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Um Eléctrico chamado Lisboa

Por Catarina Medina

 

Imagem: Mário Eloy, "Lissabon"

Descarrilo pela minha Lisboa num 28 qualquer.
“Havia um homem morado por um cemitério”.
A noite chega aos pedaços, os dos outros, despedaçados pela fome da terra, no mais estranho dos prazeres. Vislumbro pequenas gotas de água que traçam um caminho descendente pela janela carcomida, o pano de fundo é uma igreja nada contestável, polvilhada de pequenas pessoas que num passo rápido procuram o perdão fácil na mais difícil das instituições. E então, revejo-me na sarna dos dias, dos precários bem-dispostos estados de espírito que moram em dormentes minutos no amarelo 28. O meu olhar troca-se com uma rapariga feita de vidro fino, lá fora o Domingos Sequeira pensa em pintá-la de forma doce. A medo, os carris anunciam a chegada à Estrela prometida. A Basílica, de formas arraçadas às do Convento de Mafra, é a minha confirmação diária de que respiro Lisboa. A vontade iminente de premir o botão vermelho e exilar-me nas paredes altas, entranhar-me nelas como um turista qualquer. Mas nunca o faço. A escolha é adiada, não por medo, mas por vontade. O poder, diariamente renovado, de sentir a pulsão na minha carne fresca, o coibir do prazer em prol da continuidade do sonho. Eu não saio, alguém entra. Um homem de tom aristocrático, faces rosadas e bigodes farfalhudos, chupado pelos dias, acaba de chegar da sua pequena volta ao mundo num qualquer jardim. Já é tarde, segreda ao motorista. Por momentos, equaciono a sua vida. A mulher com o jantar quase pronto, deve estar à sua espera, é sempre ele que põe a mesa e que a levanta. Os talheres de prata pesados meticulosamente envoltos no guardanapo de pano bordado com as suas iniciais, os pratos brasonados de porcelana cara, os clássicos e finos copos de cristal. Então como cavalheiro que é, não pode fazer sentir a sua ausência ao seu coraçãozinho. Isso e o suportar diário daquele aparelho que vomita desgraças sempre à hora do jantar, já não suporta a desinformação, prefere o seu Eça de Queiroz. Mas por um sentimento que em tempos já foi parecido com o amor, faz a vontade à sua senhora, ainda gosta de a ver sorrir. Caio na minha vida e deixo a dos outros. Quase a chegar à Torre do Tombo, revejo a minha cidade, arquivada na mais presente memória. Sou um arquivo sem pódio. Não me revejo nas minhas acções, o pano de fundo é esta Lisboa. O denominador comum acontece. A ausência de consciência plena também. Ignoro os alérgicos políticos da próxima rua. Prefiro as verdades das entranhas do 28. A rapariga de vidro segue viagem comigo, no mais singular dos silêncios. Sinto-lhe o medo. E a desgraça que esconde. As mãos cruas denunciam o moer do sentimento. As pontas dos dedos levados na viagem da palma da mão. Com uma força cada vez maior. O desejo de reprimir o pensamento pela dor. Distraio os olhos pelo vidro das janelas, emoldurado em madeira comida pelas horas. Lá fora, anuncia-se a Bica onde reside um velhinho que desce e sobe, como as minhas intermitentes emoções. Dois turistas cor de champanhe, de ar desamparado, sobem o 28. O desgoverno é reforçado pelas dificuldades linguísticas. O motorista, convencido das suas capacidades poliglotas, decide exercitá-las com as pobres almas. A confusão é geral. Mantenho o meu silêncio, apesar de não ter aspirações a poliglota, vejo pela primeira vez, a rapariga de vidro a esboçar um sorriso. Fico muda. Os turistas gesticulam numa tentativa última de consenso. E lá o conseguem a muito custo. Com um manual já mastigado pelos dias longos de visita, os dois procuram o próximo e derradeiro destino. Avistam o Camões e soltam um redondo suspiro. Contrastante com o ânimo do aristocrata. Vai sair e em breve jantar. O dedo guloso faz-se ouvir, ao som do tilintar da campainha num plim estridente. Bruscamente o eléctrico pára. Despeço-me dele. Não me ouve. Salta do transporte numa agilidade estranha, nada própria das suas pernitas secas. À frente anuncia-se o destino do poeta Fernando que espera