Matemática em tempos sombrios
David Leavitt é oriundo de Pittsburgh, Pennsylvania, licenciado pela Universidade de Yale, professor na Universidade da Florida, especialista em contos (a sua primeira colectânea “ A Dança em Família”, publicada 1984, fez dele uma referência incontornável) e autor de ensaios, de livros de viagens e de romances dos quais os mais famosos são “A Linguagem Perdida dos Guindastes” (1986), “Sentimentos Paralelos” (1989) e “Martin Bauman. Ou, Uma Presa Segura”, (2000). Na sua obra mais recente, “O Escriturário Indiano” (2007) descreve a peculiar relação entre o grande matemático inglês G.H. Hardy e o génio indiano Srinivasa Ramanujan. A história começa em Janeiro de 1913 em Cambridge quando Hardy recebe uma estranha carta, oriunda de Madras, na Índia, cheia de equações e proposições matemáticas originais e imaginativas, na qual Ramanujan lhe pede apoio e conselho. Hardy com a ajuda de J.E. Littlewood outra das “mentes brilhantes” da Universidade, desenvolve todos os esforços para trazer o matemático indiano para Cambridge onde, por essa altura, estudavam e/ou leccionavam alguns dos maiores pensadores e cientistas da Grã-Bretanha, como o aristocrático filósofo e matemático Bertrand Russell, o historiador Lytton Strachey, o crítico de arte Clive Bell, o escritor e politólogo Leonard Woolf e o (também) aristocrático economista John Maynard Keynes. Ramanujan tem grandes dificuldades de adaptação a Cambridge, onde tudo, do clima à alimentação, dos usos e costumes aos rituais próprios da Universidade lhe são totalmente estranhos. O deflagrar da Iª Grande Guerra piora a situação e Ramanujan é obrigado a permanecer em Inglaterra onde continua a colaboração com Hardy e Littlewood na tentativa de solução da Hipótese de Riemann. A difícil, extravagante e por vezes terna relação entre estes estranhos espíritos numa época de grandes confrontos e grandes esperanças a nível ideológico e científico é ficcionalizada por David Leavitt que aproveita para construir um romance histórico excepcional.
David Leavitt está a trabalhar no seu próximo romance que terá como cenário Portugal nos anos 40 do século XX.
Helena Vasconcelos: O seu interesse pela Matemática já existia ou partiu da sua experiência ao escrever a biografia de Alan Turing, o “pai” dos computadores?
David Leavitt: Foi James Atlas, da editora Atlas Books que me encomendou a biografia de Turing. Até essa altura nem sabia que me poderia interessar pela Matemática
H.V.: Escolheu os matemáticos Hardy, Littlewood e Ramanujan como personagens principais de “O Escriturário Indiano” porque eram pessoas interessantes ou porque viveram num tempo interessante?
D.L.: Não fui eu que escolhi a história, a história escolheu-me, a mim. Ou pelo menos foi isso que eu senti, na altura. Escrevi o romance para compreender o porquê do meu interesse nestas pessoas. Creio que foi porque todas elas se sentiam estranhas e desadaptadas. Nenhuma delas pertencia verdadeiramente ao mundo em que viveram.
H.V: Porque é que os seus personagens principais se sentem “outros”, diferentes?
D.L.: Hardy tinha consciência de que não era oriundo de uma família tão conceituada como a dos seus companheiros e amigos, em Cambridge; Littlewood manteve uma relação amorosa com uma mulher casada, o que o colocou fora da esfera convencional; e Ramanujan pertencia a um mundo e a uma cultura totalmente diferentes.
H.V.: A forma como Hardy encara a Matemática é totalmente oposta à de Ramanujan. O primeiro é ateu e racionalista; o segundo acredita que as fórmulas que enuncia lhe foram ditadas por uma deusa. Como escritor, este choque foi apelativo, para si?
D.L.. Sim, deu-me a possibilidade de abrir uma frincha na questão bem mais abrangente do choque entre a civilização oriental e ocidental.
H.V.: Apesar de serem ambos “marginais” num certo sentido, Hardy não é solidário com Ramanujan. Porquê?
D.L.: Hardy reconhece as semelhanças que existem entre eles mas é, sobretudo, um devoto ateísta (perdoem-me o oximoro) pelo o que não pode apreciar ou aceitar a profunda religiosidade de Ramanujan.
H.V.: Ramanujan é-nos revelado como uma espécie de Caliban com a sua “magia” e, também, como uma vítima nas mãos de quem pretende “civilizá-lo”, como uma espécie exótica que excita a imaginação – como no caso de Alice Neville (a mulher de E.H. Neville que acolheu Ramanujan em sua casa) com as suas preocupações erótico-maternais – e até como um génio teimoso e até infantil e caprichoso. Qual é o verdadeiro Ramanujan?
D.L.: Sim, certamente que ele representa tudo isso para as diversas pessoas que encontra, em Inglaterra.
