflexões Sobre a Questão Judaica, onde defende a tese de que a emancipação dos judeus só será possível numa sociedade sem classes. Em 1948, a Igreja católica colocou as suas obras no Índex e em 1952 assinou um manifesto contra a Guerra-fria, tendo-se também insurgido contra a execução dos Rosenberg. Dois anos mais tarde participou no World Council for Peace em Berlim, tendo visitado a China e a União Soviética – onde se deslocou mais duas vezes – em 1955. A sua oposição à Guerra da Argélia levou-o a criticar duramente De Gaulle, durante um ciclo de conferências que interrompeu para visitar Fidel de Castro, em Cuba, e Che Guevara. Viajou por países da América Latina e defendeu os Direitos Humanos ao lado de Bertrand Russell.
Por essa altura já a sua fama como intelectual, escritor, jornalista, dramaturgo e amante de mulheres estava bem consolidada, reunindo à sua volta, com Beauvoir, um grupo fortemente crítico, ao qual não faltava uma grande dose de snobismo intelectual, embora a luta continuasse contra o pensamento burguês, para dar lugar á “cultura, uma vez que é o único que permite compreender as obras, os homens e os acontecimentos”. Foi á luz da sua própria visão do marxismo que Sartre se juntou às fileiras da revolta estudantil de Maio de 1968. Nesses tempos agitados e românticos ele tornou-se num verdadeiro Papa dos revolucionários.

A figura de Sartre parece ter-se esfumado, nos últimos tempos. A História veio dar razão aos seus adversários como Raymond Aron, (que também nasceu em 1905) cujas ideias em relação ao comunismo o fez afastar-se da “teimosia” sartreana. Depois da adulação de que, entre os anos sessenta e setenta, Sartre foi alvo, o seu brilhantismo foi ofuscado por quem o apelidou de “traidor”, de “falhado”, de “impostor”. Aliás, estes foram alguns dos títulos de um livro dedicado a Sartre – com entrevistas ao próprio - escrita por Jean (John) Gerassi que tem como título “Sartre: a Consciência odiada do seu Tempo”. Sartre detestava biógrafos mas acedeu, num famoso almoço em La Coupole, em Paris, com Simone de Beauvoir, nomear Gerassi, cujos pais eram seus amigos e tinham servido de modelo para as personagens de “Les Chemins de la Liberté”, como seu biógrafo.
Nos anos setenta a sua saúde deteriorou-se, tendo sofrido um primeiro ataque de coração em 1971. Ficou quase cego, o que não o afastou das grandes comoções internacionais como os conflitos no Médio Oriente ou a revolução de 1974, em Portugal. A 20 de Março de 1980 foi hospitalizado com um edema nos pulmões, tendo entrado em coma a 13 de Abril. Morreu dois dias depois. As suas cinzas foram a enterrar no cemitério de Montparnasse, no dia 19 de Abril.
Sartre foi um homem de excessos, de acordo com os padrões contemporâneos. Bebia e fumava e era dependente de anfetaminas. A sua vida amorosa tão pouco lhe dava descanso. Annie Cohen-Solal autora de uma biografia intitulada “Sartre: A Life” (1987) conta que, para além das múltiplas mulheres que o rodeavam, Sartre teve uma paixão duradoura por Dolores Valenti, uma actriz francesa que vivia em Nova Iorque e a quem, segundo parece, chegou a propor casamento. É também Cohen-Solal quem aponta a dedo uma certa ingenuidade por parte de Sartre em relação à esquerda política e as suas inúmeras contradições sem, no entanto, deixar de acentuar a importância da sua luta e do seu pensamento. O homem que viveu um “modelo mítico de conjugalidade aberta”, que não resistia ao encanto feminino, que foi um dos principais inspiradores da literatura moderna, que afirmou que “o inferno são os outros” e confessou a um jornalista que “lutou grande parte da vida por uma sociedade onde não quereria viver” alicerçou a sua grandeza em dramáticas contradições e viveu até ao fim a genial concretização de um pensamento livre.

Texto publicado na revista ELLE portuguesa




[VOLTAR]