à porta os turistas. O Chiado. A multidão é uma mancha que pinta a calçada e nela se perde. Entre brasileiras, espanholas, inglesas, etc. De repente ouço em alto e bom som um: “É aqui!” rosnado pelo motorista. Apressados, os desorientados fogem do amarelo. Duas mulheres de ossos largos, portadoras de vozes terrivelmente estridentes sobem com penosa dificuldade os poucos degraus da entrada do 28. Começa a expedição pela Vítor Cordon. O nomadismo de todos nasce na tentação de experimentar a realidade dos outros. Faço-o. Aproximo-me com mestria das duas mulheres robustas. À primeira, sinto que a conheço, uma cara já registada, como quando acontece o reencontro sistemático com os mais diversos rostos que vivem na cidade. É como se fosse forçada a conhecer todas essas fugazes aparições, de tantas vezes que caio no seu sempre especial encontro. Caras que me assaltam as memórias. À segunda mulher, fixo-lhe as mãos, onde o seu poder se encerra, a capacidade da mudança, cansadas pelo cinzento da terra. Conversam sobre o que não aconteceu, mas, para seu bem e da humanidade, deveria ter acontecido, puras suposições de línguas demasiado afiadas, que um dia destes ainda se cortam, para não mais falar. Rapidamente reparam na rapariga de vidro e no seu ar andrógino. Murmuram entre si. A rapariga sente-se transparente, mas nada faz. A palavra morre no silêncio vão, e eu continuo a olhar pela janela indiscreta. As artes inundam-me a vista, os estudantes geometricamente imperfeitos são pequenos pontos de cor no Largo. Também eu fui um ponto na tua vida, um pequeno ponto nas nossas noites brancas, em quartos pagos com o suor quente dos minutos, trespassados pelos corpos. Desculpa a minha ausência. Habitas-me em augúrios e palpitações. Procuro-te nas minhas gavetas, que têm de tudo como nas farmácias, mas nunca te encontro. A decrepitude da noite chega a passos largos, fico imersa na minha fantasia, numa dose saudável de medo. Nunca gostei muito do escuro. Como que a sentir a minha quase doença, o generoso capitão do 28 acende as luzes. O meu corpo acalma, e com ele a minha alma também. Os prédios escuros e gastos, marcados por fios suspensos nas varandas são marca constante da velha Lisboa, onde cada esquina apara os golpes e devaneios, como se de uma espécie de almofada se tratasse. Olho para mim mesma, o reflexo do falso espelho traí-me. Não me adivinho no meu corpo. A imagem que a janela fria me traz não é a minha. Nem a imagem que tenho dela. É sim, uma massa disforme, que não sou capaz de moldar. Por vezes sinto-me num qualquer filme, com os movimentos presos, rígidos e então dá-me ganas de gritar. Como agora, neste silêncio sepulcral, mas acabo sempre por não o fazer. Passo pela Sé catedral, signo da tomada aos mouros e aí preciso de me confessar, de me limpar das crostas abertas que brotam no meu corpo como chagas. O silêncio é cortado por um ai gritante. A minha volumosa cara conhecida acabara de desmaiar, o golpe de misericórdia da coscuvilhice sentenciosa. As mãos, plenas de poder da amiga, auxiliam tamanho desmaio. O sentir daquele corpo quente nas suas mãos revela o enigma da sua sexualidade reprimida. Ela, uma mulher lugar-comum, via-se agora assombrada por sensações desde cedo pisadas. A sua pele fria contra a dela. A vontade de querer ser parte dela, de assistir de perto à sua felicidade, posteriormente a vontade de querer interferir, para no fim querer ser a fonte omnipresente de qualquer sentimento risonho naquela alma desgraçada. A memória acorda, o susto passou. As mãos dela continuam na carne fraca. O silêncio desconfortável toma lugar. As línguas afiadas tinham-se cortado, uma na outra. A viagem continuou, no mais indiscreto dos silêncios. A minha cara reconhecida procura ansiosamente o botão mais próximo e carrega insistentemente num libertar da mulher possante que existe em si. Acabam por sair as duas, em passo corrido, na paragem dos limões. Sobe um rapaz franzino com mãos de pianista, vestido de preto, mal se vêem as suas feições. Talvez por não as ter. Compra o seu bilhete e