H.V.: A Universidade de Cambridge funciona, no romance, como uma espécie de “personagem extra” com características muito particulares, uma comunidade com as suas própria “leis” e rituais. Será que representa um microcosmos que reflecte a própria Inglaterra?
D.L.: Cambridge era uma sociedade fechada. Mesmo durante a Guerra, quando os soldados eram acantonados em Cambridge e o Trinity College funcionou como um hospital militar, os rituais e as praxes continuaram como sempre tinham sido, ao longo dos tempos. Para o melhor e para o pior, Cambridge permaneceu (e permanece) uma ilha de estabilidade num mundo loucamente instável. É claro que a estabilidade também poderá ser comparada a um certo enquistamento.
H.V.: Será por causa disso que refere tantas vezes o “Tripos”, um exame obrigatório de Matemática, dentro do parâmetros newtoneanos que fazia parte da tradição de Cambridge e ao qual Hardy se opunha por o achar aberrante e arcaico?
D.L.: O “Tripos” é emblemático de como a estabilidade de Cambridge pode ser estupidificante. A tradição tem por vezes a desvantagem de ser um terrível obstáculo à criatividade mesmo que signifique a sobrevivência de certos ideais como a fé na aprendizagem e a fé na mente, que estas se encontram permanente em perigo.
H.V.: No romance descreve com vivacidade e faz referências – algumas irónicas – aos membros do Grupo Bloomsbury ( Virgínia e Leonard Woolf, Lytton Strachey, John Maynard Keynes, Vanessa e Clive Bell, entre outros) que, continuaram, em Londres, os encontros da sociedade secreta “Os Apóstolos”, em Cambridge. O que acha mais interessante nas pessoas que pertenciam a estas “irmandades”? A sua liberdade sexual e de pensamento? A sua obra? O seu snobismo?
D.L.: Interessam-me todas essas facetas nas pessoas que compunham o Grupo Bloomsbury e o de “Os Apóstolos”:
H.V.: Para além de discutirem, por vezes agressivamente o que se estava a passar em Inglaterra e no mundo, mais do que trocarem ideias no âmbito da Ciência e da Filosofia e de registarem todos os encontros num Livro, estas pessoas submetiam-se a rituais bizarros e tinham que comer as célebres sardinhas em tostas (a que chamavam “baleias”). Interessou-lhe este misto de “alta cultura” com comportamentos “de rapazes”?
D.L.: É verdadeiramente extraordinário constatar que, nas suas vidas privadas, estas mulheres e estes homens que, eventualmente, tiveram um tão grande impacto na literatura, nas artes, na política e no pensamento, podiam ser tão infantis e tontos como qualquer de nós. Impressionou-me também o facto de eles personificarem impulsos tão contrários: uma ética feroz no seu trabalho, voracidade sexual, rebeldia (até um certo ponto), snobismo, determinação em mudar o mundo e um certo sentido de divertimento e de jogo.
H.V.: Na sua obra é frequente abordar assuntos relacionados com a família. Ao descrever a forma como Hardy se relaciona com a mãe e com a irmã, pretendeu mostrar que esta instituição se alterou profundamente na época em que decorre o romance?
D.L.: Não, realmente, não. Recorde-se que, por exemplo, Lytton Strachey fazia parte de uma grande família que era fonte de inspiração e de opressão.
H.V.. Mas, para Strachey, a família eram os seus amigos do Bloomsbury. Não acha que há uma mudança em relação ao modelo vitoriano?
D.L.: Sim, reconheço que é verdade. O que eu quis dizer foi que nenhum deles conseguiu escapar inteiramente à influência de uma modelo familiar, apesar de este ser pernicioso.
H.V.: À chegada a Inglaterra, Ramanujan é mal compreendido e maltratado mesmo por aqueles que “apenas desejam o seu bem”. Poderemos interpretar esta atitude como um reflexo da praxis colonialista?
D.L.: O romance oferece, sem dúvida, uma crítica ao colonialismo. No entanto, convém notar que o próprio Ramanujan se sentia como um inadaptado e que, na realidade, investia muita energia nessa imagem de si próprio. O seu sucesso adveio da sua posição rebelde, do facto de ele ter sido alguém que conseguiu ver reconhecida a sua tenacidade, apesar da indiferença das instituições. Quando ele é finalmente aclamado pelo poder instituído não consegue conciliar essa aceitação com a identidade que ele cultivou durante muito tempo.
H.V.: “O Escriturário Indiano” contém uma descrição muito cuidada da sociedade britânica nas vésperas e durante a Iª Grande Guerra, mostrando as suas múltiplas contradições e a forma como se encontra dividida entre a modernidade e a tradição. Foi sua intenção marcar estes dilemas?
D.L.: Sim e espero que tenha funcionado. Houve quem caracterizasse o romance como anti-inglês. Respondo que, como romancista, o meu trabalho é olhar os seres humanos com compaixão e as sociedades com um olhar crítico.
