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Livros Lidos

Por Helena Vasconcelos

 

Uma ronda pelas livrarias, leituras diversas e alguns apontamentos...

NUNCA ME DEIXES, Kasuo Ishiguro, Ed. Gradiva, 332 págs., € 17,00
O que dizer de um romance tão complexo e poderoso como este? A sua leitura não é fácil. Tratar-se-á de uma metáfora da vida? O espelho de uma geração de crianças super-protegidas que têm de enfrentar agora, completamente sós, um mundo ao contrário do que lhes foi prometido? Um aviso em relação ao avanço das experiências científicas? Uma meditação filosófica sobre a vida e a morte e a importância do ser humano individual? Será isto e muito mais. “Nunca me Deixes” é uma estranha história melancólica, cruzada por uma ironia negra e arrepiante. Kathy, Ruth e Tommy crescem juntos numa escola diferente, elitista e muito específica. É Ruth quem, anos mais tarde, nos finais do século XX, recorda o que foi a sua infância e o tipo de educação que teve. Na sua qualidade de aluna em Hailsham, foi sujeita, tal como os seus companheiros a uma experiência educacional muito particular mas só em retrospectiva é que se apercebe quão estranhos foram o seu desenvolvimento e aprendizagem. A escola era um local fechado, cujas paredes protegiam os seus internos, de uma forma aparentemente idílica, do mundo que os cerca, encorajando a sua criatividade e expressão individual. Tudo indica que a infância das crianças num lugar tão especial terá sido feliz, até mesmo paradisíaca. Foi-lhes incutida a ideia de que são “especiais” e de que as suas vidas desempenham um papel crucial na sociedade. No entanto, o futuro que as espera é mais complexo e, certamente, muito mais sombrio e aterrador. Quando relata a história, Kathy tem 31 anos e confronta-se, finalmente, com uma realidade que abala a sua forma de encarar a vida. Muitas vezes é difícil sobreviver à infância, a um mundo universo que passa num ápice mas que deixa marcas indeléveis.
Ishiguro é um extraordinário autor, um virtuoso da escrita. Tal como em “Os Despojos do Dia” (vencedor de um Booker Prize), consegue tratar de assuntos que dizem respeito a toda a gente – neste caso, os perigos que podem estar inerentes ao avanço tecnológico, a fragilidade da infância, a complexidade dos sentimentos e, não menos importante, a crítica implícita ao universo concentracionário e claustrofóbico de certas “escolas especiais” – de uma forma poética, acutilante e extremamente comovedora.

SÁBADO, Ian McEwan, Ed. Gradiva, 330 págs., €14,90
Henry Perowne é neurocirurgião, vive confortavelmente numa bela vivenda no centro de Londres, tem dois filhos óptimos que não lhe dão problemas – Theo é músico de Jazz e Daisy é uma poetisa a caminho da fama – e continua a amar, profundamente, a mulher, Rosalind, uma advogada bem sucedida. Os Perowne são a prova de que a felicidade existe, de que o sistema democrático e liberal funciona, de que a cultura é um bem adquirido, de que o dinheiro proporciona os verdadeiros luxos: privacidade, conforto, segurança, afectos sólidos. Mas no universo pós 11 de Setembro, em que a guerra e o terrorismo se tornaram ameaças globais, não existe verdadeiramente a certeza da felicidade. A segurança pode ser construída pessoalmente, individualmente mas, “lá fora”, reina o caos. Quando Perowne desperta, na madrugada de um sábado, vê um avião em chamas a atravessar o céu. O resto do seu dia, aparentemente rotineiro, será marcado por essa visão apocalíptica: faz amor com a mulher, joga squash com um amigo, observa uma manifestação nas ruas de Londres contra a Guerra do Iraque, faz o jantar, recebe a filha e o sogro e prepara-se para um serão familiar agradável. Mas as ameaças à sua tranquilidade – na pessoa de Baxter, o delinquente perturbado – tomam a dimensão de pesadelo. Na sua condição de médico que explora o cérebro humano, Perowne sabe bem quão fácil se torna passar da sanidade à loucura, da felicidade ao terror. “Sábado” é a história de um Ulisses contemporâneo, num universo da abundância em que o medo da perda – da vida, do prazer, da segurança – é uma constante.
Nota: Aconselha-se a leitura de outros títulos deste autor, recentemente reeditados pela Gradiva

Goa. O Guardião da Aurora, Ed. Gótica, 346 págs., €18,00
Na trilogia que agora se completa – depois de “O Último Cabalista de Lisboa” e “Meia-Noite ou o Princípio do Mundo” - Richard Zimler tem sabido traçar, como ninguém, a história do nosso País, ou, mais propriamente, uma das partes “incómodas” dessa mesma história. O traço comum destes romances inscreve-se em várias gerações da família Zarco, judeus e portugueses, com a sua trajectória de perseguições, sobrevivência e uma incansável procura, numa diáspora alargada. A acção de “Goa” passa-se, em grande parte, nessa riquíssima cidade, a “pérola do Império”, nos finais do século XVI quando a Inquisição estava em pleno funcionamento e a repressão para com todos os que não abraçassem a fé cristã se desencadeava com intensidade. É um universo descrito com realismo e em que a própria essência do Mal parece dominar tudo e todos. As suspeitas, perseguições, traições, conjuras e repressão feroz contribuem para a criação de um clima de vazio moral e de perigo constante que vai buscar a sua inspiração a “Otelo” de Shakespeare. O mistério que atravessa a trama – o porquê da prisão dos elementos da família Zarco – mantém o leitor em suspenso numa narrativa ágil, reforçada por diálogos e belas descrições. Mas as desventuras de Tiago, a sua provação por terras da Índia, Brasil e Portugal são um exemplo de coragem e determinação, de ricas experiências humanas, de convicções fortes, de um insuperável amor familiar que fazem deste livro uma obra luminosa e redentora.