pica-o. Conquista um olhar atento da rapariga de vidro, que assustadiça o desvia num ápice. Subimos até ao vigilante Miradouro de Santa Luzia, onde sobre os telhados do Bairro de Alfama avisto o Tejo e os segredos que ele me guarda. Lisboa parece um quadro visto daqui. As luzes de presença em cada casa, que abraçam esta cidade que se entranha em nós. Passamos pelas Portas do Sol que só iluminam a noite clara do castelo. Uma mulher demasiado produzida para uma noite de quarta-feira calma entra no eléctrico. O ar de luxúria denuncia esta senhora que se pretende menina, pelos quilos de maquilhagem que transbordam do rosto. A indumentária curta e justa adormece-lhe a alma. Observa-me fixamente. Evito um confronto directo e baixo a medo o olhar. Continuo a sentir-me pressionada pelas pestanas plenas de rímel exagerado. Encaro. Vejo uma mulher de ar triste, provavelmente nunca conheceu um homem fixo, escolheu ter maridos aqui, ali e acolá, nunca permitindo a intimidade, pois esta corrói a pele e o coração. As rugas não saem, não podem ser arrancadas do coração. A verdade reside em não tentar, negar a permissão do aconchego. Sofre-se tanto com o envolvimento, mais do que com as dores de parto. Os gatos arranham muito e deixam marca. Assim recusou durante a vida toda, toda a sua vida e com ela a hipótese de ser arranhada. Deixa de me fitar, como se eu a soubesse de cor e salteado, cada espaço da sua parca existência. Seguimos pela Calçada, as ruas de tão espartilhadas fazem do motorista um homem dotado nas artes circenses. Lá fora, numa varanda encharcada pela luz da noite, um homem morre em cada passa do cigarro quase beata, enquanto observa o eléctrico emparedado. Uma sensação de desconforto invade o meu corpo morto. Como aquele 28, também eu me sinto um enlatado fora de prazo. Os restantes passageiros mantêm-se intactos à minha dor: não a sentem. A rapariga de vidro fixa o chão com o olhar morto, o rapaz das mãos de piano procura a vida possível nos olhos dela, a mulher gato como que se arranha provocando enormes manchas vermelhas na sua pele, talvez estas lhe possam dar a resposta à procura do sentir cru do seu corpo. Mas esta não chega. Então, o Campo das Cebolas anuncia uma hipótese de compra, quem sabe até de uma mudança, a feira da ladra espera-os numa qualquer alvorada. A cidade aguarda, o seu lado desbragado acolhe incondicionalmente, o seu lado racional impõe um filtro e dá forma ao mais recorrente dos mortais. Os carris seguem pela Voz do Operário, prédios burgueses pintam a paisagem em pinceladas ricas, as minhas pupilas ficam completamente desorientadas, com tamanha tentativa de grandeza. É curioso que numa rua com voz de proletariado, sucedam em fila os tons do novo-riquismo já gasto. O tom ditatorial invade o amarelo 28 através de antigos palácios e igrejas presentes nas imediações. Um cheiro cáustico paira no ar, a viagem começa a ser longa demais. A mulher gato sente-o nas mãos, a energia renegada vai ao encontro da próxima paragem. É visível o seu desassossego em sair. Os suores frios tomam-lhe o corpo. Sai em desgraça. Nem sequer consigo despedir-me. Lá dentro vive-se um pleno estado de graça. A luz já não os ofusca. Olham-se de frente como gente grande. O rapaz do piano nem pestaneja. A segurança do sentimento opera verdadeiros milagres no comportamento comunicacional. Como se o seu futuro não pudesse aspirar a ser outro que não ao lado dela. Como se de uma situação irreversível se tratasse. Abro a palma da minha mão no vidro, da minha já conhecida janela, imprimo a minha impressão digital gordurenta e recordo uma breve história. Quanto a vida teima em não chegar e nos perdemos nas horas percebemos que a sombra tem virtudes que a luz desconhece. A minha história é o cinzento-escuro da sombra. Conheci em tempos um homem chamado Pedro que morava num ermo, sozinho entre os seus livros. Os dias escorriam por entre as letras, as páginas que folheava, enquanto estava sentado no seu sofá cor de caramelo gasto. Pedro acabara de começar um novo livro. A capa era em veludo sangue, as