H.V.: Com a sua experiência em questões relacionadas com direitos de autor, como analisa a colaboração entre Hardy, Ramanujan e os outros matemáticos?
D.L.: É muito difícil comparar o que se faz ao escrever ficção com o trabalho dos matemáticos. No entanto, vale a pena referir que este tipo de colaboração é muito rara e que Hardy foi um dos poucos grandes matemáticos que o fez.
H.V.: Hardy é, também, retratado como um homem contraditório: um intelectual fiel às suas ideias, distante, dedicado ao seu trabalho, coerente nas suas crenças e, ao mesmo tempo, um monstro de egoísmo, ciumento, frio. Concorda?
D.L.: Ele era um homem complexo, como todos nós.
H.V.. Os sentimentos amorosos parecem estar arredados das suas personagens. No entanto, inventou Thayne, o amante de Hardy? Fê-lo para o tornar mais “humano”?
D.L.: Há amor entre Littlewood e a sua amante. E creio que Alice (Neville) amou Ramanujan. Mas em Inglaterra, nessa época, o amor, a sexualidade e o casamento representavam três canais bem distintos no âmbito das relações humanas. (Repare-se em Virgínia Woolf) Só muito raramente uma pessoa satisfazia a outra como marido ou mulher, como amante e como um objecto de fascínio sexual, ao mesmo tempo. Bertrand Russell, nos seus últimos anos de vida, tentou resolver esse dilema (sem muito sucesso) com o seu casamento aberto com Dora Black.
H.V.. Em toda a sua obra o sexo ocupa um lugar importante, tanto como parte de ritos de iniciação como afirmação de liberdade e até de rebeldia. Em “O Escriturário Indiano”, este tema surge mais diluído, submergido pelos factos históricos. Por que razão existe esta alteração?
D.L.: À medida que envelheço sinto-me cada vez mais atraído pela escrita de romances situados no passado – especialmente no tempo em que eu ainda não era nascido – porque me parece virtualmente impossível acompanhar o ritmo acelerado das mudanças que parecem estar a definir o futuro do século XXI. Por exemplo, o derrame de combustível no Golfo do México é uma catástrofe incomensurável. Mas até que seja possível medir essas consequências não tenho a pretensão de “compreender” o seu significado. Ao escrever sobre o passado, em “O Escriturário Indiano”, enfrentei o desafio de tentar transmitir a sensação do que era viver num tempo catastrófico, providenciando para que o leitor pudesse ter alguma distância, mesmo sabendo como a “história” acaba.
H.V.: O facto de ter utilizado um ritmo de descrição lento deve-se ao facto de ter sofrido a influência das obras de escritores do início do século XX ou porque desejava transmitir a cadência dos tempos da guerra que parecia nunca mais acabar?
D.L.: É uma questão interessante. Na realidade tinha a intenção de escrever um livro mais curto. Mas quanto mais aprendia sobre aquele período, mais importante se tornava abrandar, para melhor reflectir o ritmo mais lento da vida, naquela altura.
H.V.. Quais os escritores que lê com mais prazer?
D.L.: Os meus preferidos são Forster, Ford Madox Ford, Muriel Spark, Proust, Georges Simenon, Nabokov e Graham Greene. E Óscar Wilde, naturalmente. Henry James é um escritor que admiro mas que não consigo amar. Gostava de Isherwood quando era mais novo mas não o releio, ultimamente. Quanto a escritores que têm tratado temas da História os que mais admiro são Pat Barker, Bruce Duffy, William Boyd, Joanna Scott, Penelope Fitzgerald e José Saramago, especialmente “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.
H.V.: Neste romance, a Matemática, como disciplina surge como uma metáfora de liberdade de acção e de pensamento em tempos sombrios. Concorda?
D.L.: Não há dúvida que o pensamento matemático puro não pode ser controlado ou limitado por instituições ou regimes.
Nota: Esta conversa aconteceu no início de Junho 2010, altura em que a obra de José Saramago foi discutida longamente, fora do âmbito da entrevista. Com a notícia da morte do autor português, David Leavitt prestou-se, simpaticamente, a fazer um comentário:
“Saramago é, para mim, um dos grandes escritores dos últimos cem anos. Mesmo nos seus romances mais alegóricos, o leitor percorre o solo de terra e tijolos do mundo mortal. A prosa é rapsódica e a sensualidade dos detalhes, na sua precisão, atinge a perfeição. Para mim, o mais extraordinário é a coragem com que os personagens de Saramago enfrentam as mais tenebrosas circunstâncias: veja-se Ricardo Reis em “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “ … agarrem-se a qualquer crença que persiste… a fé será o vosso álibi… chega-se a um ponto em que não existe mais nada a não ser esperança e então descobrimos que a esperança é tudo”.
Nota 2: Parte desta entrevista foi publicada no jornal Público, Suplemento Ípsilon. www.publico.pt
21 Junho, 2010
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