UM GRANDE SALTO, Nick Hornby, Ed. Teorema, 338 págs., € 16,00
Martin, Maureen, Jess e JJ não se conhecem mas têm algo em comum: a vida atingiu um ponto de não retorno. Os problemas acumulam-se, o dia-a-dia revela-se insuportável: falta de confiança, um filho muito doente, frustrações, vazio. Juntam-se por acaso numa festa de fim-de-ano, com a firme intenção de se lançarem do prédio abaixo. Com humor e irreverência – e também com grande humanismo – o autor conta a história trágica e patética destes quatro seres.

A VIRAGEM DECISIVA, Andrea Camilleri, Ed. Difel, 211 págs., € 13,00
O comissário Montalbano é já figura habitual e típica – com o seu gosto por petiscos, energia inabalável e complicações com as mulheres – nestes policiais em que a trama bem urdida é servida por uma linguagem saborosa e muito sentido de humor. Montalbano sente-se farto e com vontade de pedir a demissão. Mas um afogado atravessa-se-lhe no caminho e a suspeita de tráfico de crianças pelas novas máfias aguça-lhe o engenho. Um tema actual, suspense e muita emoção.

VALETE DE COPAS E DAMA DE ESPADAS, Joanne Harris, Ed. Asa, 375 págs., € 17,00
Ao ritmo de uma sessão de Tarot – com as suas cartas em que o simbólico e o maravilhoso se misturam com a arte e a psicanálise – desenvolve-se a história dramática de Henry Chester, artista vitoriano, congénere dos pré-rafaelitas, fascinado por uma criança que se torna sua modelo e, mais tarde, sua mulher. Um romance “gótico”, estranho e perturbador.

REIS DE PORTUGAL. BIOGRAFIAS, vários autores, Ed. Círculo Leitores. Direcção da colecção de Roberto Carneiro com colaboração científica de Artur Teodoro de Matos e João Paulo Oliveira Costa. Preços variados
É de louvar a notável iniciativa de publicar as biografias dos reis de Portugal. Numa colecção cuidada e bem estruturada, a História do nosso País desenrola-se ao longo de oito séculos, através das vidas dos que a comandaram, melhor ou pior, com mais ou menos força, até à instauração da República, em 1910. De realçar, para já, a biografia de D. Maria II por Maria de Fátima Bonifácio.


EINSTEIN. VIDA E ÉPOCA , Peter D. Smith, Ed. Asa, 206 págs., € 15,00
Este ano comemora-se o centenário da célebre fórmula E=mc2 concebida pelo génio que foi Albert Einstein, um físico prodigioso e uma personalidade fascinante. Trabalhador incansável, humanista e pacifista, o homem que se tornou um ícone – eleito como a personalidade mais importante do Séc.XX pela revista Time – revolucionou por completo a visão do Universo com as suas descobertas extraordinárias que abriram caminho para a era tecnológica em que vivemos. A ciência e a vida nesta obra que integra uma óptima colecção de Biografias.

OS FACTOS DA VIDA, Graham Joyce, Ed. Bizâncio, 355 págs., € 16,00
O pequeno Frank foi concebido em circunstâncias misteriosas pela sua perturbada mãe, Cassie, no tempo incerto dos bombardeamentos a Londres, durante a IIª Grande Guerra. Frank acompanhará a mãe e o resto da família – a que se poderá chamar, no mínimo, “problemática” – de lugar em lugar, de experiência em experiência. Um romance portentoso e poético, brutal e delirante.

O PÁSSARO ESPECTADOR, Wallace Stegner, Ed. Teorema, 282 págs. € 13,00
Joe Allston é um agente literário reformado que, um dia, recorda uma viagem à Dinamarca que fez com a mulher, vinte anos antes. Através da leitura de um diário escrito na altura, o protagonista mergulha em recordações que o levam a questionar as escolhas feitas ao longo da vida, as transformações por que passou e a forma como encara a vida, o amor, o dever para com os outros, as emoções. Comovente e poético.

DOM QUIXOTE DE LA MANCHA, Miguel de Cervantes, tradução e notas de Miguel Serras Pereira, ilustrações de Salvador Dalí, Ed. Dom Quixote, €30,00
No ano em que se celebram os quatrocentos anos da publicação do 1º volume de uma das obras fundamentais da cultura mundial, chama-se a atenção para esta edição em português, ilustrada pelo mestre do surrealismo que conseguiu captar, como poucos, as extraordinárias personagens e ambientes criados pelo grande Cervantes. Este imprimiu um novo fôlego à Literatura – com esta história muito divertida e magistralmente contada - e transformou para sempre a arte narrativa, iniciando, com Daniel Defoe, o género a que chamamos “romance”.


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