páginas densas, pesadas como as horas, a ansiedade de Pedro tomara-lhe o corpo, tinha de começar a devorar o livro! As letras narravam a Pedro a vida de um indivíduo, só acompanhado pelas bruxas que voavam por cima do seu telhado à noite. O espaço primava pela claustrofobia. Uma mesa e uma cadeira de pinho, uma lareira, um velho sofá castanho claro. Pedro sentiu um arrepio e imediatamente colocou mais uma cavaca, os dias estavam cada vez mais frios. Continuou a ler, o homem do livro gostava de ficar sentado no seu sofá a imaginar vidas possíveis, diferentes daquela que lhe tinha sido reservada, mas o calor tomou-lhe o corpo inerte. O indivíduo decidiu fazer das suas horas, horas de leitura, pegou num livro com uma capa estranha, veludo sangue... páginas densas... Pedro deu um salto. Acabara de se aperceber que aquela história era a sua própria história. O desespero tomou conta de si. Continuou a ler, tudo batia certo até o rasgo final de loucura, em que Pedro tomado pela dor corria, corria e o destino era sempre o mesmo, o seu ermo, o seu sofá, aquele livro. Vezes sem conta. Pedro era um homem condenado a sua própria sombra. Assim como o rapaz do piano era um corredor da morte portátil vencido pelo arrepio fácil provocado pela doce rapariga de vidro. Olho em redor, estamos em plena Rua da Graça, de tom puro aristocrático, talvez o homem que põem a mesa e a levanta por um quase amor, venha visitar os seus preciosos amigos das tertúlias ao sábado, religiosamente às três da tarde. O cheiro do formol invade-me as narinas, desconheço a sua origem. Até que reparo na nova aquisição do nosso meio de transporte. Uma senhora marcada pelo tempo, plena de reumático e sabe Deus sei lá mais o quê. Arrasta-se com a bengala e bisbilhota o lugar mais agradável com a ponta da mesma. Decide-se por um banco individual, ainda quentinho, colado à janela com a mais espectacular das vistas, gosta de ver a cidade à noite, longe da excitação do trânsito frenético, do instinto animal da buzinadela enquanto acto reprimido. Passam os Sapadores e os seus bombeiros, ninguém sai, nem ninguém entra. A minha Lisboa trocou-me os sonhos e as mãos. Sofri uma mutação penosa. Existe um antes e um depois de Lisboa. Ardi à muito em chagas pestilentas reflectidas no liquido lacrimal de estupefacção nos olhos dos transeuntes. Madrugadas poeirentas que varri do meu chão escuro. Mas que recordo, tal como as bruxas que voam por cima do meu telhado à noite e não me deixam dormir. Passamos por outras ruas, as angelinas, as marias aos molhes, nada parece ter importância. A rapariga de vidro e o rapaz de piano parecem ter-se esquecido do destino da sua viagem, conversam quilómetros na mais pura das excitações. A mulher do reumático suspira, como que adivinhando que aquele amor récem-nascido é a prova de que há quem não espere nada de nada e consiga um pouco do tudo. O rapaz sente que encontrou a sua falta maior, sente-se vítima daquela que quer, numa só rajada, a do coração. A rapariga do vidro, narra num sussurro gritante as suas venturas e desventuras. Como quem não quer, mas facilmente consegue, ouço a conversa deliciada. “Conheces Max Aub? Por vezes transpiro aquela realidade, instalo-me nela, um dia quando fizer amor com um estranho vou matá-lo porque ele insiste em contar as moscas do tecto (...)” ao discurso segue-se uma risada, completa de sarcasmo, comum àqueles dois corpos frágeis. Chegamos à Igreja dos Anjos, está na hora de ir rezar a dezena com as outras beatas plenas de doenças que aquando a verbalização ganham um novo encanto e são motivo fácil de disputa. Ouve-se o tilintar do amarelo, a custo levanta-se do seu lugar preferido e segue o seu caminho. Fico a pensar que talvez esta igreja me pudesse confessar, qualquer padre servia, até um estranho, para o efeito. O mais provável seria ter de rezar por mim e pela cidade. Uma dezena, um Pai Nosso, dez Avé Marias e o que mais viesse. Anjo da guarda és a minha companhia, guarda a minha alma de noite e de dia... Anjo da guarda és a minha companhia, guarda a minha alma de noite e de dia... Anjo da guarda és a minha companhia, guarda a minha alma de noite e de dia.... Anjo da guarda és a minha companhia, guarda a minha alma de noite e de dia... Anjo da guarda és a minha companhia, guarda a minha alma de noite e de dia... Quando algo de errado acontece repito o verso até à exaustão na esperança de algo mudar, o que acaba quase sempre por suceder. Sinto falta da minha música, da explosão das notas. Sempre que penso em sons, lembro-me da Festa da Música em Belém e numa frase de uma qualquer criança, impressa numa parede do Centro Cultural de Belém, aquando do evento: “Lizst tinha as mãos tão compridas que percorria o teclado como o vento.” E então, acordo para o presente amor com que viajo, o rapaz do piano toca Lizst com os lábios na mais doce melodia semântica à rapariga de vidro. Um dia, ela irá ouvir o resultado daquelas mãos nas teclas pretas e brancas, o sentir dos ponteiros do relógio a parar e ela a morrer com eles, entregue ao mais singular dos amores contemporâneos. Chegados à Rua da Palma, o rapaz do piano pega na mão de vidro com força, olha fundo nos botões esverdeados dela e carrega no botão vermelho sangue. Saem a correr, embora não tenham pressa nenhuma em ver o tempo a passar. Vejo-me sozinha com o meu capitão. A noite vai alta e estou como comecei. Mas com uma maior riqueza interior. Todas estas almas desgraçadas, passam por mim, sem me reconhecer, dia após dia, noite após noite, pelas minhas ruas, praças, largos, pelas minhas calçadas, pelo meu norte, o meu sul, o meu oriente, o meu poente, a minha vida, a morte que repousa em mim, os meus amores, os vossos desamores, os castelos, as igrejas, os cemitérios, as minhas pontes, os meus prédios, as minhas casas, o fado, o bairro alto, as minhas estrelas, o meu reino, o meu Tejo que guarda o meu segredo, de saber quem sou eu e onde moro. Eu sou a Lisboa que vos livra do fogo do inferno, sem que por isso notem. Que vos absolve dos pecados, fingindo não os ver. Que vos embala e abraça numa qualquer noite só. E assim morro, aos poucos, como uma doença qualquer. Cheiro o Martim Moniz à distância, os fortes caris e outros condimentos acordam-me da dormência. É a última paragem, mas não a derradeira. É a minha vez de fazer o dedo ouvir-se. Fico sentada até me ser possível, a cidade parece-me sempre tão bonita vista desta minha janela. Saio em passo lento, como se uma parte de mim morresse naquela breve despedida.
Havia um homem morado por uma Lisboa.
Sinto a calçada suja e dura, o azul da noite, o brilho da cidade deslumbra-me. A chuva miudinha a cair, a chuva molha-tolos que nos molha a todos. Sinto-a trespassar-me a roupa, entra-me nos ossos que estalam de frio. E eu espero e tu não chegas. Não me foste buscar ao 28 como havias prometido. Não sei o que é o amor, meu amor. Mas sei, sei o que é o amor, é aquilo que me está a apertar a garganta, a dar um nó, a puxar fundo, aquilo que sinto quando sei que nunca vou beber um chá contigo, na esplanada do castelo, enquanto púnhamos a conversa em dia numa tarde de primavera, a ver a luz reflectida do mar da palha a espraiar-se sobre os telhados, assim encontrei a luz perfeita. Já não te procuro nas pessoas que passam por mim... amor. Isso e as outras estórias, o que terá sido feito do homem de ar aristocrático, terá posto a mesa e vomitado o telejornal? A mulher gato, será que um dia vai experimentar um arranhão e não fugir a sete pés? As roliças acabarão com a fachada e vão dar uma facada nos respectivos casamentos? A beata rezou por mim, uma dezena sequer, ou terá sido a minha alma abençoada com um terço inteiro? A rapariga de vidro e o rapaz do piano deram o seu primeiro de muitos beijos lânguidos de olhos perfeitamente fechados? Só precisava de uma explicação para atar as pontas soltas que ficaram, depois tudo seria atado com um robusto cordel, cuidadosamente arrumado numa caixa de papelão, e guardado, no departamento de perdidos e achados identificado como P3 letra L... L... de Lisboa.




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